Eduardo Girão critica 'politização da pandemia' e diz ver gestão Bolsonaro como governo de transição

Em entrevista exclusiva ao Sistema Verdes Mares, o senador avalia a atuação dos poderes Executivo e Legislativo na pandemia, diz que eventual processo de impeachment iria "tumultuar a democracia" e, após vitórias de seu grupo político no pleito de 2020, fala sobre a organização da oposição para 2022

Legenda: Eduardo Girão reafirma postura “independente” em relação ao presidente Bolsonaro, mas elogia a postura do Governo Federal no combate ao novo coronavírus
Foto: Natinho Rodrigues

Após concluir o segundo ano do primeiro mandato como senador, Eduardo Girão (Podemos) é um dos parlamentares que cobram  a convocação extraordinária do Congresso Nacional em meio à segunda onda da Covid-19 no País. Em entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste, o senador reafirma postura "independente" em relação ao Governo Bolsonaro, mas critica o que considera uma "politização da pandemia" e diz ser contrário à abertura de um processo de impeachment, que, segundo ele, iria "tumultuar a democracia". Girão classifica a gestão federal como um "governo de transição". 

Quanto aos atrasos na imunização dos brasileiros, o parlamentar atribui o problema à “falta de união” que tem marcado as relações políticas no País, e afirma que tem muita gente “torcendo contra” por interesses políticos. Ele elogia a postura do Governo Federal ao longo da crise sanitária e cobra “gratidão” do Governo do Estado pelas ações até aqui. 

Ao Diário do Nordeste, Girão também fala sobre a eleição para a Presidência do Senado e sobre o cenário político local. Para ele, as eleições municipais de 2020 mostraram um “grito de liberdade” dos fortalezenses e cearenses com resultados obtidos pela oposição nas urnas. Sempre envolvido com temas como combate à corrupção e à impunidade, o senador sustenta que seu grupo político representa “uma nova forma de fazer política, a boa política”.

Confira a entrevista completa:

Senador, o País vive uma crise sanitária, que preocupa com a alta de casos de Covid-19, e também uma crise econômica, agravada pela pandemia. O senhor é signatário de um requerimento apoiado por outros congressistas para que haja uma convocação extraordinária do Congresso Nacional diante deste cenário, mas não parece haver sinalização disso até o momento. O Congresso se omite com essa postura? Para o senhor, que contribuição caberia ao Senado neste momento?    

Nem sequer uma comissão especial foi montada no Senado. Num caso desse, grave, a gente vendo o que está ocorrendo aí no Amazonas e que pode ocorrer em outros estados, como o Ceará, acho que pelo menos uma comissão poderia estar disponibilizada, para fazer contato com a Embaixada da China, por exemplo, sobre insumos. O Congresso sendo representado em um momento de aflição para o povo brasileiro. O Governo Federal está ativo, trabalhando, e o Senado, de recesso, juntamente com a Câmara, ou seja, o Congresso Nacional. Era para os três poderes estarem agindo. Inclusive na questão do auxílio emergencial, que era um ponto que a gente já poderia estar tratando, vendo como conseguir recursos para isso.  

Dinheiro não faltou nessa pandemia. O Governo Federal mandou centenas de bilhões para os estados e municípios, através da reposição de ICMS, de ISS, da perda de arrecadação; habilitação de UTIs, todas que foram pedidas pelo Estado do Ceará foram imediatamente atendidas, então isso a gente percebe que houve.  

O próprio auxílio emergencial foi um dinheiro injetado na veia, como se diz, ou seja, diretamente para as pessoas que estão precisando. Mas essa necessidade continua, porque a economia não reagiu ainda como a gente imaginava, como a expectativa. Está reagindo, indubitavelmente a economia começou a reagir, mas ainda tem sequelas dessa parada da pandemia, ela vai retomando aos poucos.  

A gente espera que seja o mais rápido possível, mas ainda acredito que precise a gente cobrir esse colchão social que está hoje descoberto. Muita gente sendo levada à miséria porque faltou o auxílio emergencial, e o Congresso podia estar vendo, junto ao Executivo, deliberando, buscando uma alternativa, onde corta, o quê que pode fazer, porque a gente sabe também que tem que respeitar o teto, pela responsabilidade fiscal que o Brasil precisa ter.

