CE teve 32,6 mil multas a menos na pandemia em rodovias estaduais

De março a setembro de 2020, foram cerca de 411 mil infrações de trânsito, quantitativo menor do que em igual período de 2019, quando Detran e Polícia Rodoviária do Ceará contabilizaram 444 mil multas nas vias estaduais

Legenda: A diminuição no fluxo de carros nas rodovias estaduais impactou também na redução de multas aplicadas
Foto: Thiago Gadelha

O período de pico da pandemia de Covid-19 no Ceará, entre abril e junho, foi também o de maiores índices de isolamento social no Estado. Embora as taxas nunca tenham atingido o ideal de 70%, preconizado pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a queda no fluxo de pessoas e veículos repercutiu nas rodovias e estradas estaduais: entre março e setembro, foram registradas 32.604 infrações a menos nas vias, em relação a 2019, de acordo com dados do Departamento Estadual de Trânsito (Detran/CE) e da Polícia Rodoviária do Ceará (PRE).

De janeiro a setembro deste ano, foram aplicadas 568.701 multas a condutores nas vias cearenses de gestão dos órgãos estaduais, 13.973 a menos do que nos mesmos nove meses do ano passado, quando 582.674 motoristas foram penalizados. Se considerado apenas o período da pandemia, entre março e setembro, a redução é ainda maior: neste ano, foram 411.663 infrações, contra 444.267 em 2019. "Uma redução significativa", segundo define Pablo Ximenes, superintendente adjunto do Detran/CE.

"Isso representa uma redução drástica nos acidentes de trânsito também, o que é uma consequência direta da diminuição da atividade econômica, das medidas de isolamento social. Não é algo que pode ser atribuído a uma medida específica de educação de trânsito, em nenhum canto do País, mesmo que tivéssemos equipes de fiscalização pra evitar a desordem", salienta o gestor.

Além das equipes de agentes, outra ferramenta é fundamental para manter a vigilância nas vias e, consequentemente, inflar o número de infrações penalizadas: a fiscalização eletrônica. Foi um desses olhos digitais que flagrou quando o comerciante Antônio Soares* (nome fictício), 43, avançou o sinal vermelho, quando voltava de uma praia do Litoral Leste cearense com a família.

"Acho que passei quando estava do amarelo pro vermelho, ainda. Nem entendi por que pegou", defende-se, reconhecendo, em seguida, que "pode ter sido porque acelerei ao invés de reduzir".

Avançar o sinal vermelho do semáforo foi a quinta infração mais cometida pelos condutores no Ceará, entre janeiro e setembro deste ano, com 19.584 registros, de acordo com dados do Detran e da PRE. O erro mais comum, ocupando primeira e segunda posições, é o excesso de velocidade: 273.143 motoristas foram punidos por ultrapassarem a quilometragem máxima permitida em até 20%, e outros 46.436, entre 20% e 50%. Em terceiro e quarto lugares, somando 43.034 multas, estão infrações relacionadas à falta de documentos como transferência e licenciamento.

Estas últimas infrações, aliás, não constam entre as mais cometidas em 2019, o que, conforme observa Pablo Ximenes, também é explicado pelo isolamento social. "As outras infrações dependem de movimento de veículo, e estas não. São as únicas que recolhemos os resultados do ano passado: ou seja, quem as cometeu, o fez no ano passado e está sendo multado agora. Elas, em geral, se mantêm estáveis, mas como as demais reduziram, elas subiram de posição", explica.

Os números dos erros mais praticados pelos condutores em território cearense refletem apenas parte da maior preocupação dos órgãos de trânsito, com ou sem pandemia: além do excesso de velocidade, a embriaguez é o grande gargalo da segurança viária no Ceará.

"O excesso transforma um erro simples de condução em uma situação fatal. O motorista não tem tempo de corrigi-lo quando está rápido demais. E a embriaguez é gravíssima, porque acaba sendo um fator que impede a percepção e as habilidades", avalia.

Outro fator "relativamente novo", mas igualmente preocupante, segundo o superintendente, é a combinação entre celular e direção. "Esse é o novo álcool: a condução dispersa por conta do smartphone. Nos Estados Unidos, por exemplo, as campanhas contra envio de mensagens enquanto se dirige repercutem tanto quanto aquelas sobre alcoolemia. As pessoas não percebem, mas dirigir e dividir atenção com um aparelho que é feito pra roubar sua atenção é um risco grande de morte", alerta Pablo.

Fluxo

Flávio Cunto, professor do Departamento de Engenharia de Trânsito da Universidade Federal do Ceará (DET/UFC) e diretor na Associação Nacional de Pesquisa e Ensino em Transportes (Anpet), reitera a relação entre a redução do número de multas aplicadas e a diminuição do fluxo de veículos nas vias, durante o isolamento social. Ele destaca ainda que a queda dos registros não implica em mais segurança viária.

"Essas multas são decorrentes de ter menos veículos trafegando e menos exposições a situações de infração. Não quer dizer, em primeira análise, que temos um sistema de circulação mais seguro. Para que a gente pudesse entender se houve uma melhoria no comportamento do condutor, teria que cruzar com o número relativo à frota de veículos em circulação. É possível até que tenhamos tido um aumento relativo do número de multas, e não redução", analisa.

Em relação ao perfil das infrações, o engenheiro de transportes reforça o excesso de velocidade como comportamento mais danoso à segurança viária e à saúde pública.

"A energia do momento da colisão é diretamente proporcional ao quadrado da velocidade. O que hoje se busca no mundo inteiro para melhoria da segurança viária e redução de óbitos e vítimas gravemente feridas, que causam impacto social, pessoal e econômico grande no sistema, é a redução dessa energia. Isso significa redução da velocidade".

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