Entrevista: Papellin explica mercado do Fortaleza, prioridades de contratação e Rogério Ceni

Diretor Executivo do clube concedeu entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste e falou também sobre evolução da estrutura do Leão e trabalho do departamento de futebol

Escrito por
Alexandre Mota alexandre.mota@svm.com.br
(Atualizado às 09:06)
Legenda: Sérgio Papellin, diretor executivo de futebol do Leão
Foto: JL Rosa

O trabalho no Fortaleza Esporte Clube é feito por muitos. Da ascensão na Série C do Brasileiro até a inédita participação na Copa Sul-Americana em 2020, o reflexo é de gestão, equilíbrio financeiro e resultados esportivos. E no projeto coletivo, um nome faz diferença no processo: Sérgio Papellin, diretor executivo de futebol.

Na vanguarda da função, o dirigente natural de Iguatu é mais trabalho que holofotes. Fez história em clubes como Paysandu, Remo, Luverdense e Cuiabá, mas a relação com o Leão tem peso especial. O retorno foi em 2017, e antes já acumulava no currículo tricolor cinco Estaduais (2004, 2005, 2007, 2009 e 2010) e um acesso para a Série A.

Em entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste, o mandatário traçou o plano de contratações da equipe e explicou a relação com Ceni. Pela experiência de time, também analisou a evolução estrutural e metodologia do Fortaleza nesta década.

DN: Qual a sua função no Fortaleza Esporte Clube?

"Sou diretor executivo, mas muita gente acha que só faço contratar e dispensar jogador, muitas vezes somos bode expiatório, se der errado foi minha responsabilidade. Mas na minha função mesmo, sou responsável pelos protocolos de futebol e até da assessoria. Crio protocolo de trabalho na semana, defino quem vai dar entrevista, ligo para o departamento médico para saber quem está se tratando, se precisa de algum equipamento, como na fisioterapia, parte dos massagista, nutrição, psicologia, tudo fica ligado comigo, no meu setor. E tem a parte de contratação também.

DN: O que é necessário para exercer esse cargo no futebol?

“Nós temos uma associação nacional com o Rodrigo Caetano, um dirigente do Cruzeiro e de outros times, e a gente participa desde o início da profissão com todos os executivos. É uma função que agora está sendo votada para regularização no Congresso, mas estou desde a vanguarda. Para exercer a função necessita de treinamento e de curso, como somos os mais antigos, temos alguns privilégios, mas mesmo assim tem muita exigência e contamos com apoio da CBF”.

DN: Com uma carreira vitoriosa no futebol e após os dois últimos anos, históricos para o Fortaleza, qual a motivação do Papellin para seguir a carreira? 

“Eu sempre digo que o desafio é a motivação da gente. Tenho muita aspiração, tenho que conquistar muito na carreira. Com o Fortaleza mesmo, temos que continuar nessa ascensão, manter muito tempo na Série A, o máximo que a gente conseguir segurar vai ser melhor porque um dia vai cair, mas se cair com estrutura financeira e física, pode conseguir voltar. A motivação tem que ser constante na pressão”.

DN: E como funciona o processo de contratação no Fortaleza?

“É tudo feito de forma democrática. Temos o CIFEC (Centro de Inteligência do Fortaleza), além do presidente Marcelo Paz e do Daniel de Paula Pessoa, um profissional extremamente inteligente no departamento de futebol. Nós monitoramos o mercado. Quando o Rogério necessita, a gente busca nomes e o CIFEC faz a triagem, escolhe os que têm a maneira de jogo adequada. O Ceni olha o material, avalia vários fundamentos dele como movimento sem bola, e olha se se encaixa. Depois disso, inicia negociação com o empresário e o clube”.

DN: O Fortaleza tem alguma prioridade no mercado para 2020?