Mas acredito que tantas verbas que estão sendo dadas aí para parlamentares, emendas parlamentares extras, especialmente para quem é governista, essa coisa toda, poderia se diminuir isso e se focar, de alguma forma, para segurar mais dois, três meses de auxílio emergencial, para poupar as pessoas que já estão com tanto sofrimento no Brasil.

O senhor reafirma, desde que assumiu o mandato, postura de independência em relação ao Governo do presidente Jair Bolsonaro. Qual a sua avaliação sobre a condução federal da pandemia?  

A postura desde o início do mandato é muito clara. A gente vota pelo Brasil, pelos brasileiros. E muitas vezes até contrariamos as visões com relação ao Executivo. Podemos dizer que essa independência está muito clara, inclusive com críticas fortes a algumas posições do Governo Federal, mas também reconhecendo feitos positivos. Com relação à pandemia, o que vejo é que se politizou a pandemia no Brasil.

Vejo isso com muita tristeza, porque isso vai desde um tratamento precoce, que é demonstrado por várias pesquisas científicas no mundo inteiro que existe algum grau de eficiência, por menor que seja. A gente não pode negar isso às pessoas por uma questão ideológica. A gente não pode negar às pessoas que, por exemplo, ivermectina, hidroxicloroquina, têm algum efeito positivo (contra a Covid-19). Mesmo que não seja o que estão alardeando, mas têm algum efeito de evitar que as pessoas se agravem em seus casos.  

A gente vive um momento muito sombrio no Brasil, é um negócio estranho, porque essa politização pode estar fazendo com que vidas não sejam poupadas. Então, acredito que esse debate foi um pouco irracional, tudo isso. De um lado e de outro. Acho que a gente não pode negar tratamento às pessoas, a esperança das pessoas. E vejo um esforço muito grande para detonar pesquisas, sabe? É uma coisa até desumana. Desumana.

Eu acho que está todo mundo buscando solução, todo mundo. Isso pegou de calça curta todo mundo: Executivo, Legislativo, Judiciário, todo ser humano no planeta. Então está faltando um pouco de humanidade para buscar alternativas, e não desconsiderar. Eu tomei ivermectina. Tomei e conheço muita gente em Fortaleza, em Brasília, no Brasil, fora do Brasil, que tomou ivermectina, hidroxicloroquina, nos primeiros momentos quando sentiu (manifestações da doença). (...) Não existe porque essa demonização desses medicamentos, que têm salvado.

Relatos a gente vê, mas é aquela coisa do politicamente correto, então isso é muito perigoso. Tenho feito isso nas redes sociais, mesmo sendo, às vezes, diminuído em termos de entrega, de alcance, porque existe uma censura branca nas redes sociais já, o que é muito perigoso para a democracia. O que não interessa ao establishment, ao que eles pensam, o que diverge deles, diminui o potencial do seu alcance na rede social, mas continuo fazendo, porque quero colocar a cabeça no travesseiro e dormir tranquilo, sabendo que estou seguindo a minha consciência, tentando ajudar da forma que posso.  

Legenda: No Senado, Girão declara apoio à candidatura de Simone Tebet (MDB-MS) e defende voto aberto
Foto: Agência Senado

Com relação às habilitações de UTI, eu já falei: muito positivas as habilitações. No Estado do Ceará teve mais de 500 habilitações, tudo o que foi pedido, foi enviado. Respiradores, inclusive após o escândalo que houve no Consórcio Nordeste, que até hoje o governador do Ceará não veio se manifestar. Foram mais de R$ 10 milhões investidos pelo Estado do Ceará, levou um calote junto com os outros governadores do Nordeste, que são alinhados ideologicamente, isso é fato. Compraram da indústria da maconha, até hoje não se explica isso também. Não receberam os medicamentos. Polícia bateu lá no líder dos governadores, lá na Bahia. Até agora não se teve a devolução, o desfecho disso tudo, e nós ficamos com esse calote.

Eu fui correndo no Ministério da Saúde, no dia 1º de maio, quando vi esse escândalo acontecendo, com operação policial, pedi ao ministro da Saúde e imediatamente ele repôs os respiradores que estavam precisando no Ceará naquele momento. Centenas de bilhões de reais foram para os estados, municípios, dinheiro não faltou. Agora, (teve) muito escândalo de corrupção, precisa ser investigado isso. 

