Baú do Jogada #3 - O dia em que o Leão entrou em campo com um leão
Na final do Cearense de 1983, o Fortaleza entrou no campo do Castelão com um leão. Quatro décadas depois, achamos o tutor do animal
Esta é a curiosa história que o Fortaleza protagonizou em 1983, durante a final do Campeonato Cearense: o dia em que a equipe entrou em campo acompanhada de um leão, o animal que é mascote do clube.
A presença deu sorte – o Fortaleza venceu o Ferroviário por 2 a 0, no Castelão, e sagrou-se bicampeão estadual. Com isso, o animal acabou eternizado, na foto do jornal do dia seguinte e no vídeo da reportagem do Globo Esporte.
Volta e meia o episódio é relembrado na internet, como símbolo de um tempo sem lei, no futebol e na vida. Mas, afinal, quem foi responsável por aquilo? Finalmente, quatro décadas depois, localizamos o tutor do leãozinho, que o criava como animal doméstico.
Confira a série Baú do Jogada:
- #1 - O dia em que Ceará e Fortaleza se uniram e venceram o Flamengo de Zico
- #2 - O ídolo do Ceará que morreu após passar mal em campo no PV
Depoimento de Armando Júnior:
"Agradeço por ter vivido tudo isso com Igor"
Em 1983, surgiram três filhotes de leões à venda em Fortaleza. E fiz o que todo torcedor tricolor faria: comprei um por aproximadamente 300 mil cruzeiros.
Na época, ele tinha seis meses, pesava 40 quilos e se chamava Igor.
Quando chegou em casa, duas tias minhas, Marlene e Duduta, se assustaram e se trancaram no banheiro.
Ele bebia muito leite Cila em saco e consumia incontáveis quilos de carne e frango.
Eu tinha 19 anos e cursava Engenharia Elétrica, na Universidade Federal do Ceará.
Morávamos no Papicu, na Rua Alfeu Aboim, e nossa casa ficou conhecida como a “casa do leão”. Ele circulava livremente dentro de casa e dormia no meu quarto.
Tínhamos muito cuidado em manter o portão sempre fechado. Mas, um dia, meu irmão chegou e esqueceu o portão aberto. Igor fugiu e assustou várias pessoas que estavam sentadas na calçada, que correram para se esconder em uma casa. Ao entrar na casa com a intenção de pegá-lo, vi uma pessoa em cima da geladeira, escondida, outras em cima da mesa, algumas no banheiro, e encontrei Igor embaixo da cama do quarto do casal, também assustado.
Eu o levava para os jogos no Castelão e também passeava com ele na Volta da Jurema. Cheguei a tentar entrar no Iguatemi, mas fui barrado.
Naquele período, éramos da Fiel Tricolor, uma torcida organizada que tinha como presidente meu irmão, Clóvis Bezerra, e, como relações públicas, o famoso Emanuel Magalhães, o “Sheik”. Usávamos Igor como nosso querido mascote.
Naquela época, já existia rivalidade entre torcidas do mesmo time e, em um jogo contra o Ceará, um membro da Garra Tricolor lançou um artefato explosivo que atingiu o nosso mascote. O leão estava em campo, passando em frente à Garra Tricolor.
Nesse mesmo dia, levamos um urubu com as asas cortadas para que o leão o pegasse dentro de campo, mas o saudoso Fares Lopes, presidente da Fadec (Federação de Assistência Desportiva do Estado do Ceará), proibiu o duelo, impedindo a entrada do urubu.
Igor era meu parceiro. Andava comigo no meu Chevette verde, no banco de trás, com as patas apoiadas em mim, que estava no banco do motorista. Vivia abraçado comigo e também brincava com meu irmão mais novo, que tinha 7 anos.
O nome foi inspirado em Igor, personagem do desenho “Os Herculoides”. Inclusive, ele chegou a entrar em campo acompanhado por Francisco de Assis Cortez, meu amigo de infância, com quem trabalho até hoje, que nomeou seu filho Igor em homenagem ao leão.
Na final do Campeonato Cearense de 1983, em uma partida contra o Ferroviário, na qual fomos campeões, o leão entrou em campo junto com o time, levado pelo meu amigo Cortez, e apareceu em nível nacional, no Globo Esporte. Na época, foi divulgado que essa foi a primeira vez que um mascote animal entrou em campo. O que acabou inspirando outros times a fazerem o mesmo em anos posteriores.
E por que não fui eu quem entrou com o leão? Porque eu era diretor da bateria de fogos da Fiel Tricolor e responsável pelos fogos da torcida naquele momento.
