Kremlin rejeita envolvimento do Estado russo no envenenamento de Navalny

Porta-voz disse que 'não há razão para acusar o Estado russo' e afirmou estar 'aberto ao diálogo' com a Alemanha, que fez as acusações

fotografia de Alexei Navalny
Legenda: Alexei Navalny, líder opositor russo, está internado em estado grave num hospital da Alemanha por envenenamento
Foto: AFP

O Kremlin disse, nesta quinta-feira (3), que não vê "qualquer razão" para acusar o Estado russo de envenenar o líder da oposição Alexei Navalny e pediu aos países ocidentais que evitem "julgamentos precipitados".

"Não há razão para acusar o Estado russo", disse o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, à imprensa, acrescentando que o governo russo está aberto ao "diálogo" com a Alemanha, onde Navalny se encontra em tratamento, assim como com todos os países europeus sobre o assunto.

Segundo o governo alemão, extensos exames realizados por um laboratório do Exército no opositor russo, hospitalizado em Berlim, forneceram "prova inequívoca" do uso contra este crítico do Kremlin de 44 anos de um agente químico nervoso do tipo Novichok.

Desenvolvido pelos soviéticos na década de 1970 como uma arma química, esse agente é capaz de penetrar nos poros da pele, ou no trato respiratório.

Esta mesma substância já havia sido usada contra o ex-agente duplo russo Serguei Skripal e sua filha Yulia em 2018, na Inglaterra, de acordo com as autoridades britânicas, que culparam o Estado russo.

O caso Skripal provocou pesadas sanções ocidentais contra a Rússia, que rejeitou qualquer envolvimento, assim como a expulsão em série de diplomatas russos em todo mundo.

Nesta quinta, Peskov insistiu no fato de que "nenhuma substância tóxica" foi detectada pelos médicos russos, quando Alexei Navalny foi internado em um hospital siberiano no final de agosto, após passar mal em um avião.

"Até agora não recebemos qualquer informação" da Alemanha sobre análises que levaram à conclusão de seu envenenamento, acrescentou Peskov.

"De modo geral, não acho que envenenar essa pessoa possa beneficiar alguém", afirmou.

"Gostaríamos que nossos parceiros na Alemanha e em outros países europeus não fizessem julgamentos precipitados", acrescentou ele.

O porta-voz do Kremlin também não viu "qualquer razão" para sanções contra a Rússia neste assunto.


Economia sofre impacto
Depois que a Alemanha confirmou o envenenamento de Navalny, a economia russa começou a sofrer o impacto, em meio a temores de novas sanções contra Moscou.

O rublo despencou na quarta-feira à noite até seu nível mais baixo desde o pico da pandemia de coronavírus. A Bolsa de Valores de Moscou também caiu, com o índice RTS, denominado em dólar, perdendo mais de 3% no fechamento de quarta.

"As relações da Rússia com o Ocidente foram novamente envenenadas pelo Novichok", escreveu o jornal russo Kommersant, considerando óbvio que a União Europeia e os Estados Unidos estudarão a introdução de novas sanções contra Moscou.

Esta situação também pode ter consequências graves para o projeto de gasoduto Nord Stream 2, que abasteceria a Europa - e, em particular, a Alemanha - com gás russo.

O projeto está suspenso há vários meses, devido a ameaças de sanções dos EUA. Até agora, a Alemanha, principal ator europeu nesse projeto, condenava a posição de Washington. 

Mas o Bild, o jornal mais lido da Alemanha, pediu na quinta-feira que o projeto fosse interrompido, dizendo que "se o governo (alemão) não interromper a construção do Nord Stream 2, em breve financiaremos (por meio deste projeto) ataques com Novichok de Putin".


Esclarecimentos "urgentes"
Blogueiro anticorrupção, conhecido por suas investigações contra as elites russas, Navalny foi hospitalizado na Sibéria no final de agosto, depois de passar mal no avião.

Ele foi então transportado para Berlim a pedido de sua família e continua "em estado grave", segundo o Hospital Charité de Berlim.

Ontem, o governo alemão condenou "este ataque nos termos mais duros" e pediu à Rússia esclarecimentos "urgentes" sobre o envenenamento.

"Questões muito sérias estão sendo feitas, às quais apenas o governo russo pode e deve responder", advertiu a chanceler alemã, Angela Merkel, cujo país detém a presidência do Conselho da União Europeia.

A Otan se reunirá em Bruxelas na sexta-feira para tratar do envenenamento, informou um diplomata nesta quinta-feira.

Enquanto isso, a Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ) expressou nesta quinta sua "grave preocupação" em relação ao tema.

Seu diretor, Fernando Arias, ressaltou que a instituição internacional com sede em Haia está disposta a ajudar qualquer Estado-membro que solicitar ajuda.

"Segundo a Convenção de Armas Químicas, qualquer envenenamento de uma pessoa com um agente nervoso é considerado uso de uma arma química. Tal alegação é assunto de grande preocupação", disse.

Ele considerou que "o uso de armas químicas por qualquer pessoa em qualquer circunstância é condenável e totalmente contrário às normas estabelecidas pela comunidade internacional".

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