Após casos de Covid-19 nos clubes, CBF muda protocolo sanitário; clubes cearenses elogiam atitude

Entidade atualiza matriz nacional de ações e permite testes em unidades locais. Infectologista vê brechas no documento original. Já são dois jogos adiados

Legenda: Jogadores do Goiás passaram por testes de Covid-19
Foto: Rosiron Rodrigues/Goiás

A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) atualizou o protocolo de segurança referente à Covid-19 após o início das Séries A, B e C do Campeonato Brasileiro. O principal impasse foi a demora na divulgação de resultado dos testes: os clubes viajaram, ficaram em concentração e receberam os diagnósticos às vésperas de entrar em campo, como em Goiás x São Paulo, Treze x Imperatriz ou CSA x Guarani.

No primeiro evento, nove tiveram laudo positivo na data do evento. O São Paulo chegou a ir a campo, mas o jogo foi adiado. Situação semelhante a de Treze x Imperatriz. O time maranhense teve 12 de seus 19 jogadores positivados. A partida também foi adiada. Por outro lado, o CSA, assim como o Goiás, perdeu nove atletas durante a semana, mas foi para o jogo com os remanescentes. Cenários similares e ações diferentes.

Para o infectologista Roberto da Justa, integrante do Coletivo Rebento e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), nenhuma das partidas deveria ocorrer porque se enquadram em "alto risco de contaminação".

"Os movimentos preocupam porque, nesses casos, não colocaram em isolamento os demais jogadores que testaram negativo. Se tem um elenco com 30, e 12 são positivos, eles devem ser encaminhados para avaliação. Mas e os outros 18? Todos devem estar em quarentena de, pelo menos 14 dias, porque há espaço entre a coleta e o resultado. Podem sim já ter contraído", explica.

O especialista aponta que as experiências negativas de aplicação do protocolo evidenciam o cenário esportivo do Brasil como espaço de circulação da Covid-19. "Do ponto de vista técnico, o documento da CBF é consistente, mas tem várias brechas. Se fala da Série A, times de investimento, mas e a Série D? Hoje, alguns estados no Sul, Sudeste e Centro-Oeste estão em franca evolução da doença".

Para auxiliar nos exames dos participantes do Brasileirão, a CBF escolheu o Hospital Albert Einstein, em São Paulo, como sede dos laudos médicos dos atletas. Assim, os times organizam a coleta das amostras, encaminham à unidade com 72h de antecedência do jogo e aguardam um retorno.

O Diário do Nordeste apurou que a delegação do Ceará, por exemplo, viajou à Recife para enfrentar o Sport, no último sábado, e recebeu o laudo dos testados apenas no turno da tarde. Como eram disponibilizados apenas para 23 atletas, um surto de Covid-19 impediria o time de atuar.

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Novo protocolo

Com os incidentes expostos nas rodadas de abertura do Campeonato Brasileiro, a CBF flexibilizou a aplicação dos exames de Covid-19 e retirou a obrigatoriedade do Hospital Albert Einstein. Assim, cada clube pode buscar testes em unidades de saúde de referência nas respectivas regiões.

"Não há risco zero. Trabalhamos muito, exaustivamente, em debates com mais de 140 médicos, para montar uma estrutura próxima daquilo que consideramos o ideal. Diante de tudo, o mais importante é que nenhuma vida de atleta foi colocada em risco. Onde tivemos problemas com datas e laboratórios terceirizados daquele hospital que é nosso parceiro, claro, suspendemos os jogos", afirma o secretário-geral da CBF, Walter Feldman.

A medida foi comemorada por dirigentes do futebol cearense - os times do Estado são os que devem se deslocar por maiores distâncias ao longo das competições. Para Marcelo Paz, mandatário do Fortaleza, o risco de contaminação diminui com os exames sem análise em São Paulo.

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"A CBF acertou ao permitir que os clubes façam (exames) no laboratório local. Serão mais rápidos, não tem necessidade de concentrar sem saber dos testes. Isso não pode ocorrer, o time em campo e o jogo suspenso. A CBF teve um gesto de humildade ao reconhecer o protocolo e mudar".

Legenda: Jogadores do São Paulo chegaram a ir a campo, mas não houve partida com o Goiás
Foto: Carlos Costa/Futura Press/Estadão Conteúdo

Robinson de Castro, presidente do Ceará, indica que o time trouxe a pauta à CBF no início e acha que o caminho escolhido é positivo. "Os exames devem ser feitos nos laboratórios em que o clube confie, fique na região. Porque a coleta é feita e demora muito. A CBF já se pronunciou sobre, vai autorizar no local das sedes. O processo estava errado, você viajava, ficava confinado e não tinha o menor sentido. Nos estudos médicos, isso foi motivo de debate", afirma.

O Ferroviário também aprova a liberação de exames na Capital. Com um laboratório particular como patrocinador, o presidente Newton Filho afirma que a agilidade no processo evita que as equipes sejam prejudicadas com a perda de atletas relacionados.

"O ideal é que o clube viaje (para fora do Estado) com os resultados dos exames. Muitos viajaram e depois receberam. Por essa dificuldade de protocolo, perdemos um jogador (contra o Botafogo/PB) que testou positivo há dois meses. Foi aquele falso positivo, então tivemos um problema", declara.

Todos testados

O regimento epidemiológico matriz disponibilizado aos times de futebol também recebeu atualização quanto ao período de quarentena de um atleta com o vírus SARS-CoV-2. No novo protocolo, o isolamento deve ser de 10 dias - caso siga assintomático em todo o intervalo de tempo.

A CBF também concederá testagem aplicada para todos os jogadores dos elencos dos clubes inscritos, esteja relacionado ou não. Os exames permanecem sendo obrigados a ocorrer com 72h de antecedência a cada partida. Por nota, a entidade reforçou que "a medida é válida para as partidas a serem realizadas a partir da próxima sexta-feira, 14, visto que, para os jogos previstos até esta data os procedimentos já estão em curso".

Por fim, um cronograma de envio foi estabelecido: "os resultados deverão ser enviados à CBF até 24h antes da partida pelo clube mandante e até 12h antes da viagem pelo clube visitante, o que permitirá que qualquer equipe proceda a troca de eventuais jogadores com teste positivo".

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