A nova tarifa de 25% que os Estados Unidos podem aplicar aos produtos brasileiros, anunciada nesta terça-feira (2), deve afetar os principais produtos exportados pelo Ceará.
Os Estados Unidos são o maior parceiro comercial do Ceará há mais de 30 anos. Ao longo de 2025, o Ceará exportou R$ 5,2 bilhões ao país, cerca de 46% do montante total exportado em doze meses.
A gestão de Donald Trump impôs, em agosto de 2025, uma tarifa de 50% a todos os produtos brasileiros, que depois foi revogada para algumas categorias de produtos.
O tarifaço contra o Brasil e outros países foi revogado pela Suprema Corte norte-americana em fevereiro, que identificou irregularidades na imposição de tarifas por conta própria.
Agora, os EUA pretendem taxar os produtos brasileiros a partir de investigação do Escritório de Comércio, seguindo os trâmites legais. A nova tarifa não deve atingir uma série de produtos, como carne, café, frutas, aeronaves e minerais críticos.
Os principais itens vendidos por empresas cearenses aos EUA — ferro, aço, peixes e crustáceos e calçados — não estão na lista de exceções. Ou seja, poderão ser taxados em 25% para que entrem nos EUA.
Castanhas, frutas e água de coco, itens da agropecuária cearense que também estão na pauta exportadora cearense, entraram na lista de isenções.
ALERTA PARA INDÚSTRIAS SIDERÚRGICA E CALÇADISTA
A Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec) vê com preocupação o anúncio das tarifas e aponta a necessidade de negociações para que o cenário não se concretize. O setor mais afetado, com maior comercialização aos Estados Unidos, é o da siderurgia.
"Se juntar a toda a produção americana não é suficiente para atender à demanda das siderúrgicas americanas que fazem o beneficiamento desse aço e o transformam em outros subprodutos da indústria siderúrgica. Há uma forte complementaridade entre as duas economias", afirma Guilherme Muchale, economista-chefe da Fiec e gerente do Observatório da Indústria.
A decisão também acende alerta no setor calçadista, já que parte da produção no polo cearense é destinada à exportação.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), a possibilidade da tarifa adicional traz mais insegurança tanto para o exportador quanto para o importador norte-americano.
“Historicamente, os Estados Unidos são o principal destino das exportações brasileiras de calçados. A medida é anunciada em um momento de recuperação, após queda do tarifaço de 50%, ocorrida no final de fevereiro", destacou.
A Confederação Nacional da Indústria (CNI) afirmou, em nota, que a imposição da tarifa pode prejudicar todo o setor brasileiro e o próprio mercado dos EUA.
O órgão destacou que as exportações brasileiras aos EUA registraram queda de 4,2% em comparação com o ano anterior. "O momento exige diálogo e análise técnica. De nossa parte, estamos prontos para contribuir com as negociações", diz o presidente da CNI, Ricardo Alban.
RISCOS PARA A CADEIA DE PESCADOS
Para a produção de pescados, que representa o segundo produto mais enviado aos Estados Unidos, a nova tarifa impacta em riscos para a cadeia produtiva, segundo diretor do Sindicato das Indústrias de Frio e Pesca do Ceará (Sindifrio), Paulo Gonçalves.
O setor projeta uma perda de rentabilidade milionária, caso tenha que compensar a tarifação em 25% para entrar em solo norte-americano.
"Nossa pescaria aqui no Ceará é toda artesanal, e isso afeta diretamente o pescador. Vamos ficar em desvantagem de comércio com outros países que fornecem para lá", comenta.
O porta-voz do sindicato aponta que, durante a vigência das tarifas de 50% pelos EUA, as exportações se mantiveram graças ao apoio recebido do governo estadual. A longo prazo, entretanto, o cenário pode ser insustentável.
"Nós estamos cada vez mais perdendo espaço. Primeiro, nós perdemos a União Europeia em 2018, por questões sanitárias deles. E agora nós estamos em vias de perder o mercado americano por problemas políticos e tarifários. Para nós, é terrível", ressalta.
TARIFA AINDA NÃO ESTÁ CONFIRMADA
A proposição da tarifa é resultado de uma investigação que acusa o governo brasileiro de adotar práticas que 'oneram ou restringem' o comércio com os Estados Unidos.
O documento aponta que investigação foi realizada por determinação do presidente Donald Trump. Entre as práticas criticadas pelos Estados Unidos estão acordos comerciais que 'privilegiam México e Índia', falhas no combate à 'corrupção e suborno' e desmatamento, além de demora para aprovação de patentes farmacêuticas e medidas fracas anti-pirataria.
A gestão cita ainda as investigações no Supremo Tribunal Federal contra redes sociais e faz novas críticas ao Pix. Segundo o governo americano, o sistema de pagamento brasileiro limita a atuação de concorrentes.
A investigação foi criada em 15 de julho de 2025 e tem como base a Lei de Comércio dos EUA, que permite investigar países com políticas ou práticas prejudiciais ao comércio ou empresas norte-americanas.
A gestão abriu audiência pública para envio de pedidos de participação até 22 de junho. Em 6 junho, deve ser realizada audiência pública para debater as medidas propostas.
O Governo Federal manifestou indignação com a investação e negou práticas comerciais prejudiciais. Também destacou que, em 2025, 76% das importações originárias dos Estados Unidos entraram no Brasil sem pagar imposto de importação.
Os dois países seguem em negociações. "O Governo reafirma a expectativa de que as recomendações não se convertam em tarifas efetivas, mas reitera que adotará toda e qualquer medida capaz de reduzir os danos que venham a ser causados à economia, aos empregos e à renda dos brasileiros", aponta a nota.
O prazo para a definição e eventual aplicação de medidas corretivas contra o Brasil é 15 de julho. Veja itens que estão na lista de exceções e não devem ser tarifados:
- carne
- café e chás
- minerais
- aeronaves e partes de aeronaves
- castanhas e cocos
- pimenta, baulinha e outras especiarias
- frutas
- cacau e derivados
- energia e combustíveis
- fertilizantes