Superficialidade marca debate eleitoral no País
Para especialistas, outro detalhe do pleito foi o excesso de ataques pessoais entre os candidatos
Palco de diversas surpresas e de situações inusitadas, as campanhas eleitorais para o Governo cearense e para a Presidência da República foram marcadas pelo excesso de ataques pessoais e superficialidade das discussões. A multiplicidade de debates eleitorais, para especialistas consultados pelo Diário do Nordeste, foi um dos destaques da disputa.
Enquanto Francisco Moreira Ribeiro, professor de ciência política da Universidade de Fortaleza (Unifor), avalia que as campanhas estiveram fora dos padrões de tão agressivas, o professor Horácio Frota, da Universidade Estadual do Ceará (Uece), pondera que o acirramento faz parte da disputa eleitoral. "Os candidatos bateram forte em algumas questões, mas nada que fuja das campanhas eleitorais", afirmou.
Horácio lamenta, entretanto, que os principais assuntos destacados pelas campanhas não tenham sido aprofundados como deveriam e apenas refletiram a propaganda eleitoral. "Existem temas que são muito importantes serem discutidos de forma mais profunda mas, por não serem imediatos, acabam sendo deixados de lado. Aqui no Estado, teria questões para pensar em termos orçamentários, que é um lençol curto: quando cubro um lado, descubro outro. A sociedade precisa saber de onde o gestor está tirando", apontou.
Seguindo a mesma linha de pensamento, a socióloga Rejane Vasconcelos, da coordenação do Laboratório de Estudos sobre Política, Eleições e Mídia da Universidade Federal do Ceará (UFC), critica que o debate de propostas tenha se mantido na superficialidade, tanto no nível estadual como nacional. "(Os candidatos) querem alcançar a todos e abranger o maior número de adesões. Detalhes como atacar pontos que atingem interesses de grupos e de eleitores acabaram sendo postos para debaixo do tapete", destacou.
Sentimento de mudança
No debate estadual, Rejane avalia que as discussões foram permeadas por promessas e teor exagerado. Para ela, o senador Eunício Oliveira (PMDB), que perdeu a disputa para Camilo Santana (PT), não teria "encarnado o sentimento de mudança" por pregar a continuidade de certos programas governistas. "Esse sentimento de mudança foi difícil de ser encarnado, até porque ele veio do Governo e estava ao lado de Tasso", ressalta.
Rejane destacou como fato curioso da disputa local a participação do senador eleito Tasso Jereissati no angariamento de votos para Eunício. Conforme lembrou, no primeiro turno, a campanha de Eunício utilizou o mote "quem vota em Tasso, vota em Eunício" na tentativa de alavancar a candidatura do peemedebista. "É uma grande inversão. Normalmente, o governador puxa o senador", salientou.
Para Rejane, a pequena diferença de votos na eleição nacional entre os dois candidatos é uma sinalização de que se aproxima o fim do ciclo petista na administração do País. "Se esta gestão não trouxer grandes resultados, ampliar os índices econômicos, vai ser muito mais grave na próxima eleição. Há um desgaste da imagem do próprio PT e vai depender também do que poderá ocorrer nos desdobramento de escândalos", apontou.
Um ponto unânime entre os especialistas ouvidos pelo Diário do Nordeste foi a importância de vários debates, em horários diversos, entre os candidatos ao Executivo. Para Francisco Ribeiro, ainda que as discussões não tenham sido marcadas pela apresentação de propostas, contribuíram para que os eleitores tomassem a decisão.
"Os debates passaram a ser centrais e os índices de audiência foram enormes. Se esperava que os candidatos se revelassem, daí o aumento da agressividade. Qualquer demonstração de fraqueza significava pontos na disputa eleitoral".