Tenho um projeto, que não foi votado, depois de muita insistência, que é dobrando a pena em casos de corrupção, em casos de crimes contra a administração pública na pandemia, e tornando esses crimes em hediondos. Não foi votado, insisti com o presidente do Senado demais, não votou. A Câmara tem um projeto similar que foi votado, que está no Senado, eu pedi esse outro do Senado para anexar, e até agora nada. Existe uma complacência com a corrupção, com a impunidade.

Temos que denunciar, estamos denunciando, e espero sinceramente que haja gratidão do Governo Estadual com o Governo Federal, porque o que a gente viu não teve nenhuma cor ideológica, foi um profissionalismo do Governo Federal, mandando, ajudando, conversando com o secretário de Saúde do Estado do Ceará, com o governador.  Sou testemunha disso, embora tenha muitas críticas ao Governo Federal, mas sou testemunha desse esforço para atender aos estados e municípios, especialmente o Ceará. E não faltou ajuda, não faltou apoio. 

Além da Coronavac, distribuída para os estados, o Governo Federal negociou dois milhões de doses da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford em parceria com a AstraZeneca, vindos da Índia. A chegada desses imunizantes, porém, veio atrasada em relação ao que o Governo havia previsto. O que falta na estratégia para que o Brasil, a esta altura, não esteja mais avançado em relação à imunização da população?  

Acredito que nós estamos vivendo, como se diz no futebol, (tem) um cronista que diz que 'o torcedor é um louco momentâneo'. Vejo que estamos vivendo uma insanidade coletiva por causa da política. Agente precisa serenar os ânimos, precisa realmente de uma conciliação. E os dois lados erram nisso. Acho que o momento é de falar menos e agir mais. Para os dois lados, repito. Tem um lado que torce muito contra, que quer ver o circo pegar fogo, são os profetas do caos, por interesses políticos. A gente vê muito isso, a confusão de briga de governadores com o presidente da República, do presidente com governadores, e essa falta de união gera um resultado ruim para todo mundo, para o Brasil. Fica um querendo ser o pai da criança, e muita ingratidão em jogo, por interesses políticos.

Nós precisamos evoluir nesse caso, por isso que nós, acredito, não estamos tão avançados na imunização ainda, mas acredito no bom senso, acredito no ser humano, e que as coisas possam se ajustar um pouco mais daqui para a frente, de forma serena. Que se possa buscar ajuda, em conjunto, os três poderes, alinhados, o que não está acontecendo ainda, para que tenha solução de continuidade essa vacina, o que para muita gente está sendo uma esperança. 

Sobre os impactos econômicos da pandemia, senador, tentar superá-los passa por quais medidas? As reformas que não avançaram no ano passado, como a tributária e a administrativa, são viáveis para este ano?  

As reformas administrativa e tributária são para ontem. Elas são a solução para o Brasil ter uma retomada em "V" de verdade. E nós estamos mobilizados, prontos para votar. Acredito que uma, inclusive, deve ocorrer concomitantemente com a outra, até para possibilitar, quem sabe, algum alívio, uma redução na carga tributária do Brasil, que, além de muito grande, é muito confusa. Precisa simplificar. Um trabalhador comum no Brasil passa cinco meses por ano trabalhando só para pagar imposto.

Ao mesmo tempo, a dificuldade do empreendedor é muito grande, para abrir empresa, para fechar empresa, é muita burocracia e isso tem que mudar. E a (reforma) administrativa vai dar esse fôlego, essa leveza que se precisa. Desburocratização. E tornar o Estado necessário.

Não um Estado mínimo nem um Estado máximo, mas um Estado necessário, para se fazer o trabalho como existe hoje em várias partes do mundo, uma coisa mais eficiente, sem inchaço, sem politicagem, que hoje a gente vê, ao longo dessas décadas no Brasil, muito cargo comissionado, muita coisa sem necessidade, por mera politicagem. Precisamos evoluir, continuar evoluindo, para que o Brasil seja mais eficiente. 
 

Na pandemia, o senhor conseguiu transformar em lei um projeto que garante abertura de linha de crédito para profissionais liberais custearem despesas. Tem acompanhado a aplicabilidade da norma após a sanção no sentido de minimizar impactos econômicos da crise sanitária?  