Após o incidente com o artefato, o leão adoeceu e desenvolveu uma pneumonia. Levei-o ao Hospital São Raimundo para realizar um raio-X e, em seguida, ele ficou internado na clínica do Dr. Galvão, no Papicu. Fui assistir ao jogo do Leão em Sobral no domingo e, quando retornei à clínica na segunda-feira, o Dr. Galvão me informou que ele havia falecido.
O leão tinha nove meses e já pesava uns 60 quilos.
Durante todos esses anos, o Fortaleza segue sendo um tema central na minha vida. Viajo praticamente a todos os jogos, por conta própria, independente de divisão.
Todas essas histórias aconteceram na década de 80. Hoje, olho para trás e agradeço por ter vivido tudo isso com Igor e pelo nosso Fortaleza.
> Armando Júnior, hoje com 61 anos, é empresário e vice-presidente do Conselho Deliberativo do Fortaleza.
"Quando esse leão crescer, como vai ser?"
Armando Júnior foi um dos fundadores da antiga torcida organizada Fiel Tricolor, surgida em 1982. Seu irmão Clóvis Bezerra do Carmo era o presidente, e os outros quatro irmãos também faziam parte dela. O próprio pai pagou pelo leão. Mas não foi fácil convencê-los sobre o novo integrante da família.
"Um dia, Armando chegou em casa com o leão e foi aquela confusão. A mamãe não queria. Todo mundo achou uma loucura. 'Quando esse leão crescer, como vai ser?', era a pergunta de todos", conta Clóvis, hoje com 68 anos. "Ele era tão bonitinho, conquistou todo mundo", relembra Lúcia Carmo, hoje com 67 anos.
Se a família se acostumou, com os outros não foi assim. "Minha mãe tinha duas primas que sempre visitavam a gente. Um dia, o leão veio andando e elas perguntaram: 'O que é isso? É um gato grande?' Quando a gente respondeu que era um leão, elas correram e se trancaram no banheiro", diverte-se Lúcia.
A única preocupação era com o irmão mais novo, Beto, então com 7 anos. "A mamãe ficava preocupada, porque o leão pulava em cima dele, mas não era pra fazer mal", conta Lúcia.
Companhia em passeios na cidade
Por ser manso, Igor virou companhia fiel de Armando e seu amigo de infância, Francisco Cortez. "A gente passeava com o leão pra todo canto", resgata Cortez, hoje 66 anos.
Armando e Cortez, então com 19 e 23 anos, respectivamente, já eram fanáticos torcedores do Fortaleza. Eles eram presença cativa no programa de rádio de Emanoel Magalhães, o "Sheik", também integrante da Fiel Tricolor. "A gente fazia críticas à diretoria com o apelido de Mandioca, ele, e Macaxeira, eu. Ninguém sabia que era a gente", confidencia Cortez.
A partida do leão, em 1984, foi especialmente traumática para o amigo de Armando. Quando o animal morreu, ele prometeu que seu futuro filho também se chamaria Igor. "Casei com 37 anos, eu era farrista. Na hora que meu filho nasceu, botei o nome. Hoje ele tem 27 anos, é médico".
Leão em campo
Na final do Campeonato Cearense de 1983, no dia 13 de dezembro, jogo do Fortaleza contra o Ferroviário no Castelão, coube a Cortez a missão de cuidar do leão na entrada em campo com o time. A novidade, claro, pegou todos de surpresa.
"Os jogadores saíram correndo no vestiário, foi uma confusão danada. Depois que entramos em campo, deixei o leão numa gaiola no corredor para o vestiário, e fui assistir ao jogo na arquibancada. Ele era realmente muito mansinho", relembra Cortez.
Foi um episódio marcante para quem estava lá. "Foi algo extraordinário. Você ter o símbolo do time entrando com você em campo é algo fora do comum", relembra o ex-lateral Caetano, hoje com 62 anos, na época com 19.
"Nosso time era bom, não dependia de leão pra ser campeão, mas aquilo nos deu mais força", ri o ex-volante Serginho, hoje com 69 anos, na época com 26.
Legislação da época permitia
A legislação brasileira, até 1989, não impedia que pessoas comprassem e mantivessem em cativeiro animais selvagens, silvestres ou exóticos. Mesmo assim, ninguém da diretoria do Fortaleza sabia da marmota preparada para a final do Cearense.
"Aquilo foi inusitadíssimo. Coisas daquele tempo, hoje jamais isso poderia acontecer, por conta das novas leis", comenta Renan Vieira, na época dirigente do clube, e que depois virou presidente.
Renan, hoje 68 anos, tinha 25 em 1983 e viu tudo da arquibancada do Castelão. "Foi um episódio que entrou para a história do nosso Fortaleza. O dia em que um leão entrou em campo com o Leão".
Confira a série Baú do Jogada: