Ceará tem média de 150 doadores múltiplos de órgãos por ano

Entre 2015 e 2018, 845 pessoas foram doadoras no Estado. Deste total, 603 tiveram múltiplos órgãos transplantados a pacientes. Neste ano, de janeiro a setembro, foram 116 casos. Conscientização de familiares ainda é desafio

Legenda: Doação de órgãos para transplantes ainda enfrenta resistência de familiares
Foto: FOTO: YAGO ALBUQUERQUE

A dor foi aguda, indescritível e tão repentina quanto a colisão entre dois veículos no trânsito, quando a professora aposentada Marilena Menezes, 53, recebeu a notícia da morte do esposo, Carlos Alberto da Silva. O cérebro se foi primeiro do que o resto do corpo, fator que permitiu que seis órgãos dele fossem doados a pacientes que necessitavam de transplantes. No Ceará, 845 pessoas doaram órgãos de 2015 a 2018, e cerca de 70% delas foram "doadoras múltiplas".

Os dados são da Associação Brasileira de Transplantes de Órgãos (ABTO), divulgados nessa segunda-feira (25). De acordo com o levantamento, foram registradas 603 doações múltiplas de órgãos em todo o Estado nos quatro anos anteriores, uma média superior a 150 por ano. Em 2019, entre janeiro e setembro, 116 pessoas entraram para as estatísticas como doadoras múltiplas, apenas cinco a menos do que no mesmo período de 2018, que registrou 121 casos deste tipo no Ceará.

A coordenadora da Central de Transplantes do Ceará, Eliana Barbosa, explica que os números poderiam ser ainda maiores, mas que a doação múltipla no Brasil tem critério restrito. "A retirada de órgãos aqui só pode ser realizada quando há o diagnóstico de morte encefálica. Em alguns países desenvolvidos, como Espanha e Estados Unidos, eles tiram órgãos de doadores em parada cardíaca. Aqui no Brasil, se o coração para e tudo é mantido artificialmente, mas não há morte encefálica, perdemos os órgãos".

No caso do esposo de Marilena, a condição para retirada dos órgãos saudáveis era uma só: autorização da família. "O pessoal do hospital me chamou e, naquele momento, eu disse que não permitia. Depois, liguei pra mãe dele e ela disse que poderia doar, porque, desse jeito, ele poderia ajudar tantas pessoas que estavam esperando na fila, e ela teria essa lembrança", relembra a professora aposentada.

Cinco vidas

Foram doados, então, o coração, as córneas, os dois rins e o fígado de Carlos Alberto. Em todo o processo, pelo menos cinco pessoas ganharam uma nova oportunidade de viver de forma mais saudável. "Insisti pra descobrir quem eles eram e reuni todos na missa de um mês de morte. Foi muito emocionante, eles pareciam pessoas da família, sabe? Só em saber que ele podia salvar outras vidas e que tinha um pedaço dele vivendo naquelas pessoas, foi muito reconfortante", emociona-se Marilena, ressaltando que "nunca se esquece" do esposo e desejando que "outras pessoas também façam isso, porque ajuda muito a superar a perda".

De 2014 até o ano passado, a quantidade de cearenses que doaram órgãos oscilou: naquele ano, foram 220 doadores efetivos, número que caiu para 206 no ano passado. Já em 2019, até setembro, foram identificados 442 "doadores potenciais", como classifica a ABTO, mas somente 183 doações foram concretizadas. Entre os motivos para esse déficit, além de questões médicas, estão os casos de recusa por parte dos familiares, que já totalizavam 111 até o nono mês deste ano.

Desafios

A conscientização deles no momento da perda, segundo Eliana Barbosa, é um dos principais desafios para aumentar ainda mais as doações de órgãos no Estado, "que tem a solidariedade por vocação". "As recusas se devem a uma desinformação por parte da população. Vamos para fábricas, escolas e universidades levando temas relacionados. Uma vez que a família é bem acolhida durante o internamento do ente querido e que os profissionais fizeram uma comunicação adequada, isso facilita, as famílias doam", pontua a coordenadora.

A solidariedade e as doações múltiplas contribuem para ampliar, ano a ano, uma estatística importante para a saúde no Estado: em 2009, foram concretizados 760 procedimentos no Ceará, número que avançou gradualmente até 2016, quando houve um pico de transplantes e foram realizadas 1.874 cirurgias deste tipo. De 2016 até 2018, houve queda na realização dos procedimentos, mas a quantidade se mantém mais que dobrada em relação a 2009: ano passado, foram 1.535 transplantes concretizados, 101% a mais que há dez anos.

Doe de Coração

Para conscientizar sobre a importância da doação de órgão, a Fundação Edson Queiroz promove, desde 2003, o Movimento Doe de Coração. Em setembro deste ano, além de debates, palestras e caminhada, a campanha instalou "selfie points" em locais estratégicos da capital, como praças e terminais, para incentivar a gravação de vídeos opinando sobre o assunto.

Neste ano, somente até 22 de novembro, de acordo com a Secretaria Estadual da Saúde (Sesa), já foram realizados 1.369 transplantes, sendo 805 de tecido ocular (786 de córnea e 19 de esclera), 240 de rim, 191 de fígado, 106 de medula óssea, 21 de coração, três de rim e pâncreas e mais três de pulmão.

De acordo com a coordenadora da Central de Transplantes do Ceará, a capacidade de contribuição de um paciente vítima de morte cerebral para salvar ou melhorar outras vidas poderia ser ainda maior, mas requer estrutura. "Para retirada de alguns tecidos, precisamos de um banco de multitecidos. No Ceará, temos de córnea e de cordão umbilical - este queremos transformar em um de multitecidos, mas ainda é um projeto incipiente, está em discussão", relata Eliana. A medida possibilitaria que as unidades de saúde "captassem pele e ossos, que não são vitais como órgãos, mas dão qualidade de vida" a que os recebe.

Segundo Eliana, uma só pessoa com morte encefálica - e cuja doação dos órgãos e tecidos é autorizada pela família - é capaz de beneficiar até 60 outras vivas. "Órgãos para doar são dois rins, dois pulmões, um fígado, o pâncreas, o coração e o intestino. Mas quando entram tecidos, como válvulas cardíacas, pele, ossos e córneas, pode beneficiar um leque bem maior de receptores. Estamos trabalhando para proporcionar isso".

 

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