Ofício e amizade

Em 1930, aos 20 anos incompletos, Rachel de Queiroz causou espanto na cena literária do país com “O Quinze”, que a consagrou como escritora. No ano seguinte, receberia da Fundação Graça Aranha o prêmio de melhor romance.

Sua estreia na imprensa de Fortaleza, em 1927, fora igualmente notável. Em carta a Suzana de Alencar Guimarães, jornalista de “O Ceará”, Rachel, sob o pseudônimo Rita de Queluz, espinafrava com bom humor a nobreza da amiga, recém-eleita Rainha dos Estudantes. A verve da missivista impressionou Júlio Ibiapina, diretor daquele periódico, que publicou a carta da futura cronista de “O Cruzeiro”.

O tom irreverente da Queluz chamou atenção dos frequentadores dos cafés da Praça do Ferreira, dentre eles o escritor Jáder de Carvalho, a quem caberia resolver o mistério em torno da signatária. Nascido em Quixadá, o poeta de “O canto novo da raça” não ignorou o carimbo no envelope. A carta vinha da Estação de Junco, a certa distância da fazenda onde Rachel morava: “Isso é coisa da Rachelzinha”, atestava ele.

Convidada a colaborar naquele jornal tão logo sua identidade fora revelada, Rachel teve em Jáder um companheiro de ofício. Quando não estavam escrevendo artigos para a imprensa, dedicavam-se à poesia. Rachel ensaiou publicar os poemas desse período em livro, que intitulou “Mandacaru”, editado postumamente, em 2010. Prosadora inequívoca, faria carreira no romance e na crônica. Jáder, poeta de obra vasta, estrearia com “Terra de ninguém”, de 1931, e cultivaria a poesia até o fim da vida.

A política também os aproximaria. Exceto quando as paixões falavam mais alto, como relembra Gregório Bezerra em suas memórias: “[...] ela e Jáder de Carvalho se desentenderam numa discussão em praça pública [...]. Jáder a qualificou de trotskista e ela a Jáder de Carvalho de oportunista.”

Narro a história breve dessa amizade no ano em que Rachel chegaria aos 111, e Jáder, aos 120. Se a aproximação parecer artificial ao leitor, tenho em minha defesa a afinidade com ambos: a ele já dediquei uma dissertação, e dela pretendo escrever a biografia. Que os dois me ajudem.

Sávio Alencar é editor e pesquisador de literatura