Economia e medicina
Existe muita semelhança entre as ciências médicas e as ciências econômicas. Nas duas são relativamente fáceis os diagnósticos e as terapêuticas, isto é, a identificação de uma doença ou de um problema e a determinação dos meios adequados para a superação. Todavia, a grande dificuldade para encontrar uma solução eficaz está em definir a posologia correta, a dosagem que não implique em efeitos colaterais negativos. Muitas vezes um paciente toma uma dose de dipirona para combater uma dor de cabeça e o resultado é uma agressão ao fígado ou, de forma descontrolada, ingere antibiótico para debelar uma infecção provocando resultados indesejáveis na flora intestinal.
Por sua vez, na economia, ao adotar-se uma politica de combate à inflação mediante a elevação da taxa de juros, via de regra, o resultado poderá ser uma expansão do índice de desemprego ou então um câmbio não flexível poderá implicar numa queda de competitividade dos bens e produtos de exportação, com reflexos não interessantes nos saldos da balança comercial, em contas correntes e no balanço de pagamentos. Outro exemplo de semelhança é a transfusão de sangue em um doente para recuperá-lo de um eventual problema e a injeção de recursos financeiros no sistema econômico, como uma forma de acabar ou reduzir uma depressão econômica.
No entanto, repito, tudo tem que ser conduzido de forma racional, observando-se as dosagens e as políticas corretas. Além dos efeitos colaterais, tanto os médicos como os economistas devem observar os fatores externos ou as variáveis aleatórias, pois podem causar impactos não esperados. A grande missão desses profissionais, em última análise, é compatibilizar e conciliar objetivos conflitantes, o que não é fácil. Realmente, o problema é de posologia. Um equívoco médico, como também uma decisão errada de um economista, podem levar a situações irreversíveis. A rigor, ambos os profissionais trabalham com a vida humana.
O primeiro de uma forma mais direta e o outro de uma maneira mais ampla. Diz-se que quando o médico se engana, a consequência é no varejo e, por outro lado, quando o economista erra na formulação de uma diretriz, o efeito é no atacado. Um remédio inadequado prescrito para uma pessoa pode ser fatal. Já uma política salarial injusta definida para um país poderá provocar resultados que atingem, até com a morte, uma grande quantidade de pessoas, em razão da fome, da violência, enfim, da exclusão social.
Gonzaga Mota é professor aposentado da UFC