Sim. Nós conseguimos aprovar de forma rápida o nosso primeiro projeto de lei, durante essa pandemia, que nós trabalhamos diuturnamente no Senado Federal. E o projeto nosso, que o alcance é de 10 milhões de profissionais liberais beneficiados, é na questão da manutenção do seu próprio negócio, da sobrevivência. Porque a pandemia parou tudo, especialmente naqueles quatro primeiros meses de 2020, março, abril, maio, junho. Começou a voltar um pouco depois desse período. E aí tem a questão do fluxo de pagamentos, das responsabilidades com aluguel, com funcionários, conta de luz, conta de água.

Então, ele (profissional liberal) precisava desse fluxo de caixa, e nós conseguimos. Não dado. Nós conseguimos uma aprovação com os colegas de um valor limitado, com um custo financeiro bastante baixo. E lutamos pela regulamentação, foi aprovado no Senado, na Câmara logo depois, o presidente sancionou e nós cobramos a eficácia.

Estamos ainda recebendo os números de algumas pessoas beneficiadas, mas grande parte desse valor acabou indo para as micro e pequenas empresas, pelo Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte), porque foi vinculado ao Pronampe. Mas a lei está valendo, muita gente pedindo a legislação para buscar no seu banco, infelizmente houve também nos bancos um jogo um pouco duplo, os bancos privilegiam aquilo que eles têm interesse, ganham mais, por mais que o Governo de alguma forma intervenha, é difícil controlar. Mas a gente está atento. 

Legenda: "Reformas administrativa e tributária são para ontem", diz o senador do Podemos
Foto: Kid Júnior

Em meio às instabilidades em Brasília, partidos de oposição têm feito pressão por encaminhamento de um pedido de impeachment do presidente Jair Bolsonaro. O senhor vê motivos para um processo de impedimento? Como se posiciona sobre isso?  

Eu vejo isso como uma forma de tumultuar a democracia. É um fato que o presidente também não ajuda nesse aspecto, né? Mas, desde que houve a posse... antes mesmo da posse, mas durante esses dois anos mesmo de mandato, não teve paz sequer um dia. Muita confusão, muita gente torcendo contra, repito, o presidente também não ajuda, retrucando. Mas o fato é que isso não é bom para ninguém.

As pessoas precisam entender, todos nós estamos no mesmo barco. É o processo democrático. Foram 58 milhões de brasileiros que levaram o presidente a assumir o mandato, elegeram o presidente. Então não é assim, na força. Acho que a democracia no Brasil ainda é muito jovem, e mais um impeachment... por um motivo que não clareza nenhuma, não tem clareza, muito pelo contrário. Acho que esse Governo, em relação a outros, pelo menos escândalos de corrupção, você não ouve falar.

Por mais que tenha falhas nesse Governo, e tem falhas, eu tenho denunciado, eu tenho mostrado: aproximação com o Centrão, essa indicação do ministro Kássio (Nunes) para o STF (Supremo Tribunal Federal), que foi algo que não poderia nunca ter sido negociado. O Supremo há muito tempo é questionado e poderia ter ali uma figura que fosse a favor da Lava Jato, que está sendo sabotada pelos três poderes da República, o Judiciário, o Executivo e o Legislativo também, inclusive com interferência na Polícia Federal.  

Tenho uma PEC para que não haja essa interferência, tenha mandato para o diretor-geral, lista tríplice, enfim, independente se sai presidente, entra presidente, continua a diretoria. Mas acredito muito que nós temos uma responsabilidade comum com relação a tudo isso, e vejo claramente que esquemas como o Petrolão, Mensalão, aquelas vergonhas nacionais que a gente tinha, de outros governos aí, de escândalos por cima de escândalos, isso não está tendo agora.

Vejo a maioria dos ministérios com pessoas capacitadas, preparadas, que têm feito um trabalho para a Nação, com algumas exceções em alguns ministérios, mas a gente vê um outro comprometimento e não vê esses escândalos todos. Então, a gente não pode, pelo delírio, de uma forma vazia, para tumultuar a democracia, querer fazer impeachment. Isso é algo que atrasa o País e tem interesse eleitoreiro. O interesse é eleitoreiro.  

Vejo até esse Governo como um governo de transição. Acredito que foi para tirar uma estrutura política corrupta, carcomida, enlamada totalmente na corrupção, e precisava dar uma sacudida. Mas acredito que faz parte do processo de transição que a gente vive, para vir depois um outro Governo, que tenha mais os anseios, as pautas da sociedade, contra a impunidade, que é o que realmente coloca esse País de joelhos para o mundo. A corrupção no Brasil é o grande problema. E que possa trazer novos ares para esse Brasil, que ele é fantástico, ele é riquíssimo. Então, se tiver um Governo que tenha essa habilidade, pode gerar muitos frutos para as futuras gerações. É um País cheio de oportunidades, com reservas de todas as formas que a gente pode imaginar, potencial para o turismo fabuloso, e para tantas outras possibilidades de negócios.  

