Holocausto Brasileiro: uma tragédia esquecida
Por décadas, olhamos para o Holocausto perpetrado por Hitler como um marco da barbárie humana. Não é minha intenção diminuir a gravidade desse evento, mas será que estamos cientes de que já vivemos um holocausto em solo brasileiro? Por muito tempo, essa página tenebrosa da nossa história foi relegada ao esquecimento coletivo.
Entre 1930 e 1980, o Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, foi uma ferida aberta na história brasileira, um cenário de terríveis atrocidades cometidas por médicos, psiquiatras, enfermeiras, governo e indivíduos influentes da sociedade. As vítimas, muitas delas marginalizadas e sem voz na sociedade, foram privadas não apenas de sua liberdade, mas também de sua dignidade e humanidade.
A crueldade não conhecia limites, desde a lavagem que comiam ou das crianças que nunca sequer foram livres, nascendo e morrendo naquele hospital. Histórias como a de Antônio Gomes da Silva, que, sem diagnóstico, ficou vinte e um dos trinta e quatro anos de internação mudo porque ninguém se lembrou de perguntar se ele falava. O hospital abrigava 5 mil pacientes em um espaço para 200 pessoas. Estima-se que pelo menos 70% dos internados nunca tiveram qualquer doença mental diagnosticada.
O manicômio, durante anos, representou o paradigma predominante na abordagem da saúde mental, onde o trancar, a exclusão e a institucionalização eram consideradas formas de tratamento para aqueles que se desviavam das normas sociais estabelecidas. Os internados eram vítimas de uma sociedade que os marginalizava por motivos fúteis. O Colônia se tornou destino e morada de homossexuais, militantes políticos, mães solteiras, alcoólatras, mendigos, negros, pobres, pessoas sem documentos; em suma, o destino dos indesejados era o Colônia. No entanto, hoje reconhecemos que essa abordagem era profundamente desumana e injusta, levando a atrocidades indescritíveis como as ocorridas no Hospital Colônia de Barbacena.
É nosso dever lembrar, aprender e garantir que atrocidades semelhantes nunca mais aconteçam. O movimento de luta antimanicomial surgiu exatamente para isso, buscando o fim dos manicômios e a criação de um serviço de saúde mental mais humanizado e inclusivo, que promovesse a reinserção dos pacientes na sociedade. Este Holocausto Brasileiro deve ser lembrado para que as vítimas não sejam esquecidas e para que possamos construir um futuro mais justo e humano, onde todos tenham acesso ao tratamento e apoio necessários para viverem com dignidade.
Vilkiane Malherme é docente do curso de Psicologia da Estácio Ceará