Perda bilionária na Aegea pode impactar o serviço de saneamento no Ceará?
Subsidiária da Aegea, a Ambiental Ceará é responsável pelos serviços de esgoto no Estado.
A Aegea registrou queda de R$ 5 bilhões no patrimônio líquido, levantando dúvidas sobre os impactos no Ceará, onde controla a Ambiental Ceará, responsável pelo esgotamento sanitário em 24 municípios via Parceria Público-Privada (PPP) com a Cagece.
A baixa contábil de R$ 5 bilhões foi comunicada após a empresa reapresentar os dados de 2024 no início de abril deste ano, após uma sucessão de atrasos.
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Segundo o documento divulgado pela companhia, o valor saiu de R$ 11,4 bilhões para R$ 6,3 bilhões, representando um encolhimento de quase 45%.
A revisão também impactou negativamente o lucro líquido da empresa em R$ 593 milhões, saindo de R$ 2,3 bilhões para R$ 1,8 bilhão.
Em nota (leia na íntegra abaixo), a Cagece destacou que, "caso haja qualquer situação que comprometa a execução contratual, a companhia possui a prerrogativa de adotar medidas administrativas".
De acordo com a entidade, a PPP firmada "possui mecanismos de controle, fiscalização, cobrança de metas e acompanhamento de investimentos, sendo permanentemente monitorados pela companhia".
Qual o motivo das revisões?
De acordo com o documento divulgado pela Aegea, os ajustes ocorreram por motivos como mudança na contabilização para clientes inadimplentes há mais de 6 meses ou com cadastro incompleto e alterações no tratamento contábil de juros associados ao pagamento de outorgas.
Questionada sobre o assunto, a Aegea esclareceu que "os ajustes realizados possuem natureza exclusivamente contábil" e que "não houve impactos sobre caixa, liquidez ou cumprimento de covenants financeiros" (confira nota ao fim do texto).
A companhia também reforçou que a atualização dos dados não gerou "qualquer impacto operacional sobre as concessões da Companhia" e que "a unidade no Ceará segue com suas operações em saneamento, conforme o planejamento contratual e regulatório".
O economista e vice-presidente da Academia Cearense de Economia (ACE), Célio Melo, esclarece que a mudança no patrimônio da Aegea não representa uma perda automática de caixa ou deterioração operacional, mas sim um ajuste de números no balanço para refletir a realidade.
Ainda assim, ressalta, é preciso reconhecer que esse ajuste produz alguns efeitos.
Impacto na credibilidade pode dificultar captação de recursos e atrasar serviços
Frente a esses ajustes contábeis, a agência de classificação Moody's Ratings rebaixou a classificação de crédito corporativo da Aegea na última terça-feira (5).
Conforme divulgado pela agência, a revisão em baixa ocorre após repetidos atrasos na publicação das demonstrações financeiras auditadas do ano fiscal de 2025 e reformulações contábeis relevantes de períodos anteriores, incluindo o ano fiscal de 2024.
Segundo a Moody's, as mudanças teriam aumentado o nível de endividamento em relação ao patrimônio, reduzido a margem de segurança em relação às cláusulas contratuais que a empresa deve cumprir para manter seus financiamentos e elevado o risco de governança.
Para o doutor em economia e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Joseph Vasconcelos, a "ilusão de valor e de endividamento mina a credibilidade junto ao mercado e prejudica a captação de recursos necessários para investimentos de longo prazo".
Conforme explica, a Aegea Saneamento atua em um segmento que exige grandes aportes de recursos financeiros, o que, muitas vezes, só é possível mediante a captação junto ao mercado financeiro.
Nesse sentido, Vasconcelos indica que a baixa credibilidade junto ao mercado pode encarecer a captação desses recursos, seja pela elevação de juros sobre o capital de terceiros ou pelo aumento do retorno exigido pelo acionista diante da percepção de risco sobre a empresa.
"Em resumo, entendo que, no curto prazo, a empresa continuará tendo capacidade de operar. Porém, no longo prazo, poderá ter dificuldades de financiar os seus projetos de investimento, o que resultará no atraso das suas metas operacionais propostas", afirma Vasconcelos.