O que a gente precisa é de serenidade. Acredito que pautas da sociedade, como o combate à corrupção, a impunidade, a (prisão em) segunda instância são urgentes, (assim como) o fim do foro privilegiado. A grande blindagem dos corruptos no Brasil é o foro privilegiado. Aí fica o STF protegendo o Senado, e o Senado protegendo o STF, que podem investigar um ao outro. Fica esse ciclo vicioso para a nossa Nação.

Daqui a dois anos tem eleições, tem outros nomes, para que a gente possa escolher outras opções em 2022, para ver o que se pode corrigir de rumos. Vamos observar. Eu continuo fazendo o meu trabalho, fiscalizando, mas também colaborando com o Brasil. Independentemente de quem está no Governo, colaborando com o Brasil e torcendo para que o Brasil dê certo. E, obviamente, para que o Brasil dê certo, esse Governo tem que dar certo também. 

O senhor chegou a fazer críticas ao atual presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), pelo "engavetamento" de pautas como a CPI da Lava Toga e a discussão sobre a prisão em segunda instância. Qual deve ser o perfil do próximo presidente? Dentre os quatro candidatos, qual consegue ter essa característica?  

Eu já declarei meu voto pela Simone Tebet (MDB-MS), porque acredito que ela representa a alternância de poder, uma independência que o hoje o Senado não tem. Preparada, muito sensível à opinião pública, isso é muito importante. Inclusive lá na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), ela como presidente da CCJ, agora, e o Davi não queria pautar de jeito nenhum a segunda instância, aquela coisa toda. O clamor popular cresceu e ela pautou na CCJ, nós ganhamos, inclusive, foi uma pressão dos senadores junto com a sociedade, e ela pautou o retorno à prisão de segunda instância, e nós ganhamos.

Isso mostra o comprometimento dela no combate à corrupção, à impunidade, e é a opção que a gente tem para a alternância. Porque no outro lado está o Rodrigo Pacheco (DEM-MG), que é um grande senador, preparado, mas os apoios dele estão muito contraditórios e são muito estranhos. Primeiro, o Davi Alcolumbre, que representa a situação, um continuísmo, os engavetamentos sucessivos, junto com o PT, e junto com o Planalto, só que o Planalto como se colocasse em uma coleira o Senado. Não é por aí. A gente precisa de independência, e a Simone representa essa independência sem ser uma oposição, não é papel do presidente do Senado.É uma independência com foco no desenvolvimento, nas reformas. 

Acredito que mais um passo agora seria a Simone, um passo positivo, de esperança. Porque aí nós teríamos uma possibilidade de evolução do Senado, como uma Casa forte, respeitada. E só vai ocorrer isso, realmente, se tiver voto aberto e se a população entrar no jogo. Se a sociedade se manifestar, cobrando seus representantes, reivindicando deles a sua posição, o voto aberto, para que a gente tenha uma eleição transparente, já que o Davi prometeu isso.

Aliás, ele foi eleito com a promessa de acabar com esse negócio de voto secreto. Inclusive, ele falou no discurso de posse dele, que ia acabar com o 'segredismo' no Senado, que era um atraso, e ele até agora não votou isso, proposto por nós durante toda a legislatura. Durante esses dois anos, nós cobramos a ele, e ele não pautou. 

Para o senhor, o que deve ser prioridade na futura gestão do Senado?  

As reformas. E aproximar a população da Casa, que está apartada. A população está separada do Senado, e eu lhe digo, com legitimidade, porque os engavetamentos sucessivos, as demandas da sociedade não foram atendidas minimamente pelo presidente Davi Alcolumbre. O que a gente espera é uma escuta maior, uma aproximação do Senado com a sociedade. Isso é muito importante para o futuro do Brasil. 

Militante do movimento "pró-vida", o senhor também tem atuação parlamentar marcada por pautas ideológicas. Chegou, inclusive, a se posicionar contra a legalização do aborto na Argentina, quando o assunto estava em discussão no Legislativo do país vizinho. Desde 2018, as eleições têm mostrado que pautas mais conservadoras ganham representantes nos parlamentos do País. No campo político brasileiro, essas discussões vêm saindo do plano retórico para ter desdobramentos práticos? Por quais motivos?  

