Governadores e Bolsonaro divergem sobre compra de vacina contra Covid-19

Estados ameaçam acionar Congresso e Justiça para derrubar a decisão presidencial de rejeitar a compra da vacina da chinesa Sinovac. Políticos cearenses reagem à suspensão do protocolo

Legenda: Vacina CoronaVac, desenvolvida pela Sinovac, é exibida ao público, em Pequim, capital chinesa
Foto: AFP

A decisão do presidente Jair Bolsonaro de rejeitar a compra da potencial vacina da chinesa Sinovac contra a Covid-19 gerou, ontem, reações de vários governadores, incluindo Camilo Santana (PT). Os chefes de Executivos estaduais já falam em recorrer ao Congresso Nacional e à Justiça para garantir a vacinação com todos os imunizantes disponíveis.

A potencial vacina da Sinovac, batizada de CoronaVac, é uma das que estão sendo testadas no Brasil em um estudo liderado pelo Instituto Butantan, do governo paulista. Bolsonaro desautorizou o ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, e determinou o cancelamento do protocolo de intenções assinado pelo auxiliar na última terça-feira (20).

"Não será comprada", respondeu Bolsonaro na sua página no Facebook, diante do comentário de um apoiador que criticou o fato de a vacina da Sinovac ser chinesa. O apoiador afirmou também que a China, maior parceiro comercial e importante destino das exportações agrícolas brasileiras, é uma ditadura.

Horas depois, o secretário-executivo da Pasta, Élcio Franco, leu um comunicado em que contraria o anúncio feito na véspera e disse que "não houve qualquer compromisso com o governo do Estado de São Paulo ou seu governador, no sentido de aquisição de vacinas contra Covid-19".

Afirmou ainda que não há qualquer intenção de comprar vacinas provenientes da China, como Pazuello havia anunciado na terça.

Em reunião com os 27 governadores dos Estados e do Distrito Federal, o ministro havia assinado um protocolo de intenções para a compra de 46 milhões de doses da vacina do Butantan-Sinovac.

Em outra publicação no Facebook, Bolsonaro apontou que a vacina não tem ainda comprovação científica. "O povo brasileiro não será cobaia de ninguém". Em visita a uma obra em Iperó (SP), o presidente voltou ao assunto.

"Nada será despendido agora para comprarmos uma vacina chinesa que eu desconheço, mas parece que nenhum país do mundo está interessado nela", disse o presidente, acrescentando que "toda e qualquer vacina está descartada. Ela tem que ter uma validade do Ministério da Saúde e uma certificação por parte da Anvisa. Fora isso não tem qualquer dispêndio de recursos".

Repercussão

Doria, que é visto como provável candidato à Presidência em 2022, pediu "sentimento humanitário" a Bolsonaro.

"A vacina é que vai nos salvar, salvar a todos. Não é a ideologia, não é política, não é processo eleitoral que salva. É a vacina", disse o governador paulista.

Camilo Santana também comentou a decisão de Bolsonaro sobre não comprar a vacina. "Não se pode jamais colocar posições ideológicas acima da preservação de vidas", disse no seu perfil oficial do Twitter. Ele também pediu que a decisão de adquirir a vacina seja guiada por "critérios técnicos".

"Lutaremos para que uma vacina segura e eficaz chegue o mais rápido possível para todos os brasileiros", tuitou o governador do Ceará.

Já o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), disse que os gestores estaduais irão ao Congresso e à Justiça para garantir vacinas. "Não queremos uma nova guerra na Federação. Mas com certeza os governadores irão ao Congresso Nacional e ao Poder Judiciário para garantir o acesso da população a todas as vacinas que forem eficazes e seguras. Saúde é um bem maior do que disputas ideológicas ou eleitorais".

Também se manifestaram governadores do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), e do Espírito Santo, Renato Casagrande (PSB).

Ceará

O presidente do Consórcio Nordeste e governador do Piauí, Wellington Dias, defendeu que o Governo Federal cumpra o compromisso fechado na terça com os governadores. "Não podemos jogar na lata de lixo o importante momento de pactuação que tivemos na terça. O próprio ministro Pazuello fez questão de frisar que falava ali em nome do presidente da República e garantiu que iria comprar a primeira vacina que ficasse pronta no Brasil", recordou.

Parlamentares da bancada cearense no Congresso também reagiram ao caso. Para o deputado André Figueiredo (PDT), líder da oposição na Câmara, a decisão de Bolsonaro deve ser mais uma de suas "contradições". "O Congresso Nacional vai atuar para que o Poder Executivo assegure que o Brasil receba todas as vacinas que estão sendo desenvolvidas, desde que tenham eficácia comprovada", ressaltou.

Já o deputado federal José Guimarães (PT) disse que um projeto de lei que torna obrigatória a vacinação contra a Covid-19 será apresentado. "Caso aprovada, a proposta garante que toda e qualquer vacina que vier a ser aprovada pela Anvisa será obrigatória e vai compor o Programa Nacional de Imunizações. Pessoas dos grupos de riscos terão prioridade no recebimento", disse.

Parlamentares cearenses da base de apoio de Bolsonaro foram procurados pela reportagem, mas não responderam aos pedidos de comentários.

Aversão à vacina

A aversão de Bolsonaro a uma vacina de origem chinesa não é exclusividade do chefe do Executivo. Um estudo com 2.771 brasileiros feito pelo Centro de Pesquisa em Comunicação Política e Saúde Pública da Universidade de Brasília (CPS/UnB) indicou que a associação com uma vacina vinda da China reduz em 16,4% a intenção de imunização da população. Quanto à vacina russa, a intenção diminui 14,1%.

Gestores do Nordeste

Paulo Câmara (PSB), governador de Pernambuco, disse que “a influência de qualquer ideologia em temas fundamentais, como a saúde, só prejudica a população”. Fátima Bezerra, do Rio Grande do Norte, defendeu o acordo . “Que prevaleça a união e a responsabilidade com a defesa e a saúde das pessoas. E que o que foi pactuado ontem (terça) seja assegurado, que é a vacina gratuita para todas e todos os brasileiros”.

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