Analistas avaliam ganhos e perdas da saída de Moro do Governo

Cientistas políticos apontam um enfraquecimento na base de sustentação do bolsonarismo e o fortalecimento do ex-ministro da Justiça. Para alguns, com as acusações de Moro, tese de afastamento se fortalece, mas ainda é incerta

Escrito por Luana Barros, luana.barros@svm.com.br

Política
Legenda: Após anunciar a sua saída do Governo, ontem, Sérgio Moro foi aplaudido por apoiadores no Ministério da Justiça
Foto: Foto: Agência Brasil

A crise mais recente do Governo de Jair Bolsonaro (Sem Partido) deixa mais perguntas do que respostas. Qual narrativa sobre a demissão de Sérgio Moro do cargo de ministro de Justiça e Segurança Pública irá prevalecer? Mesmo a base de apoio ao presidente rachou. Para analistas políticos, parte mostrou perplexidade com acusações feitas por Moro e cobrou de Bolsonaro explicações. Outra parte, contudo, criticou Moro pela forma como decidiu sair da gestão, chegando a chamá-lo de traidor.

Na avaliação do cientista político Emanuel Freitas, professor da Universidade Estadual do Ceará (Uece), a primeira consequência é o "desfalque" do Governo, mas esta divisão demonstra também o enfraquecimento de uma das bases de sustentação do "bolsonarismo": a luta anticorrupção. "Não apenas pela saída, mas pelo que ele falou na saída", afirma. "Moro incorporava esta bandeira, que ajudou na retirada do PT do poder e significou a ascensão de Bolsonaro ao Planalto", acrescenta.

Entre as acusações feitas por Moro, estão a de interferência na Polícia Federal, inclusive para ter acesso a informações sobre investigações. "Falei ao presidente que seria uma intervenção política, e ele disse que seria mesmo", ressaltou o agora ex-ministro.

"Para Moro, (a demissão) foi um gol de placa", considera a professora do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Ceará (UFC), Monalisa Soares. "Ele sai buscando uma limpeza imagética ao antagonizar com o presidente, que vem em um processo de tentar manter a sua credibilidade".

O pronunciamento feito junto ao pedido de demissão também recoloca Moro no centro das discussões. Soares aponta que, apesar de ter o melhor índice de popularidade no Governo, o ex-juiz vinha em um processo de desgaste como ministro, com o apagamento de sua agenda na Pasta.

"A intenção do Bolsonaro, foi sempre manter o Moro sob a sua asa, para que pudesse continuar desgastando o ex-ministro", analisa Soares. Um dos motivos para isso é a possibilidade de candidatura do ex-juiz da Lava Jato em 2022.

"Fica claro o seu desejo a vir a se candidatar, quando fala que está à disposição do Brasil, por exemplo", lembra Emanuel Freitas. "Nenhum outro ator político ganharia tanto quanto ele (Moro) com o desgaste de Bolsonaro", diz Monalisa Soares.

Desconstrução

Para eles, o pronunciamento de Bolsonaro foi, portanto, uma tentativa de, ao mesmo tempo, responder às acusações de Moro e tentar manter apoiadores que se aproximaram do bolsonarismo por conta da defesa ao combate a corrupção e à Lava Jato.

"Ao longo da fala, ele foi dando as linhas de ataques que serão feitos a Moro. De que o ex-ministro sabotava o presidente, de que queria manter o status quo do sistema político, de que seria antipatriótico", argumenta Soares. "Ele tenta ainda afastar Moro do seu campo de ação política, que é o mais conservador". No discurso, Bolsonaro chegou a dizer que está "lutando contra o sistema".

"Há a possibilidade de Bolsonaro angariar ganhos com o eleitorado, porque isto ajuda nesta narrativa. De que o Moro saiu porque não conseguiu enquadrá-lo no sistema", pondera Freitas. "A narrativa de Moro pode ser desmontada a favor de Bolsonaro".

Políticos e instituições têm levantado a possibilidade de um processo de impeachment contra Bolsonaro. Contudo, ainda há uma incerteza se será possível angariar apoio para isto, apesar de justificativas já colocadas. A advogada Soraia Mendes, doutora em Direito, Estado e Constituição pela Universidade de Brasília (UnB), avalia que ainda é preciso "decantar as declarações do ministro Moro para que a gente possa fazer, na ponta do lápis, a tipificação penal em cada uma das circunstâncias que ele foi relatando".

Para além do aspecto jurídico, contudo, há ainda o aspecto político de eventual pedido de impeachment. Neste caso, o pronunciamento de Moro fortificaria a possibilidade de afastamento principalmente por quem esta fala mobiliza. "Existem elementos, mas o período não é favorável", afirma Emanuel Freitas.