Policiais devem ceder e encerrar motim, defendem senadores

Para parlamentares, policiais paralisados não estão abertos ao diálogo e o governador precisa manter “pulso firme” em não conceder anistia aos agentes que estão descumprindo a Constituição a fim de não estimular outras ações 

Legenda: Nesta sexta, Eduardo Girão, Tasso Jereissati e Major Olímpio estiveram na 10ª Região Militar
Foto: Foto: Kid Júnior

Em busca de diálogo para tentar colocar um fim aos motins de policiais militares (PMs) no Ceará, os senadores Major Olímpio (PSL-SP), Eduardo Girão (Podemos) e Elmano Férrer (Podemos-PI), que estiveram em comitiva no Estado desde a última quinta (20), defenderam, nesta sexta-feira (21), que a melhor solução para os PMs seria que os agentes cedessem, aceitando os termos do governador Camilo Santana (PT) e encerrando os motins. 

Eles chegaram a esse entendimento após avaliarem os dados financeiros do Estado, a proposta de Camilo e tentarem dialogar com soldados e cabos amotinados no 18º Batalhão da Polícia Militar, no bairro Antônio Bezerra, em Fortaleza. Para eles, é melhor parar os atos e evitar que mais militares sofram processos que podem levar à demissão por seus atos.

No mesmo dia em que os parlamentares de outros estados chegaram ao Ceará, a comitiva se encontrou com o senadores Tasso Jereissati (PSDB) e Prisco Bezerra (PDT), suplente em exercício de Cid Gomes (PDT), para irem ao Palácio da Abolição. Após se reunirem com o governador, a comitiva foi tentar abrir o diálogo com a categoria no 18º Batalhão, levando a proposta do governador de não investigar os agentes que ainda não haviam sido identificados, caso os motins encerrassem. A oferta, no entanto, foi rejeitada. 

Os policiais amotinados querem um reajuste salarial maior do que o apresentado pelo governador à Assembleia Legislativa, após acordo com representantes da categoria, e a anistia de todos os policiais paralisados. Camilo, no entanto, reforçou que não há como conceder uma correção maior e rejeitou a possibilidade de anistia.

Depois das negativas dos agentes à proposta do Executivo levada pela comitiva, Major Olímpio, Eduardo Girão e Tasso Jereissati foram nesta sexta ao Comando da 10º Região Militar, no Centro, para se reunir com o general Cunha Mattos e saber como funcionará a operação das Forças Armadas no Estado, autorizada pelo presidente Jair Bolsonaro, ainda na última quinta (20). 

A Garantia da Lei e da Ordem (GLO) foi autorizada pelo presidente com a intensificação da crise na Segurança após o senador licenciado Cid Gomes ser atingido por dois tiros ao tentar entrar, em uma retroescavadeira, num quartel da PM que estava tomado por policiais, em Sobral.

Para o senador Elmano Férrer (Podemos-PI), os policiais paralisados não estão abertos ao diálogo e o governador precisa manter “pulso firme” em não conceder anistia aos agentes que estão descumprindo a Constituição. Ele ressaltou que ficou “deprimido como homem público” com o que viu no 18º Batalhão e argumentou que os atos para aterrorizar a cidade tiram o respaldo da categoria. 

“(Vi) uma fila de carros abandonados, pneus vazios, militares encapuzados, tomando cerveja e adentramos a Instituição. O que me chocou é que os líderes do movimento são praças expulsos da corporação. Estamos diante de um esfacelamento”, ressaltou, se referindo a políticos que estão atuando como representantes dos PMs. No local, estavam presentes o deputado federal Capitão Wagner (Pros) e o ex-deputado federal Cabo Sabino, que tem se colocado publicamente como porta-voz da categoria.

O senador Major Olímpio também concordou com o posicionamento do governador em não perdoar as ações dos amotinados. Para ele, uma atitude diferente poderia estimular ações em outros estados. “Não deve haver anistia num caso como esse. Se tiver anistia, você estimula isso em todos os estados. Não acho que seja correto”, pontuou.