O povo brasileiro é pró-vida, né? O povo brasileiro, mais de 85%, segundo pesquisas recentes, é a favor da vida desde a concepção, contra o aborto, e a ciência tem levado muita luz a esse debate, e, cada vez mais, acredito que a tendência é aumentar isso. O que aconteceu na Argentina foi algo muito absurdo, ausência de debate, ausência de mais posicionamentos, (para) se mostrar o que é realmente o aborto, porque aborto é a vida de duas pessoas devastada. (...) Realmente, nesses primeiros dois anos, a gente não conseguiu avançar (em pautas ideológicas). Entrei, nesse ano de 2020, com o Estatuto da Gestante, que vai proteger a gestante e a criança por nascer. Acredito que isso possa ser um passo para que o Brasil se torne mais pró-vida ainda. Porque isso é uma questão realmente de cidadania. De a ciência a favor da vida. E esses anseios são valores, princípios do povo brasileiro, independentemente de religião, que precisam ser resguardados.  

Espero focar para que a gente possa avançar, infelizmente, sabendo também, que pode haver um ativismo judicial do Supremo Tribunal Federal, que, hoje, cada vez mais, se consolida na boca do povo como uma vergonha nacional. E não tiro o direito das pessoas pensarem isso, porque tem muitas decisões absurdas. Realmente decisões inconcebíveis que o Supremo tem tido, especialmente na questão da ética, combate à impunidade, corrupção. Virou uma Casa política. Mas nós vamos fazer o nosso papel no Congresso, quem deve legislar sobre isso é o Congresso, é muito claro.

Nós fomos eleitos para isso, deputados e senadores, para manifestar a opinião, o pensamento da população. O Supremo não, o Supremo fica invadindo para legislar sobre drogas, legislar sobre vida, desde a concepção. O Supremo precisa de um freio, e só vai acontecer esse freio também quando tivermos pautas como impeachment de ministro do Supremo, CPI da Lava Toga, para abrir essa caixa preta que está ali e que precisa ser investigada, e só o Senado pode fazer isso.  

O Senado está acovardado, pelos últimos presidentes do Senado. Não faz, protegem. Porque muitos senadores têm problemas na Justiça, têm correligionários, amigos. E aí fica esse jogo que atrasa a Nação. Mas da mesma forma que já tivemos presidentes, impeachment no Executivo, tivemos senadores cassados, deputados cassados, chegou a hora de se investigar único poder da República que não é investigado, que é o Supremo Tribunal Federal. Quando isso acontecer, no meu modo de ver, isso é a redenção do nosso Brasil, porque a Justiça vai ser para todos. 

O cenário de polarização política no Brasil está cheio de situações em que diferenças acabam travando diálogos. Como dialogar com outras dimensões da sociedade e manter-se fiel às suas bases eleitorais? O senhor acredita que isso é importante?  

Sim, é verdade, esse cenário de polarização trava o debate. Se você discorda da pessoa em uma pauta, você é contra ela, então precisa ter mais diálogo, precisa ter mais serenidade. A animosidade precisa arrefecer um pouco. E isso é uma conquista de todos nós. Eu tenho muita fé que Deus está no controle de tudo, que Jesus tem um plano para o nosso País, para o nosso planeta, e a gente precisa fazer a nossa parte com humildade, com trabalho, com união, e acreditar, porque realmente o momento é de muita tensão. E só vejo (isso como possível) quando houver líderes realmente comprometidos com a com a paz, seja na esfera federal, estadual. De verdade mesmo, não fazendo uma farsa. Uma coisa de coração, realmente, que não jogue para a plateia e que possa buscar um diálogo verdadeiro. Ter gratidão nas coisas e tentar resolver sem fins eleitoreiros.

Sou contra a reeleição, sempre deixei claro isso, contra total a reeleição, ainda mais no Executivo. Especialmente no Executivo, porque acho que já se começa o primeiro mandato pensando em como é que vai fazer para chegar no segundo. O grande problema do País, hoje, chamo de populismo. Que é você, às vezes, votar matérias, ali, sabendo que o Brasil precisa, sabendo que são importantes para o povo, mas, para não se desgastar com aquele grupo, para jogar para a plateia naquele momento, você cede. Esse é o grande problema do País.  