De acordo com ele, é essa dificuldade para captação de novas receitas junto ao mercado que pode prejudicar a subsidiária Ambiental Ceará, impactando a liquidez de recursos postos à disposição da empresa para ampliação e cumprimento das metas operacionais de longo prazo.
"A dificuldade financeira de captação de recursos da empresa controladora (Aegea) pode resultar em atrasos no atendimento dessas metas ou mesmo na precarização dos serviços prestados pela Ambiental Ceará", explica.
"No entanto, cabe a ressalva de que a Ambiental Ceará é apenas uma das empresas da holding, podendo ter suas operações menos impactadas em decorrência de parcerias estratégicas junto a outras empresas no Estado", pondera.
A meta da Ambiental Ceará é que o serviço de coleta e tratamento de esgoto chegue a 90% da população cearense até 2033, avançando para 95% em 2040.
O Diário do Nordeste demandou a Cagece sobre possíveis impactos no Ceará e aguarda resposta. Se houver retorno, este texto será atualizado.
Cearense não deve sentir alteração na cobrança de esgoto
Célio observa que "o Ceará está protegido no curto prazo, mas precisa manter a vigilância estratégica sobre o cronograma de obras e exigir transparência da concessionária quanto ao plano de investimentos local".
Ele também lembra que o cearense não deve sentir alteração no atendimento nem na cobrança, já que ambos permanecem sob responsabilidade comercial da Cagece.
Para o Ceará, a recomendação do economista é:
- Manter a fiscalização contratual rigorosa pela Agência Reguladora do Estado do Ceará (Arce);
- Exigir transparência sobre o cronograma de investimentos;
- Preservar a previsibilidade regulatória.
Para o economista, o equilíbrio entre fiscalização firme e estabilidade institucional, somado ao desenho do modelo de PPP que mantém a Cagece como titular comercial e a Arce como reguladora, é o que garantirá que eventuais turbulências corporativas da controladora não prejudiquem o cidadão cearense.
"Esse arranjo é o que não deixará que essas turbulências se traduzam em prejuízo para a agenda de universalização do saneamento até 2033", conclui.
Lucro da companhia também foi revisado para baixo em 2025
Além da reapresentação dos dados de 2024, a Aegea corrigiu números do primeiro trimestre de 2025. Segundo matéria do Valor Econômico, o lucro originalmente publicado referente ao período no ano passado era de R$ 1,06 bilhão.
Já o novo valor do lucro líquido no primeiro trimestre de 2025, segundo relatório divulgado pela empresa nesta quarta-feira (6), é de R$ 698,6 milhões. O recuo em relação ao número anteriormente informado é de 34%.
Na comparação entre o lucro líquido do primeiro trimestre de 2025 e o do mesmo período de 2026, a queda é de 87,3%, saindo de R$ 698,6 milhões para R$ 88,6 milhões.
Confira a nota da Aegea:
"Os ajustes realizados possuem natureza exclusivamente contábil. A Companhia reforça que não houve impactos sobre caixa, liquidez ou cumprimento de covenants financeiros. A Aegea mantém fundamentos operacionais consistentes e sólidos, com crescimento de 21% na receita, 24% no EBITDA e 45% na geração de caixa no último ano, conforme divulgado em seus resultados de 2025.
Os ajustes contábeis não geram qualquer impacto operacional sobre as concessões da Companhia. A unidade no Ceará segue com suas operações em saneamento, conforme o planejamento contratual e regulatório."
Confira a resposta da Cagece:
Sobre a Parceria Público-Privada (PPP) de esgotamento sanitário firmada, a Cagece destaca que o contrato possui mecanismos de controle, fiscalização, cobrança de metas e acompanhamento de investimentos, sendo permanentemente monitorados pela companhia.
A Cagece ressalta ainda que, caso haja qualquer situação que comprometa a execução contratual, a companhia possui a prerrogativa de adotar medidas administrativas.