As novas competências dentro das corporações

Um estudo da Harvard Business School indica que mais de 50% dos líderes acreditam que o desenvolvimento de suas habilidades não foca em suas capacidades críticas e competências organizacionais. O mesmo trabalho aponta que dos cerca de US$ 200 bilhões gastos em treinamentos e desenvolvimentos corporativos nos Estados Unidos apenas 10% oferecem resultados concretos. 

Mesmo com tais investimentos, os programas de educação executiva, seja extensão ou MBA, não preparam adequadamente os executivos para os desafios que enfrentam hoje e enfrentarão amanhã – quem de nossa geração foi preparado para lidar com uma pandemia na proporção da que vivemos como a da Covid?

O que o estudo mostra é que os treinamentos se concentram em conjuntos de habilidades com base em disciplina, como desenvolvimento de estratégia e análise financeira, e subestimam importantes capacidades relacionais, de comunicação e afetivas.

Hoje, as empresas buscam as habilidades comunicativas, interpretativas, afetivas e perspectivas necessárias para uma liderança coerente e proativa e, prova disso, são as grandes escolas de negócios, como Rotman e a própria HBS, que perceberam uma necessidade de adaptar as necessidades e comportamentos de indivíduos e equipes.

É nesse contexto que entra um tema novo no Brasil e no mundo: cultura emocional, que surgiu com o crescimento do setor de serviços no mercado e dos setores administrativos das empresas, com trabalhos menos padronizados e aumento da competitividade. Foi necessário pensar em formas de incentivar comportamentos esperados para oferecer boas experiências de serviços aos clientes. Porém, nem sempre eles estão sendo desempenhados alinhados com as crenças e emoções sentidas pelas pessoas que trabalham nas empresas.

Na busca por essa nova postura, muitos acabam confundindo inteligência emocional e cultura emocional. O que precisa ficar claro é que a inteligência emocional é a forma como a pessoa lida com as emoções individualmente e com as relações com os outros. Já a cultura emocional é como o indivíduo lida com a inteligência do grupo, é a soma das inteligências emocionais de cada indivíduo. E agora, mais do que nunca, as emoções estão à flor da pele. 

Se antes já eram baixos os índices de engajamento das empresas – só para se ter ideia, segundo pesquisa realizada em nove países pelo ISMA, o Brasil ocupa o 2º lugar em casos de Síndrome de Burnout (distúrbio caracterizado pelo estado de tensão emocional e estresse provocados por condições de trabalho desgastante), afetando 33 milhões de brasileiros –, agora as pessoas estão distantes e buscando uma salvação. Nesses tempos de pandemia, nunca foi tão necessário começar um movimento profundo de transformação da cultura emocional das empresas.

No cenário atual, temos visto que os líderes que, declaradamente, estão trabalhando a cultura emocional por meio de diálogos transparentes com as equipes, promoção de rituais de acolhimento das emoções (autoconhecimento e inteligência emocional), abertura para o desenvolvimento de soluções colaborativas (colaboração) e para as tentativas e erros (ação, reformulação de problemas e consciência) estão desenvolvendo as competências de inovação a partir da abertura emocional para o novo, ao mesmo tempo que estão apoiando as equipes a vivenciarem desafios da crise com mais tranquilidade e, consequentemente, conseguindo criar mais soluções inovadoras dentro e fora da empresa para seus clientes. 

Vejo que isso terá não apenas em curto prazo, apoiando na sustentabilidade dos negócios, mas em longo prazo, gerando maior engajamento e motivação das pessoas. Vamos começar a falar mais de emoções nas empresas?

Mari Trindade

Especialista em inovação e pessoas

 


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