Eleições 2020: Disputa por territórios deve se acirrar entre vereadores na Capital

Com a proximidade da campanha, a cobiça por bairros ou regiões da Capital tidos como redutos eleitorais fica em evidência e tende a intensificar a concorrência por votos entre parlamentares. Há, além disso, preocupação com "invasores"

A poucos dias do início da campanha eleitoral, a ser liberada a partir do próximo dia 27, a disputa por territórios em Fortaleza tem provocado tensões entre vereadores que dividem as mesmas bases eleitorais e tentam intensificar a presença junto ao eleitorado. São 1,8 milhão de votos, distribuídos entre a população de 121 bairros, em jogo na Capital. O acirramento, que também envolve candidatos sem mandato eletivo, tem ocorrido desde as incursões de pré-campanha e tende a aumentar, projetam parlamentares.

O incômodo se dá principalmente pelas investidas de alguns colegas, inclusive de nomes que deixaram o Governo Municipal, em "território consagrado" de vereadores, mas também pela vinda de "forasteiros" que buscam conquistar votos nas bases dos parlamentares. Sem coligação neste ano, todos são adversários no pleito.

Nos bastidores, eles classificam as abordagens de alguns pares nos bairros como uma "invasão sorrateira". Em outras localidades, a disputa entre vereadores já é conhecida como "tradicional" e "escancarada". Apesar de deixarem transparecer o desconforto com "invasores" e com os "donos de bairros", o discurso de alguns vereadores é de respeito aos colegas: "há voto para todo mundo", dizem.

Um dos bairros cobiçados por mais de um vereador é o Jardim das Oliveiras, onde moram Larissa Gaspar (PT) e Dummar Ribeiro (PP) - a área é o principal reduto eleitoral dele. A petista diz, porém, que "brigas" entre candidatos por territórios são "lamentáveis", porque o eleitor sabe quem "faz por ele". Ribeiro também afirma que não entra em confrontos, que "deixa os outros resolverem".

Territórios

Outra região que deve ser alvo de disputas é a Grande Messejana, base eleitoral dos vereadores Renan Colares (PDT), José Freire (PDT) e Cláudia Gomes (DEM). Lá, há veteranos e novos nomes tentando se firmar. "A área é muito acirrada. Tem ex-vereadores e vereadores que tiram voto lá", situa Renan Colares. Em eleições passadas, a Messejana foi palco, inclusive, de troca de acusações de corrupção entre ex-vereadores.

Na região do Grande Bom Jardim, os parlamentares concorrentes são Didi Mangueira (PDT) e Marcelo Lemos (PSL). Já Conjunto Esperança, Parque Santa Rosa, Parque São José e Vila Manuel Sátiro são bairros disputados pelo atual presidente da Câmara Municipal, Antônio Henrique (PDT), e pela vereadora Bá (PP). Henrique mora no Parque Santa Rosa, mas tem como principal reduto de votos o Conjunto Esperança e arredores. Bá, por sua vez, mora na Vila Manoel Sátiro, onde tem sua principal votação, mas também soma votos nas adjacências.

O acirramento entre candidatos à Câmara Municipal nos bairros é apontado por especialistas como natural. "Não tem como isso não acontecer, porque é da própria dinâmica da disputa na cidade, e o vereador é o mais próximo do eleitor", destaca o cientista político Emanuel Freitas, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

Apadrinhamento

Para o cientista político Josênio Parente, também professor da Uece, o confronto é natural na política, assim como em outros setores da sociedade em situações de concorrência. "O vereador precisa do corpo a corpo, porque a disputa dele é pela simpatia, confiança. Quando aparece outra pessoa, o acirramento é grande. Antes tinha cabo eleitoral que fazia uma perseguição, até que a pessoa desistia da área", cita.

Há entre parlamentares, ainda, interesse por territórios "sem padrinho". Com a morte do ex-vereador Martins Nogueira em 2018, alguns vereadores apontam a Parangaba, por exemplo, como "desapadrinhada" e cobiçada neste pleito municipal.

A vereador Marília do Posto (PSB) tem o bairro como reduto eleitoral e busca ampliar votos na região, assim como outros parlamentares e candidatos. A própria viúva de Martins Nogueira, Célia Nogueira (PSB), tentará herdar votos do marido no bairro em busca de uma vaga no Legislativo.

Pautas

Não é apenas a lógica de disputa por territórios, porém, que está presente na eleição para vereador. Também há concorrência entre vereadores que compartilham bases ideológicas ou que representam segmentos. Pelo menos 12 dos atuais parlamentares não têm territórios de domínio, mas apostam em representações por uma causa ou setor. Os que dividem os mesmos nichos devem concorrer entre si e com novos nomes.

"Minha base é ideológica, de valores religiosos, no direito da família", comenta a vereadora Priscila Costa (PSC). O vereador Jorge Pinheiro (PSDB) também partilha dos mesmos preceitos: "meu voto é em defesa da família, contra o aborto", declara.

Evaldo Lima (PCdoB), por sua vez, diz que seu eleitorado em potencial está mais atrelado às pautas da Educação e da Cultura. Ronivaldo Maia (PT) também tem base nas duas áreas, assim como outros.

Diferenças

Para os cientistas políticos, nesses casos, o desafio é se mostrar como o "melhor do melhor" aos nichos. "Tem muita temática repetida", pontua Emanuel Freitas. "Tudo gera disputas, porque vai se construindo uma audiência".

Já Josênio Parente observa que há diferenças entre os dois tipos de bases eleitorais - as "territoriais" e as ligadas a pautas ideológicas. "Quando controla uma ideologia, o eleitor tende a ser mais fiel. Votar sempre nesse que defende a sua causa. Agora, quando se decepciona, pode haver um rompimento", completa.

Disputa maior nas periferias

Por serem áreas com necessidade de mais melhorias, as disputas territoriais entre candidatos são mais acirradas nas periferias, conforme avaliam cientistas políticos. 

“A eleição municipal em si tem essa conotação bastante local: ‘voto nele a partir do que ele promete trazer para mim, para o meu bairro, para minha região’”, analisa Emanuel Freitas. 

Josênio Parente considera, ainda, que embates tendem a se expandir a bairros vizinhos porque há problemas semelhantes. 

“Nas rendas mais baixas, é onde as disputas são mais acirradas, porque é onde mais se precisa que o vereador vá buscar políticas públicas. E quando aquele vereador não faz, ele dá espaço para outro entrar”.

Freitas, por sua vez, ressalta que, muitas vezes, um bairro sozinho não tem seções eleitorais ou eleitores suficientes para garantir eleição de um candidato, por isso ocorre de disputas se estenderem para “bairros vizinhos”.

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