O nomadismo de ser LGBT em Fortaleza

Viver como LGBT em Fortaleza é isto: sempre estar em busca de um lugar para poder pensar que está seguro. Entre praças e ruas já ocupadas, peregrinar passou a ser uma constante desde que entendi como a cidade se divide. Quando se busca um espaço mais além para chamar de seu, a fim de construir ali um quintal de afetos, logo dão um jeito de pôr fim. Aconteceu ontem, acontece hoje e, certamente, acontecerá amanhã. Não esperam a relva mais simples florescer ou o fruto ainda verde cair da árvore que não foi plantada.

Foi assim há 11 anos. Enquanto subia a Desembargador Moreira, saindo da aba da saia de minha mãe, pensava a todo momento como seria mais um sábado. Era meu aniversário. Ali, completara 15 anos e tinha ganhado como presente a saída com os amigos à noite. Minha mãe não sabia que eu já havia ido para o mesmo local três semanas antes - e consecutivas -, afinal, para conseguir ser LGBT é preciso mentir para si e até para quem se ama.

Nos pés, o all star branco de meu tio; no corpo, a calça quadriculada cinza e preta - comprada em três parcelas em uma loja de departamento no Centro da cidade - e uma blusa cinza básica que sobrava por todos os lados: nas mangas, no tórax e no abdômen. No rosto, um óculos preto, grande, sem lente, que dava um charme duvidoso ao meu olhar.

Mas o cabelo era o problema: sentia que não podia ser "emo" o suficiente por não tê-lo lambido na minha testa - como o padrão da época imputava aos mais jovens. Ainda assim, subindo aquela rampa sem fim, eu era feliz. Encontraria meus iguais na Praça Portugal, ou PP, como chamávamos intimamente.

Lá, o preto tomava conta. Embora não parecesse um ambiente comum à comunidade, foi ali que me encontrei, entendi naquele momento quem eu era, quem poderia ser e pude descobrir prazeres da vida. Aos sábados, aquele círculo no meio da Aldeota parecia crescer, como se o mundo todo pudesse estar inscrito ali, ao redor, sorrindo, brincando... Por um tempo, aquele foi o meu local, o meu quintal que florescia enquanto os risos ecoavam e os amigos abraçavam uns aos outros. Para mim, o afeto sempre foi uma questão de toque.

Até que, embora eu não lembre da data exata - vai me desculpando -, o círculo imenso de afeto parecia se reduzir a si próprio; como se aquele espaço tivesse perdido diâmetro e, aos poucos, fosse minguando. Os relatos de assalto e assédio eram cada vez mais comuns. Aos poucos, fui me sentindo cada vez menos parte dali, até porque os amigos já não iam mais, as paqueras tinham sumido e, como nômade, fui obrigado a buscar outro local para sentir a mim mesmo.

Nomadismo

No outro domingo, já frequentava a Praça Jonas Gomes de Freitas, mas ninguém a reconhece por esse nome. O logradouro era carinhosamente conhecido por PN (ou Praça do North Shopping) em alusão ao empreendimento comercial do bairro. Lá, entre os animais que formavam uma fazendinha artificial e uma quadra de basquete utilizada por diversos estudantes, foi possível me encontrar mais uma vez.

Por alguns muitos fins de semana, a migração LGBT saía da Aldeota aos sábados em direção ao São Gerardo, aos domingos. As vestimentas, que firmavam a tese de que um lugar era o puxadinho do outro, soavam bem parecidas. Se alguém vestisse camisa amarela, certamente era o rosto do Bob Esponja que estaria estampado; em caso de rosa, o do Patrick Estrela; um azul claro denunciava o rosto cansado e chato do Lula Molusco. Os óculos sem lente, all star, bonés quadriculados e rostos posados para as fotos com sorrisos amarelados e semicerrados davam a tônica do lugar.

