Operação turca na Síria é limpeza étnica, diz porta-voz de partido pró-curdos

Na quarta-feira passada (9), o governo do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, deu início à Operação Paz da Primavera em territórios controlados pela minoria étnica curda no norte da Síria

Legenda: De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), a operação já forçou mais de 160 mil civis a deixar suas casas
Foto: AFP

A operação militar deflagrada pelo Exército da Turquia no norte da Síria há uma semana gera o risco de limpeza étnica. A avaliação é de Eyüp Doru, representante na Europa da legenda pró-curdos HDP (Partido Democrático dos Povos), terceira maior força política da Turquia.

"Entendemos que a Turquia tem ambições expansionistas. Seu objetivo é tomar as zonas controladas pelos curdos na Síria e reassentar ali milhões de árabes que vivem como refugiados na Turquia. Isso é limpeza étnica", disse Doru por telefone à reportagem.

Na quarta-feira passada (9), o governo do presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, deu início à Operação Paz da Primavera em territórios controlados pela minoria étnica curda no norte da Síria.

A justificativa da Turquia é combater o grupo armado YPG (Unidades de Defesa Popular), que vê como uma extensão de organizações separatistas curdas em seu próprio território, como o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão). O YPG e o PKK são considerados organizações terroristas pelo governo turco.

De acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), a operação já forçou mais de 160 mil civis a deixar suas casas. Também surgiram relatos de massacres contra civis perpetrados por milícias apoiadas pela Turquia.

A iniciativa foi repudiada por governos estrangeiros, inclusive alguns parceiros na Otan (aliança militar ocidental), que passaram a exigir a suspensão da venda de armas à Turquia. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que inicialmente havia dado aval à ofensiva turca ao ordenar a retirada de tropas americanas da região, passou a defender a aplicação de sanções contra o governo de Erdogan.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo, o ministro das Relações Exteriores da Turquia, Mevlut Cavusoglu, disse que a operação possibilitará um "retorno em massa" de até 2 milhões de refugiados sírios.

A Turquia abriga atualmente 3,5 milhões de pessoas que fugiram da guerra civil na Síria. Muitos desses refugiados vêm de áreas predominantemente árabes da Síria, e os territórios para onde deverão ser enviados têm maioria curda.

"Esta guerra, feita sob o pretexto de ajudar os refugiados, acaba produzindo ainda mais refugiados", afirmou Doru. Seu partido HDP também é acusado de colaborar com o PKK, e vários de seus líderes foram presos na Turquia nos últimos anos.

Os curdos são uma minoria étnica com mais de 30 milhões de integrantes, e que vive há séculos no Oriente Médio. Sem um Estado próprio, eles habitam uma partes dos territórios de Irã, Iraque, Síria, Armênia e Turquia, onde têm sido historicamente marginalizados.

Confira a seguir entrevista com Eyüp Doru:

Qual é a posição do HDP sobre a operação turca no norte da Síria?
O HDP condena esta operação nos mais fortes termos. Pensamos que se trata de uma guerra contra os curdos. Entendemos que a Turquia tem ambições expansionistas, otomanas.

Não se trata de uma luta contra o terrorismo, mas um esforço para conquistar novos territórios. Seu objetivo é tomar estas zonas controladas pelos curdos na Síria e reassentar ali milhões de árabes que vivem como refugiados na Turquia. Isso é limpeza étnica.

Consideramos que os bombardeios turcos no Curdistão sírio são a crimes contra a humanidade, pois atingem áreas ocupadas por civis e danificam a infraestrutura da região. Assim, a operação ameaça deixar milhões de pessoas sem acesso à eletricidade e à água, além de forçar milhares de pessoas a fugirem de suas casas. Esta guerra, feita sob o pretexto de ajudar os refugiados, acaba produzindo ainda mais refugiados.

Assim que as forças americanas deixaram o norte da Síria, os curdos firmaram um acordo com o regime de Bashar al-Assad e a Rússia, e as forças pró-regime já estão avançando sobre as áreas curdas. Você acredita que este é o fim da autonomia curda na Síria?
O acordo feito com o Exército sírio é exclusivamente militar, permitindo que o regime se instale dentro das fronteiras reconhecidas internacionalmente. O acordo não significa que o regime sírio vai ocupar a estrutura de governo autônomo da região, isso não faz parte do acordo.

Os curdos deram suas vidas, milhares de combatentes das YPG morreram na luta contra o Daesh [acrônimo em árabe que denomina a facção terrorista Estado Islâmico]. Agora os EUA deixam os curdos sem proteção.

A Turquia está massacrando o povo curdo e as outras minorias étnicas da região. Ali há curdos, árabes, assírios, armênios, que convivem pacificamente. A verdade é que os Estados da região querem eliminar qualquer tipo de convivência democrática na região.

Qual deve ser a atitude da comunidade internacional à Turquia?
Em primeiro lugar, a comunidade internacional deve impedir as vendas de armas a este regime genocida, e o Conselho de Segurança da ONU deve exigir que a Turquia se retire das zonas ocupadas por civis.

Não estamos pedindo apoio para lutar contra a ocupação, só pedimos que a população civil seja protegida. Pedimos que a comunidade internacional declare uma zona de exclusão aérea no norte da Síria para impedir novos bombardeios da Turquia, feitos com aviões fornecidos pela Otan. Acima de tudo, acreditamos que Erdogan deveria ser julgado por crimes contra a humanidade.

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