“Estamos com o Michel machucado, então essa é a prioridade. Deve passar pelo processo cirúrgico e como é do Rio de Janeiro preferiu ficar lá. Fez checagem com um doutor do Flamengo, e estamos na incerteza, pode passar muito tempo fora e não podemos esperar. O Michel tem alto nível, jogou na Libertadores, tem de ser alguém com nível alto. Vamos precisar repor e contratar mais um volante devido ao calendário. Talvez contrate mais na frente outra posição, mas primeiro analisar a parte financeira. Se o Rogério exigir outro nome agora vamos buscar no mercado”.

DN: Os torcedores cogitam o retorno de jogadores que passaram pelo clube, como Marcinho, Edinho e Dodô. O clube procurou algum desses atletas e já definiu um nome para volante?

“De mercado, o Marcinho está no futebol chinês e realmente tentamos trazer, mas tem um salário alto para nossa realidade e o campeonato da China deve voltar nas próximas semanas, talvez ele precisa se reapresentar, então é complicado. Já o Edinho, o Atlético-MG quer vender e tem proposta para o exterior (Coreia do Sul). O Atlético quer fazer dinheiro e nós não podemos ter uma ação de irresponsabilidade, acertar e não saber se vai pagar. Se não for envolvido em nenhum negócio assim, o Fortaleza está de olho e vai seguir monitorando. O Dodô é uma função que não buscamos no mercado, de camisa 10, estamos em busca de volante. Teve a oportunidade do Raul, tem contrato com o Vasco até o fim do ano, alguns clubes buscaram, é um bom profissional. Mesmo com salário atrasado, quer seguir no Vasco e a gente respeita a decisão do jogador de cumprir o contrato”.

DN: Além da procura direta pelo jogador, o Fortaleza recebe muitas indicações de reforços?

“A maioria é empresário, vive de comissão de transferência, mas nós valorizamos o pouco dinheiro do clube, não tenho que fazer loucura. Se preciso de volante e me oferecem camisa 10, infelizmente não vou nem mostrar ao Rogério. Nós valorizamos muito o que temos também, para não passar batido, mas sempre tem ajuda do CIFEC e do Daniel de Paula Pessoa. Todo dia tem um jogador oferecido, uns 10 por dia. Muitos jogadores insatisfeitos, sem receber salário, aí o empresário quer deixar ele aqui porque sabe que pagamos em dia, tem bom treinador, temos esse certificado”.

DN: Qual foi o maior impacto da pandemia no clube? Afetou as metas traçadas pela diretoria? 

“O que ficou mais prejudicado na pandemia foi o orçamento, a queda é grande do que foi  planejado para o início do ano. Mas temos uma grande vantagem na pandemia que é a manutenção do elenco desde 2018, desde a Série B. Como é uma intertemporada, os jogadores sabem sobre o trabalho do Rogério, a maneira que ele joga, e já existe o entrosamento. As nossas metas eram buscar o título cearense, obrigação nossa e do Ceará, e a Copa do Nordeste, com o bicampeonato. No Brasileiro, tivemos uma campanha fantástica e o torcedor que só age com o coração passa a exigir coisa maior, mas o Fortaleza não tem condição de brigar por Libertadores, é um feito excepcional. Nossa briga é para se manter na Série A e, pela atmosfera, seria um feito grande disputar novamente uma Sul-Americana, mas muito pé no chão, sem loucura. Se eu imaginasse a pandemia, não tinha contratado ninguém até passar a pandemia, era fazer um time barato, mas ninguém imaginou, aí assume os compromissos e, como tem uma relação grande de confiança, temos de deixar sempre nesse nível para honrar o compromisso”.

DN: Acredita que o mercado de contratações no futebol mudou durante a pandemia?

“Acho que o mercado vai mudar sim, trazer jogador de fora será complicado, dólar cinco vezes mais caro é uma coisa muito inviável. Principalmente porque o jogador de fora exige um contrato em dólar, na Argentina é isso. A moeda é o peso e o contrato é dólar. Conversando com o dirigente do Independiente, ele fez contratação de 15 pesos para um dólar, não podemos isso. O dinheiro vai ficar mais difícil, temos de olhar os jogadores mais novos, do próprio mercado nacional”.