Mas por ser puxadinho, a violência também seguiu. A venda de drogas ilícitas na praça ao lado passou a ser mais comum, e os assaltos deixaram de ser relatos. Lembro de um dia em que uma amiga caiu após um arrastão. Ao olhar para trás, parecia que a praça tentava se movimentar para, igualmente, fugir dos malogros que a haviam tomado. A menina levantou, se uniu ao nosso grupo e corremos juntos. Não lembro o nome dela. Assim como as mudanças de espaço, as amizades e os vínculos também eram fugazes.

Nunca mais voltamos até lá. Afinal, o nomadismo não deixa a gente quieto, nos torna ativos da nossa própria rotina e questionadores do destino.

Do negro da Praça Portugal, passando pelo ar bucólico do São Gerardo, chegamos ao Verde do Dragão. De volta à área nobre, aos poucos, o espaço passou a se tornar tão grande quanto o primeiro refúgio. E cresceu. Tanto que, por ser tão imenso, chegou a ocupar praças, boates e ruas do entorno. Em razão disto, a repressão chegou.

Toque de recolher

Foram impostos um toque de recolher e "normas de vida em sociedade" pela administração do local. Às 22h, todas as pessoas eram expulsas da Praça Verde, sem exceção; garrafas de álcool só se não fossem em vidro, por precaução, claro - vai que algum LGBT quebra e tenta cometer um ato violento, não é mesmo?

Com o toque, recolhemo-nos às nossas próprias vidas. Até que a Praça dos Leões passou a ser novo lugar de encontros - um lascivo de esperança em meio ao Centro da cidade. Os leões, na verdade, continuam resistindo no lugar por insistência; não tinha nada de birra, era só vontade de querer ocupar o que lhes apetece. Que mania essa nossa de querer se juntar! Com tanto encontro, em determinada hora, a repressão chegou desta vez mais forte. Com uma série de ações ostensivas da Polícia Militar, os rolês cessaram por um tempo - além do impulso dado pela violência frequente que circunda aquele espaço, pelos inúmeros furtos e assaltos que eu mesmo já presenciei.

Hoje, olho para os locais que, de alguma forma, cunharam a pessoa que sou. Penso naqueles espaços, naqueles "amigos-de-praça" e nas roupas iguais - que continuam a ser exibidas nos locais que ainda frequento. Lembro da formação que obtive como ser humano e LGBT, nas discussões que travei, nas peripécias que me envolvi e nos encontros que pude ter. Hoje, estamos mais dispersos, não seguimos tanto um fluxo ou vamos a apenas um local. Nos mimetizamos como mulheres e homens que tentam a todo custo buscar um espaço no qual nos sintamos seguros, como eu dizia no início deste texto.

Ela

Mas a vida sempre tenta te fazer lembrar dos afetos e dos perigos. Na redação, enquanto iniciava a construção deste texto, na segunda-feira (6), uma travesti era assassinada brutalmente a menos de 200 metros da Praça dos Leões. Com disparos de arma de fogo na cabeça, ela morreu ali, por um caminho que eu e tantos outros iguais a mim ou a ela passam todos os dias, sem sequer saber quem somos.

Nem de longe eu saberia caracterizar como é ser trans. Não tenho esse poder nem lugar de fala, mas acredito que o nomadismo também é inerente à vida dessas pessoas. Elas e eles lutam diariamente pela força de um único verbo: ser. Algo que pessoas cisgênero, como eu, jamais saberão o que significa.

Desde a segunda-feira passada, tentamos - no plural - descobrir quem ela era. Sem documentos, não pôde ser identificada pelas autoridades policiais ou por representações da comunidade trans que aqui vivem e que lutam por respeito e inclusão todos os dias desde que nasceram. A história dela ainda nos é invisível, como tantas outras da comunidade LGBT ainda são. Relegados ao esquecimento que é imposto desde que o mundo é mundo, vivemos nos esquivando dos perigos e das violências que nos circundam.

E, assim, inevitavelmente, eu penso: a menos 200 metros de um local em que diversos LGBTs tentam viver, uma mulher trans foi executada - e ainda nem sequer sabemos quem ela era. Tá tudo muito errado.

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Redação 04 de Dezembro de 2020