Legenda: Para Girão, "a animosidade precisa arrefecer um pouco" diante da polarização no País
Foto: Natinho Rodrigues

Por isso que reeleição sou contra, e já estou apoiando propostas nesse sentido. Então, vejo que vai ter que ser uma conquista do ser humano, porque essa polarização está no mundo inteiro, mas acho que o Brasil, que é a maior Nação católica no mundo, a maior Nação espírita do mundo, a maior Nação evangélica do mundo, pode dar essa contribuição para apaziguar os ânimos. Dar o exemplo, de compreender o diferente. Se você não está junto de uma pauta aqui, ouvir o contraditório, colocar as suas ideias e respeitar a opinião divergente. Sem querer censurar, sem querer ganhar no grito. Faz parte. Acho que foi o Ronald Reagan que disse que, se você concordar 80% com outro opositor, já é seu aliado. Faz parte você ter divergências. Ninguém é dono da verdade. Eu, por exemplo, abraço pautas que alguns dizem que são de esquerda, outros dizem que são de direita, não me importo com isso.  

Eu me importo com a minha consciência, com base no bom senso, no estudo, na fé, na pesquisa, na intuição também. E levando o bom senso com estatísticas sociais, você vai chegando em uma compreensão, tocando, despertando mentes e corações. Acho que é por aí. A gente precisa apaziguar, acabar com essa guerra que não leva nada a ninguém. E acho que daí advém muito sofrimento, e muitas vezes é através do sofrimento que a gente aprende. Ou você aprende pelo amor ou você aprende pela dor.

Acredito que essa pandemia tem um significado, Deus não deixaria nada acontecer se não fosse por um bem maior. O significado é a gente se tornar mais solidários uns com os outros, mais fraternos. Mais respeito, mais amor, dar valor àquilo que realmente importa, a família, os amigos, fazer bem ao próximo, ter harmonia. Eu acho que é por aí a descoberta da humanidade. 

No Ceará, o Podemos vive um momento de reposicionamento como partido de oposição, inclusive a partir de resultados expressivos no pleito municipal de 2020. Como o senhor avalia a última eleição no Estado? 

Avalio a última eleição, na esfera municipal, de uma vontade grande do povo cearense, em geral, de se libertar. Se libertar desse sistema, um sistema baseado no coronelismo, no voto de cabresto, ainda, por incrível que pareça. Se libertar do poder financeiro, de compra de votos, do domínio de uma família, de um clã que vem dominando o Ceará há décadas.

Acho que o fortalezense deu um grito de liberdade. O juazeirense conseguiu se libertar. Alguns outros municípios, São Gonçalo do Amarante, Caucaia, Maranguape, conseguiram se libertar. Deram um grito importante e conseguiram. Outros ainda não. Fortaleza foi por muito pouco, mas acreditamos que foi um passo muito importante, porque mostrou que a população não está satisfeita com esse sistema que está aí.

Vejo que foi um passo importante para uma libertação maior. Quem sabe em 2022, que ainda está muito longe, muita coisa para acontecer. Acredito que tudo tem um ciclo, na vida. Tudo tem um ciclo, e esse ciclo está terminando, esse ciclo desse tipo de política, algo muito fisiológico, que domina vários setores por interesse, para mandar e desmandar. E é isso que que está acontecendo com interesses políticos também, para 2022, o projeto para a Presidência da República. O Estado do Ceará e a Prefeitura de Fortaleza são um meio desse grupo, para fortalecer isso. O objetivo é permanecer no poder. Permanecer, continuar, mas o sistema está esvaindo, saturou.

A gente viu muito isso. Eu vi muito nas ruas, coordenando a campanha do Capitão Wagner (então candidado do Pros à Prefeitura de Fortaleza), conversando com as pessoas simples. E as pessoas (dizendo): 'vão nos libertar disso, eu não aguento mais'. Acredito que isso vai ser muito natural, isso vai ocorrer de forma natural, com a consciência das pessoas cada vez mais despertadas. 

Quais são as próximas metas do Podemos como partido no Ceará?  

O Podemos está tendo uma postura muito clara, uma nova forma de fazer política, a boa política. Alinhamento por ideias, não por interesse. Nós temos plenas convicções, eu faço parte do grupo, na verdade quem lidera é o Fernando Torres, o presidente do partido, que a gente tem um alinhamento muito grande em pautas. Em defesa da sociedade, a favor da vida, contra drogas, contra jogatina. Isso é uma ameaça de lobbies que tem em todas as esferas, e nós conversamos com o grupo. Muita gente boa.

