Projeto no Ceará avança na criação de biocarvão a partir de resíduo de coco
III Fórum Nordeste de Economia Circular debate economia circular e coloca Estado em ponto central do debate.
O projeto que pretende criar um biocarvão, resultado da junção do resíduo do coco com o carvão mineral, terá a fase de prototipagem finalizada no primeiro semestre deste ano.
A iniciativa conta com incentivo da Secretaria de Desenvolvimento do Estado (SDE) e é uma parceria entre a Universidade Estadual do Ceará (Uece) e a empresa Diamante Energia, que faz a gestão da Energia Pecém, usina termelétrica instalada no Complexo Industrial e Portuário (Cipp).
A informação foi confirmada nesta quarta-feira (25), pelo secretário executivo da SDE, Rennys Frota, em entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste, durante a cerimônia de abertura do III Fórum Nordeste de Economia Circular (FNEC).
O evento ocorre até esta sexta-feira (27), reunindo painéis, oficinas, mentorias, plenárias, podcasts e intervenções artísticas nos espaços do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, Hub Cultural Porto Dragão e na KUYA – Centro de Design do Ceará.
Com o objetivo de debater práticas sustentáveis, insights da economia verde e inovação regenerativa, o FNEC coloca em foco políticas públicas voltadas à economia circular no Ceará. O conceito se refere a um modelo de produção e consumo que busca reduzir o desperdício ao máximo, mantendo produtos, materiais e recursos em uso pelo maior tempo possível.
Ceará é destaque em práticas econômicas sustentáveis
Segundo a presidente do Movimento Reinventando Futuros e organizadora do FNEC, Lídice Berman, a escolha do Ceará para sediar o evento neste ano não foi por acaso. Na visão da porta-voz, o Estado representa a pauta da economia circular com robustez e consciência.
“A questão da energia eólica e solar é algo que coloca o Ceará lá na frente, porque tem um percentual absurdo de uso. Aqui, a gente praticamente já não tem mais uso de combustíveis fósseis”, destaca.
De acordo com dados do Balanço Energético Nacional (BEN), em 2023, 71% da matriz elétrica estadual teve como fonte principal a energia eólica, enquanto a energia solar representou 25% da geração.
A empreendedora social e investidora de impacto Ticiana Rolim Queiroz também defende que o Ceará “está no caminho certo”.
Como presidente da Somos Um, plataforma que ajuda empresas a enfrentar desafios socioambientais com soluções em inovação social, educação empreendedora e desenvolvimento territorial, ela ressalta que transformar a lógica econômica atual em um modelo mais sustentável requer não só capital financeiro, mas capital técnico, político e social.
“Esse é um desafio humanitário. Precisamos botar o problema no centro, unir poder público, iniciativa privada, comunidade, organizações sociais, universidades, a sociedade civil como um todo. Podemos até reduzir nossa água e reciclar o lixo em casa, mas estamos em um momento muito grave. Então, precisamos unir essas forças para que possamos, de fato, virar essa chave”
Consumo consciente pressiona empresas por mudanças
Ser uma empresa sustentável não é mais questão só de consciência ambiental e social, mas se tornou necessidade para o sucesso do negócio. É o que também defende Ticiana Rolim. De acordo com a especialista, cada vez mais o público está exercendo um consumo consciente que trata não só de quantidade, mas de qualidade e propósito.
“80% das pessoas procuram o que aquela empresa está fazendo. Então elas não estão mais comprando o que você faz, elas compram como e por que você faz. Por exemplo, você está comprando uma roupa de uma empresa que está explorando pessoas e pagando muito pouco, ou você está comprando de empresas que estão valorizando essa cadeia produtiva e tirando pessoas da pobreza?”, pontua.
Ela ressalta, ainda, que a tendência vai além do consumo: quem está buscando vagas de emprego e oportunidades de investimento também prioriza negócios cujos valores se alinham com objetivos sociais e ambientais.
“O consumidor está mudando. Os jovens estão querendo trabalhar em empresas que os inspirem. Esse é o poder do cliente, de mudar o mundo”, ressalta.
Resíduos viram energia em projeto com coco no Pecém
O investimento na economia circular também tem sido uma preocupação do Governo do Ceará. Nesse sentido, a Secretaria de Desenvolvimento do Estado (SDE) lidera o Comitê dos Negócios de Impacto, com o objetivo de impulsionar negócios que solucionem problemas sociais, ambientais e econômicos no Estado.
É o que explica o secretário executivo da pasta, Rennys Frota. Um exemplo dessas iniciativas é a transformação de resíduos de coco em combustível, por meio da junção desse material com carvão mineral.
Com início em 2024, o projeto teve investimento inicial de R$ 2,5 milhões da Energia Pecém.
De acordo com Rennys Frota, cada coco utilizado tradicionalmente deixa, em média, 1,2 kg de resíduos no ambiente.
“Esse novo carvão híbrido está sendo queimado, por exemplo, nas nossas estruturas industriais e térmicas, fazendo com que um negócio do carvão venha a resolver o problema do destino de um resíduo”, evidencia.
Atualmente, o projeto está em fase de conclusão de protótipo, que deve ser finalizado ainda no primeiro semestre deste ano.
“Nós vamos sentar com os dois, e o Estado vai selecionar quem é a pessoa que vai pegar esse resíduo aqui, vai triturar e vai entregar na porta da indústria, para que a indústria possa transformar o resíduo do coco nesse blend, e esse blend vai para dentro das nossas indústrias, fazendo com que a gente mitigue a necessidade do carvão mineral”, explica o secretário.