DN: Você passou pelo clube no início dos anos 2000. Conquistou um acesso à Série A, títulos do Estadual e depois demorou para retornar, apenas em 2017, quando ajudou na saída da 3ª divisão. O que mudou daquele Fortaleza para o atual?

"O Fortaleza era igual uma escolha de samba, cheia de alas, a vaidade interna era grande. Depois que saí, recebi convite e nunca aceitei por isso, era insustentável trabalhar, uns querendo derrubar os outros. Então o Girão assumiu e mudou o clube, trouxe todo mundo para perto e o Paz tem seguido isso, é um dirigente agregador, humilde, o grande diferencial hoje é o Marcelo porque conhece muito o futebol, a gente se deu bem demais, foi importante. Eu sempre listo três pessoas fundamentais para termos alcançado o patamar atual: o Girão, com um aporte financeiro que permitiu que a gente subir à Série B, o Marcelo, com o jeito agregador; e o Rogério. Outro ponto é a estrutura. O próprio Hélio dos Anjos me disse que o Fortaleza ia cair da Série A por falta de estrutura. Agora temos algo fantástico e ainda teremos o Centro de Excelência”.

DN: Qual o peso do Rogério Ceni nessa caminhada de 2018 para 2020?

“O Rogério passou a vida todo no São Paulo, um dos maiores clubes do Brasil. Ele precisava sair e tem sido um aprendizado, mas na chegada dele se surpreendeu porque tinha de ser feita muita coisa. Chegou em dezembro de 2017 e precisamos de um encontro na Marinha porque no Alcides Santos não tinha condição de treinar com a forte chuva e o CT Ribamar Bezerra era muito longe, ninguém queria. Aí nessa indefinição, eu peguei o Rogério, coloquei no meu carro, e fomos conhecer. Ele no mesmo instante separou dois campos e disse que seria lá. Então foi aquele mutirão para começar a pré-temporada. Ele é muito importante nessa ajuda, de sugestão na estrutura, de querer o melhor para o clube e hoje tem uma identidade muito grande, apesar do jeito exigente”.

DN: O Ceni disse que fica até o fim do Brasileirão. Acredito na manutenção do treinador?

“O Rogério está entre os cinco melhores treinadores do Brasil e pode chegar na Seleção por merecimento. Hoje, já está em um patamar que poucos podem chegar e isso é mérito para o clube, de manter um profissional assim, que almeja conquistas grandes. A gente cria um carinho muito grande, só podemos agradecer e espero que continue por muito tempo. São três anos de clube, mas esperamos mais 10 anos. Para sair daqui, vai ser difícil. O Ceni gosta da montagem do elenco, do olhar para o financeiro, e o Fortaleza permite tudo isso, é diferente. Acho que o único que pode tirar ele é o São Paulo por causa da identidade, do torcedor, mesmo eu não percebendo esse apetite dele para voltar lá agora. Se a gente conseguir resultados expressivos na Série A, o Fortaleza tem tudo para conseguir renovar com o Ceni”.

DN: Para finalizar, o Papellin já viveu algum episódio inusitado durante o trabalho no Fortaleza?

"Tenho uma história boa com o Givanildo Oliveira em 2004. Nós fomos viajar para Boa Viagem saindo de Fortaleza. Quando chegou na metade do caminho, o ônibus deu ‘prego’, então fomos atrás de um mecânico. Aí vi um bar ali perto e fui jogar sinuca com o Mazinho Lima enquanto o mecânico estava no ônibus. Quando vejo, lá estava o Givanildo, com aquele jeito ranzinza dele, gritando: ‘cadê Papellin, vai dar tempo de chegar ao menos para jantar?’. Aí ele me viu jogando e ficou falando, e eu respondi: ‘Givanildo, eu não sou mecânico não, a gente espera tanto faz ser aqui ou lá’. Os jogadores começaram a rir e a gente continuou lá na sombra".

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