Negócios

Estado deve seguir a tendência nacional

A divulgação do Produto Interno Bruto do Brasil é vista com cautela pelos especialistas, que ainda preveem dificuldades

Escrito por Levi de Freitas - Repórter producaodiario@svm.com.br
02 de Junho de 2017 - 00:00 (Atualizado às 00:09)

A perspectiva para o Produto Interno Bruto (PIB) do Ceará no primeiro trimestre deste ano não é muito diferente do resultado obtido pelo Brasil e divulgado ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que apontou crescimento de 1% na comparação com o último trimestre de 2016. Na opinião de especialistas, teremos números positivos apresentados pelo Instituto de Pesquisa e Estratégia Econômica do Ceará (Ipece), em cerca de duas semanas.

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O coordenador de contas regionais do Ipece, Nicolino Trompieri, ressaltou que a perspectiva é positiva para o Estado. "No primeiro trimestre deste ano, comparado com igual período do ano passado, o Índice de Atividade Econômica Regional (IBCR) do Ceará apontou queda de 1,73%. Já no primeiro trimestre deste ano comparado com os números do quarto trimestre de 2016, houve crescimento no Ceará. Mais ou menos como o Brasil. A tendência é ir fugindo da crise", avaliou.

O economista Alex Araújo, por sua vez, indica que o crescimento do Ceará deverá ser ainda mais lento que o do País, dada a maneira como o mercado local costuma reagir às crises.

"No Ceará, a economia tem dependência muito grande do consumo interno. Estamos sendo muito impactados pelo ambiente econômico, pelo desemprego, que afeta muito forte a manutenção de endividamento das famílias. Se imagina que a questão do consumo aqui leve mais tempo para voltar a crescer. Nossa relação de consumo é direta com a taxa de emprego. E esse é um dos últimos indicadores que reagem", disse.

"É fundamental, tanto do governo federal quanto do estadual, retomar o investimento privado. Essas ações são fundamentais para que se volte a ter, pela via do investimento, uma retomada do crescimento", opinou Alex Araújo.

A divulgação do PIB do País é vista com cautela pelos especialistas. As análises apontam para um período de crescimento, contudo, num cenário que ainda inspira bastante cuidado.

Araújo, por exemplo, diz que os números demonstram que o País deixa, aos poucos, seus piores momentos para trás. Porém, não é suficiente ainda para haver comemoração.

"Esses dados, do ponto de vista econômico, são muito importantes pois quebram o ciclo de taxas negativas que tecnicamente indicam a recessão. O fato de o PIB ter crescido, mesmo sobre uma base baixa e de pouca expressão, mostra que conseguimos encontrar o fundo do poço. Encerra o ciclo de recessão formalmente e sugere que parou de cair, o que já é algo positivo para termos de preparação para a retomada econômica", afirmou.

Nicolino Trompieri, ressaltou que os números mostram que, apesar da percepção de que a economia está em processo de recuperação, ainda assim é preciso ter bastante cuidado.

Na opinião de Trompieri, há duas análises que devem ser feitas na situação, em relação à metodologia que indica o crescimento do PIB. Ele explica que, se compararmos os números do Brasil no primeiro trimestre de 2017 com o primeiro trimestre de 2016, houve queda de 0,4%. O crescimento de 1% é verificado apenas no primeiro trimestre em relação ao último trimestre do ano passado.

"É interessante observar o segundo trimestre para consolidar se esse é um crescimento sustentável. Na análise desse -0,4%, mesmo com a base baixa do ano passado, ainda não conseguimos algo positivo. Mas foi negativo próximo do zero. Realmente, a crise vai diminuindo o efeito, mas ainda é cedo para comemorar como se a crise já tivesse passado e daqui pra frente seria só crescimento", disse. Os especialistas destacam também a importância da crise política do País, especialmente após as acusações contra o presidente Michel Temer oriundas da denúncia do empresário Joesley Batista, da empresa JBS.

"No segundo trimestre, o resultado já vai incorporar esse novo capítulo da crise política recente. Então, vai tender a captar isso. Vamos ter de observar que estragos isso tem feito na economia, se está afetando muito a expectativa de empresários e consumidores, se essa retomada vai ser sustentável ou não. A gente fica ainda reticente. Vamos torcer para não ter tanto efeito quanto teve no impeachment de Dilma Rousseff", indicou Nicolino Trompieri.

Reformas

Alex Araújo, por sua vez, acredita que as reformas propostas pelo Planalto como alternativa para que o País retome o crescimento, como a Trabalhista e a da Previdência, têm sua importância diretamente ligada ao sucesso econômico do Brasil.

"A crise política afeta muito a economia, que poderia voltar normalmente a crescer com a retomada do consumo ou o aumento do investimento. Como os agentes econômicos - famílias e empresários - entendem que a situação atual das finanças é agenda de risco, as reformas são ideais para criar o ambiente favorável ao consumo e crescimento. A crise retarda o encaminhamento dessas medidas. Aí a gente entende o esforço do governo em manter a agenda de reformas, mesmo em ambiente conturbado. Isso é fundamental para que se estabeleça a saúde econômica do ambiente federal e dê condições para o investidor", apontou Alex Araújo.

O que eles pensam 

Setor produtivo diverge sobre o PIB

"Esse importante destaque do PIB brasileiro, indiscutivelmente, é a agricultura quem está ativamente participando. Todavia, isso é mais da agricultura do Centro Sul, Sudeste e Sul, onde temos a fronteira agrícola brasileira dos commodities, dos grãos. A contribuição do Nordeste ainda não tem significado nessa participação, sobretudo com cinco anos consecutivos de seca".

Flávio Saboya
Presidente da Federação de Agricultura e Pecuária do Ceará (Faec)

"O rumo da política econômica, adotado pelo governo, está dando certo a médio e longo prazo. Não existe solução milagrosa, de crescer imediatamente. Mas todas as medidas que o governo tomou estão surtindo efeito agora. O País voltou a crescer, embora lentamente. Acho que já estamos escapando da crise de confiança, a equipe econômica tem mantido seu rumo".

André Montenegro
Presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Ceará (Sinduscon-CE)

"Com o crescimento do primeiro trimestre, de 1%, as notícias são boas, mostram uma saída da recessão. O comércio, nesse caso específico, como o desemprego ainda não reagiu positivamente, é o último a dar resultado. Mas o Ceará está muito bem. Ah, se o Brasil estivesse como está o Ceará, bem gerido, com produção fiscal excelente. Temos um Estado com as contas em dia".

Severino Neto
Presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Fortaleza

"Diante da situação nacional, todo dia há uma surpresa. Está muito confuso para dizer se a economia vai andar à margem do que está acontecendo ou acompanhar junto. No Ceará, o primeiro quadrimestre, já somando abril, tenho a impressão que está um pouco melhor que no Brasil, mas é algo que ainda não dá para sentir confiança de que se vai melhorar".

Roberto Macêdo
Industrial, ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará ( Fiec)