Debater racismo e misoginia no futebol sem punição nunca mudará contexto
Não se trata de deslegitimar o debate. Discutir é necessário. O problema é que ele só ganha força diante de casos extremos
Fala-se com frequência sobre a modernização do futebol. Em 2026, o Brasil passa a contar com a tecnologia de impedimento semiautomático. A arbitragem avança na profissionalização. A indústria cresce, se internacionaliza e movimenta cifras milionárias. Mas há um campo em que o progresso insiste em não acontecer: o dos discursos e, principalmente, o das punições.
É exaustivo repetir o óbvio sobre preconceito. A cada novo caso de racismo ou misoginia, surgem notas de repúdio, campanhas institucionais e posicionamentos indignados. Por alguns dias, o debate ocupa manchetes e redes sociais. Depois, o assunto esfria. Até o próximo episódio.
Não se trata de deslegitimar o debate. Discutir é necessário. O problema é que ele só ganha força diante de casos extremos, como se a violência cotidiana não fosse suficiente para mobilizar indignação. É nesse momento em que pessoas pretas e mulheres parecem ter autorização para falar — quando a brutalidade se torna incontestável. No dia a dia, porém, os ataques seguem acontecendo, muitas vezes sem denúncia, porque a vítima sabe que dificilmente haverá consequência e que sua palavra será questionada se não houver provas gravadas.
Os últimos dias foram especialmente duros para mulheres que trabalham no futebol. O goleiro Bruno, condenado pelo assassinato de Eliza Samúdio, voltou aos gramados com status de “ídolo” no Vasco-AC. A ressocialização é um princípio legal. Mas transformar um condenado por feminicídio em figura de admiração pública exige uma reflexão sobre que referências a sociedade escolhe exaltar.
No mesmo contexto, o clube entrou em campo homenageando quatro atletas investigados por estupro coletivo dentro do alojamento da equipe. Todos foram presos em flagrante, tiveram a prisão preventiva decretada e seguem privados de liberdade. Ainda assim, foram publicamente lembrados. Para as vítimas e suas famílias, cada gesto desse tipo representa uma nova violência: a mensagem de que a dor delas pode ser relativizada.
A misoginia também se manifesta de forma mais sutil, mas igualmente estrutural. O jogador Gustavo Marques, do Bragantino, ao criticar a arbitragem de Daiane Muniz, afirmou: “Colocam uma mulher para apitar”. A frase carrega a ideia de que o erro — segundo sua visão — estaria ligado ao gênero da árbitra. O pedido posterior de desculpas não apaga o impacto da declaração. O problema não é apenas a fala isolada, mas a mentalidade que a sustenta: a de que a competência feminina é sempre colocada sob suspeita.
No campo do racismo, os episódios se acumulam. Vini Jr. já foi alvo de mais de 20 ataques na Europa. O mais recente envolveu o jogador Prestianni, do Benfica, que chegou a cobrir a boca ao insultá-lo, numa tentativa deliberada de evitar flagrantes. A UEFA anunciou suspensão, mas a punição parece pequena diante da gravidade do ato.
No Brasil, declarações também ajudam a minimizar o problema. O técnico Filipe Luís classificou o caso como isolado — ainda que depois tenha revisto a fala e reafirmado repúdio ao racismo. O reconhecimento do erro é importante, mas não elimina o efeito inicial. Minimizar o racismo, especialmente a partir de um lugar de privilégio racial, contribui para enfraquecer a dimensão estrutural do problema.
No mesmo fim de semana, um atleta do Corinthians deixou o campo sob ataques racistas direcionados às suas características físicas. Mais um episódio que reforça o padrão: indignação momentânea, repercussão intensa, punições brandas.
Quando esses casos vêm à tona, pessoas pretas ganham espaço para falar. Mas há um desconforto nisso. A voz só ecoa quando a violência se torna impossível de ignorar. O racismo estrutural e o machismo cotidiano, aqueles que não viralizam, seguem operando sem manchetes.
A pensadora Angela Davis afirma que não basta não ser racista; é preciso ser antirracista. Isso implica ação concreta, posicionamento contínuo e, sobretudo, consequências reais para quem comete o crime.
O futebol gosta de se apresentar como reflexo da sociedade. Se for assim, também reproduz suas hierarquias e desigualdades. Campanhas, faixas e camisetas têm valor simbólico, mas são insuficientes quando não acompanhadas de punições rigorosas e coerentes.
Sem consequência efetiva, o debate vira ritual. E ritual não transforma estrutura.
Enquanto a punição não for proporcional à violência, continuaremos debatendo — e andando em círculos.