Baú do Jogada #2 - O ídolo do Ceará que morreu após passar mal em campo no PV

O 2º episódio do Baú do Jogada resgata a história de Mitotônio, segundo maior artilheiro da história do Ceará, que defendeu o time até a morte

Escrito por
Rafael Luis Azevedo rafael.azevedo@svm.com.br
Legenda: Mitotônio ainda é, 75 anos depois de sua morte, o 2º maior artilheiro da história do Ceará (Foto: Reprodução)
Foto: Reprodução

A cidade de Fortaleza acordou no dia 1º de abril de 1951 com a estranha sensação de uma piada de mau gosto do Dia da Mentira. Corria a notícia de que Mitotônio, o maior ídolo da história do Ceará Sporting Club, havia morrido.

A suposta causa entrou para o folclore do futebol cearense. Segundo a versão que se espalhou, o jogador não teria resistido a uma congestão estomacal aguda causada após almoçar panelada, prato pesado típico da culinária nordestina, antes de um jogo do Ceará.

Time do Ceará de 1948
Legenda: Mitotônio (último agachado a direita) defendeu o Ceará durante uma década, nos anos 40 (Foto: Reprodução)
Foto: Reprodução

Confira a série Baú do Jogada:

Passagem pelo Fortaleza

Mitotônio nasceu em Granja, em 1916, e teve uma breve passagem pelo Fortaleza, até chegar ao Ceará em 1940. O ponta esquerda, conhecido por um chute potente, sagrou-se três vezes campeão cearense pelo Vovô (em 1941, 1942 e 1948). Ele chegou a ser eleito um dos 20 jogadores mais populares do país em 1942, numa enquete do Jornal dos Sports, do Rio de Janeiro.

No dia 31 de março de 1951, o Ceará jogava contra o Gentilândia, antigo time formado por acadêmicos da Universidade Federal do Ceará (UFC), no PV. Mitotônio passou mal no 1º tempo e foi levado à assistência municipal, o atual IJF. O jogador recebeu alta, mas durante a madrugada teve uma nova crise em casa. Dessa vez, não houve salvação. 

Com a morte, Mitotônio entrou pra história. Ganhou destaque em muitos livros e revistas sobre o Ceará. E o estádio da cidade natal dele, Granja, recebeu o apelido do craque. 

Mitotônio dá nome ao estádio de Granja
Legenda: Mitotônio dá nome ao estádio de Granja
Foto: Tejuçuoca Notícias

Desconhecido entre a torcida alvinegra

Apesar de tantas homenagens, a trajetória de Antônio Edgar da Silveira caiu no esquecimento entre a torcida alvinegra. Um de seus netos só soube dos feitos do avô quando faria 100 anos, em 2016, após uma reportagem do Globo Esporte.

Também demorou muito tempo até a lenda da panelada ser derrubada. Em 2012, o pesquisador de futebol Pedro Mapurunga encontrou o atestado de óbito do jogador, num cartório em Fortaleza. A causa da morte: hemorragia cerebral

O pesquisador Pedro Mapurunga achou o atestado de óbito que apontou a causa da morte de Mitotônio: hemorragia cerebral
Legenda: O pesquisador Pedro Mapurunga achou o atestado de óbito que apontou a causa da morte de Mitotônio: hemorragia cerebral
Foto: Pedro Mapurunga

Segundo maior artilheiro do clube

Mitotônio partiu aos 35 anos, e com uma década de serviços prestados ao Ceará. Foram 151 gols em 219 jogos, muitos deles em clássicos. Até hoje, 75 anos depois, o jogador só foi ultrapassado por Gildo no ranking de artilheiros do clube.

O último de seus gols, por sinal, foi marcado no dia da morte. O primeiro da vitória por 4 a 1 sobre o Gentilândia. Mesmo sem condições de jogo. O cara era fera mesmo.

Mitotônio foi destaque em muitos livros e publicações sobre o Ceará, como a revista Grandes Clubes Brasileiros, de 1972
Legenda: Mitotônio foi destaque em muitos livros e publicações sobre o Ceará, como a revista Grandes Clubes Brasileiros, de 1972
Foto: Reprodução

Perfil

Nome: Antônio Edgar da Silveira (Mitotônio) 
Posição: Ponta esquerda 
Nascimento: 22/2/1916 
Falecimento: 1/4/1951 
Times: Fortaleza (1938-41); Ceará (1941-45; 1946-51) e Náutico (1945) 
Títulos: campeão cearense (1938, pelo Fortaleza; e 1941, 1942 e 1948, pelo Ceará); e campeão pernambucano (1945, pelo Náutico).

A morte de Mitotônio causou comoção em Fortaleza, conforme noticiou o extinto jornal Correio do Ceará
Legenda: A morte de Mitotônio causou comoção em Fortaleza, conforme noticiou o extinto jornal Correio do Ceará
Foto: Eugênio Fernandes Fonseca

Último jogo de Mitotônio

Ceará 4×1 Gentilândia

Ceará: Juju; Valdemar e Pedro Matos; Julinho, Marciano e Oxigenado; Mauro, Pipiu, Alencar, Pretinho e Mitotônio.

Gentilândia: Assis; Airton Monte e Zemilton; Deim, Otávio e Luizinho; Carlos, Aldo, Dedé, Gilson e Luiz.

Data: 31/3/1951 (Campeonato Cearense de 1950)
Local: Estádio Presidente Vargas
Público: 2 mil pessoas
Árbitro: Raimundo Cunha Rola, o Rolinha
Gols: Mitotônio (6min 1ºT), Pretinho (14min e 29min 1ºT) e Pipiu (42min 2ºT), para o Ceará; Luiz (8min 2ºT), para o Gentilândia

Mitotônio é o 4º maior artilheiro da história dos Clássicos-Rei, com 21 gols, só atrás de Juracy (30), Gildo (25) e Sérgio Alves (22)
Legenda: Mitotônio é o 4º maior artilheiro da história dos Clássicos-Rei, com 21 gols, só atrás de Juracy (30), Gildo (25) e Sérgio Alves (22)
Foto: Reprodução

Fonte:

Livros:

  • "Ceará: Alegria do Povo", de Haroldo Moura (1997)
  • "Ceará Sporting Club: Um Retrato em Branco e Preto", de Lúcio Chaves Holanda (2004)
  • "Ceará: Uma História de Paixão e Glória", de Airton de Farias (2005, com reedição em 2014)
  • "Ceará: 100 Anos de Paixão", de Ciro Câmara, Cláudio Ribeiro, Rafael Luis Azevedo e Thiago Cafardo (2014)

Revista:

  • "Grandes Clubes Brasileiros - Ceará" (1972)

Colaborou:

  • Pesquisadores Eugênio Fernandes Fonseca e Pedro Mapurunga

Confira a série Baú do Jogada:

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