Eduardo Girão, por sua vez, informou que os senadores tentaram orientar os policiais a encerrarem os atos, para evitar uma situação drástica. “Mas os canais de diálogo estão fechados”, ressaltou.

Estímulos

O senador Major Olímpio destacou, ainda, que percebeu estímulos entre poucos praças e lideranças políticas para a paralisação continuar “o máximo possível”.

“Há estímulo para que se prolongue ao máximo o movimento. Nosso encarecimento foi que fizessem uma reflexão porque cada hora deles parados dá sentimento de tranquilidade para a criminalidade. Eu, como policial veterano, jamais teria a consciência tranquila se eu fosse lá e estimulasse a continuação do movimento”, acrescentou.

Para Olímpio, a negociação cabe ao governador do Estado, e não a deputados e senadores. Ele destacou que o papel dos parlamentares é apenas de intermediar o diálogo, mas não o de impôr ou falar como representantes das categorias. “Nós não temos legitimidade nem pelas lideranças e nem pelo Governo. O nosso papel é ouvir, aconselhar quando possível”, reitera.

Negociações

Apesar de a GLO estar em vigor, o senador Tasso Jereissati informou que as tropas das Forças Armadas não irão forçar a retirada dos PMs amotinados em batalhões. As negociações devem continuar sendo feitas, entre o Governo do Estado e os policiais, paralelamente à atuação do Exército.

O objetivo é que as tropas atuem como reforço na Segurança Pública do Estado, principalmente em Fortaleza, na Região Metropolitana e em Sobral. Cerca de 2.500 homens do Exército farão o patrulhamento ostensivo somente na capital cearense. Além deste efetivo, haverá ainda 6 mil agentes da Polícia Militar e 150 da Força Nacional.

Sem previsão de alta hospitalar para Cid

Internado em um hospital de Fortaleza, desde a última quinta-feira, o senador licenciado Cid Gomes (PDT) ainda não tem previsão de receber alta hospitalar. Ele foi atingido por dois tiros de pistola .40, na última quarta (19), ao tentar entrar, dirigindo uma retroescavadeira, num quartel da Polícia Militar dominado por agentes amotinados. Naquele dia, o pedetista convocou uma caminhada ao Centro da cidade e ao quartel para tentar acabar com o motim. Ele decidiu ir até Sobral após saber que PMs mascarados mandaram comerciantes fechar as portas e policiais abandonarem as viaturas.

Depois de ser atingido, o senador recebeu os primeiros atendimentos no Hospital do Coração, em Sobral e, posteriormente, foi transferido para um hospital particular de Fortaleza. Ele está sob os cuidados de uma equipe comandada pelo secretário da Saúde, Dr. Cabeto.

Conforme boletim médico divulgado na sexta, Cid teve um trauma toráxico por arma de fogo, que ocasionou perfuração do hemotórax esquerdo, lesão pulmonar e pneumotórax hipertensivo. Ele está com uma drenagem na pleura e passando por fisioterapia respiratória e uso de antibióticos para restabelecer a função pulmonar. Devido ao processo de reabilitação, Cid Gomes está com visitas restritas. O boletim médico, no entanto, reforça que o senador está com quadro de saúde estável e sem risco de vida.

Segurança privada

O prefeito de Sobral, Ivo Gomes (PDT), anunciou, nesta sexta, a contratação de 100 seguranças privados para a terça (25) de Carnaval. Ele também autorizou o pagamento de hora extra à Guarda Municipal.

Contingente para Sobral

Ivo afirmou, ainda, que pediu ao secretário da Casa Civil, Élcio Batista, um contingente do Exército e da Força Nacional. Segundo ele, não há registro de ocorrências graves, mas há uma “estratégia de difusão de boatos”.

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