Tem também a Kamila Cardoso, que está conosco, que foi candidata a vice-prefeita do Capitão Wagner. (...) O Podemos não é absolutamente melhor do que ninguém, tem apenas certos princípios, valores, de engajamento, de alinhamento, para que se possa ter esse tipo de política e a formação de cidadania. E a gente espera que o partido continue crescendo, sem atalhos, no tempo certo.  

O importante é isso, discussão de propostas para a sociedade, de uma forma muito natural, uma nova forma de fazer política. Sem conchavo, sem toma lá, dá cá, sem barganha. Acho que é por aí. E, fora o Podemos, que tem um alinhamento natural com o Pros, liderado pelo Capitão Wagner, tem outros também, de muitas lideranças boas na oposição, inclusive de fora da política, que têm participado de reuniões conosco, e é uma construção natural. Os sinais vão acontecendo, e a gente está preparado para somar. Todos, todos esses atores aí, preparados para somar em um crescimento dessas ideias, dessas propostas que possam culminar, quem sabe, se assim for a vontade de Deus, com a redenção, de verdade, do Estado do Ceará. 

Legenda: Com atenções voltadas ao Senado, Girão diz que também busca avaliar cenários locais
Foto: Agência Senado

O senhor está no seu primeiro mandato eletivo e, em 2020, já demonstrou articulação importante com lideranças em outros municípios. Teve também participação ativa na campanha de Capitão Wagner pela Prefeitura de Fortaleza. O senhor pretende liderar a organização da oposição até a disputa pelo Governo do Estado em 2022? Na sua avaliação, quais devem ser os próximos passos da oposição?  

Eu estou muito focado, sigo extremamente focado no cenário nacional. O povo cearense me trouxe para o Senado. Estou me dedicando de corpo e alma, no limite das minhas forças, com toda a limitação e imperfeição que sei que tenho, estou aprendendo todo dia, mas procurando fazer um mandato transparente. O que o político tem, que acho que são os valores principais, é a integridade e também a coerência, do que você pensa, fala e faz. Tenho procurado fazer isso. Todas as propostas da campanha (estou) procurando colocar em prática: transparência no mandato, um mandato econômico, enxuto, que tem dado produtividade, tem trazido inclusive benefícios para o Estado também.

Fizemos um convênio com a Procuradoria Geral da República e o Ministério Público do Ceará para que cada emenda que a gente conseguisse, de uma forma ou de outra, das impositivas, de bancada e tudo, fosse fiscalizada por eles. Temos procurado atender os municípios, de uma forma sem interesse, político-eleitoreiro. Municípios em que até tivemos pouquíssimos votos na eleição estão sendo atendidos. O critério não é esse, o critério é ajudar a todos, apoiar, receber a todos.  

O cenário local também é importante. Tenho me desdobrado entre Brasília e Fortaleza e o Estado do Ceará, e procurado atender a todos indistintamente de questões políticas. Então, para mim, não tem esse negócio de adversário, recebo todo mundo e estou disposto a ajudar. Tanto é que no Governo do Estado do Ceará, muitas vezes fui acionado pela Secretaria da Fazenda, Dra. Fernanda (Pacobahyba), para ajudar na questão dos recursos do Governo Federal para o Estado do Ceará, reposição de perdas de arrecadação. (...) Tenho ajudado o  Ceará na saúde também, com o secretário Cabeto, fazendo esse intercâmbio, essa mediação com o Ministério da Saúde, habilitação das UTIs, respiradores, tudo isso.

Tenho procurado ajudar com o que posso, na forma em que sou acionado. Na bancada, com os colegas deputados, senadores, procurando fazer o nosso trabalho, sabendo que temos muito ainda a fazer. Mas sempre de olho no cenário e esperando renovação, esperando mudança nas duas esferas, tanto lá no Legislativo, em que estou, como também no Executivo estadual, no municipal, esperando mudanças. Porque é bom a alternância de poder, sob todos os aspectos, em todas as esferas governamentais. 

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Motos em São Paulo em protesto a favor de Bolsonaro
Estadão Conteúdo e Renato Galf e Victoria Azevedo/ Folhapress 12 de Junho de 2021