Ceará tem novo recorde diário em óbitos confirmados por Covid-19; número foi o maior do País em 24h

De acordo com a Secretaria da Saúde, alto número ocorreu por causa da migração de dados entre sistemas. Contagem no Ceará superou todos os estados do Brasil, mas efeito do lockdown na Capital já pode ser sentido

Legenda: Com o contínuo aumento de casos, ocupação de leitos de UTI no Ceará está em 87%. Até agora, 13 hospitais estão 100% ocupados
Foto: FOTO: FABIANE DE PAULA

Duzentos e sessenta e um registros de óbitos por Covid-19 em apenas 24 horas. Não é Itália, não é Espanha, nem estamos falando do que o Brasil costumava contabilizar há pouco mais de um mês. A realidade é daqui, tem DNA desta terra e atenta para o quão perigosos podem ser os efeitos provocados pelo novo coronavírus.

A triste marca foi atingida nessa quinta-feira (21), mas nem todas as mortes ocorreram nesse dia. Na contagem, há registros de óbitos de dias anteriores que só foram confirmados ontem. Com a atualização, o número de casos fatais em decorrência da nova infecção viral subiu de 1.900 para 2.161, conforme a plataforma digital IntegraSUS, gerenciada pela Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa).

 

O número de mortes diárias foi o maior confirmado em todo o Brasil nessa quinta-feira (21), superando estados como São Paulo (195), Rio de Janeiro (175), Pará (115), Pernambuco (91) e o Amazonas (39), os mais afetados pela doença até o momento.

De acordo com a coordenadora da Vigilância Epidemiológica e Prevenção em Saúde do Ceará, Ricristhi Gonçalves, o pico de falecimentos confirmados por Covid-19 ocorreu por causa de uma migração de informações entre um sistema e outro. "São óbitos que já tinham acontecido e estavam aguardando resultado laboratorial e a inserção nessa nova plataforma. E foi o que aconteceu nas últimas 24 horas. São óbitos distribuídos desde o fim de abril até agora", explica.

Conforme Ricristhi Gonçalves, a mudança direta para a plataforma faz com que as áreas descentralizadas de saúde de todo o Ceará possam atualizar as notificações por si próprias, dando celeridade ao processo.

Para o professor da Universidade Federal do Ceará (UFC) e epidemiologista, Luciano Pamplona, o número de 261 óbitos confirmados em 24 horas "salta aos olhos" e é preciso avaliar se, nos próximos dias, ele se mantém. "Mas, se a gente, de fato, tiver subido do patamar diário que a gente estava para mais de 200 óbitos/dia, é um caos. No pior cenário, eu não imaginei que a gente chegasse nisso em um dia. Por isso, acredito que esses óbitos estão bem diluídos durante o tempo", avalia.

Platô e lockdown

A coordenadora da Vigilância da Sesa, contudo, afirma não ter dados suficientes para afirmar que o Ceará chegou ao platô ou se está próximo da redução de casos e óbitos.

O platô epidemiológico é uma espécie de pico contínuo, que normalmente demora a apresentar queda. Assim, o número de casos novos registrados por dia continua alto por um período não determinado, até que começa a cair.

"A gente tem visto um impacto importante nesse momento de lockdown (bloqueiro total). Observamos isso pela quantidade de registros que entram, mas ainda é um pouco cedo. Se essa tendência se confirmar nos próximos dias, tendo em vista que o decreto foi prorrogado, teremos um melhor panorama para ver se essa curva está decaindo", salienta Ricristhi.

Na visão de Luciano Pamplona, o Ceará está próximo do platô, e os dados contabilizados a partir do decreto de isolamento obrigatório podem deixar essa análise mais clara. "Esse excesso de óbitos que a gente ainda tem hoje é reflexo daquelas semanas em que as pessoas estavam no meio da rua, na Caixa Econômica Federal. Hoje, a gente vive um cenário diferente, onde há menos pessoas na rua. Acho que essas duas semanas vão ser nosso limite de óbitos. Depois disso, a gente começa a cair, se o lockdown fizer o efeito que a gente espera", completa.

O decreto de isolamento social rígido está em vigor em Fortaleza desde o dia 8 de maio, com extensão até o fim do mês. Especialistas afirmam que os efeitos da ação administrativa podem ser sentidos entre 10 e 14 dias depois do inícido do lockdown. Até as 18h17 dessa quinta-feira (21), o Ceará já contabilizava 31.413 casos confirmados da Covid-19, dos quais 18.258 estão recuperados. Outros 43.029 casos estão em investigação. A Capital do Estado concentra 57,7% de todas as confirmações e já soma 1.503 falecimentos.

Mortes por Covid-19 em Fortaleza

Testagem

Segundo o IntegraSUS, já foram realizados 77.910 exames para detecção da Covid-19, em todos os 184 municípios do Ceará. Do total, 49.164 foram RT-PCR - método de diagnóstico molecular, 26.823 testes rápidos e 1.908 de sorologia - testados a partir da amostra de sangue do paciente.

O Laboratório Central de Saúde Pública (Lacen) analisa os resultados dos testes RT-PCR da rede pública. Segundo a Sesa, desde o começo da pandemia até o dia 19 de maio, a unidade da rede estadual analisou 20.867 exames RT-PCR. Em março, o Lacen tinha capacidade para receber, em média, 100 exames por dia. No decorrer dos meses, com a necessidade de ampliação dos testes, o Lacen foi reestruturado e passou a analisar 900 testes diariamente.

Além do Lacen, o Hemoce e a Universidade de Fortaleza também analisam exames de biologia molecular da rede pública. Juntas, informa a Sesa, as unidades fazem a análise de 1.200 testes de RT-PCR diariamente. A projeção da Secretaria é que, em breve, com a chegada de mais insumos, outras instituições também irão colaborar nesta análise.



Redação 04 de Junho de 2020