Quadrilha cearense usava nomes de desembargadores em golpe

Operação das polícias Civis do Ceará e do Piauí jogou luz a um crime cometido em diversos estados por estelionatários cearenses. Nomes de magistrados e auditores eram usados para conseguir dinheiro de beneficiários de precatórios

Legenda: Policiais civis do Piauí e do Ceará participaram da operação na manhã de ontem

Os nomes de desembargadores de tribunais de Justiça e auditores fiscais da Receita Federal eram utilizados por uma organização criminosa, com origem cearense, para aplicar golpes financeiros em beneficiários de precatórios - dívidas do Governo cuja obrigatoriedade de pagamento foi definida pelo Poder Judiciário.

Na manhã de ontem, cerca de 60 policiais civis do Ceará e do Piauí - onde os casos de estelionato foram identificados - deflagraram a "Operação Precatório", que prendeu 11 pessoas em quatro cidades cearenses (Fortaleza, Maracanaú, Pacatuba e Guaiuba), além de duas no Distrito Federal. Também foram cumpridos 12 mandados de busca e apreensão em imóveis vinculados à quadrilha.

De acordo com as investigação interestadual, o bando identificava a lista de pessoas que, judicialmente, deveriam receber precatórios dos governos a partir de informações dos tribunais de Justiça. Em seguida, buscavam mais informações de cada uma dessas possíveis vítimas, telefonavam para elas e diziam que elas teriam de pagar uma "taxa de cartório" ou "impostos" para receber o precatório.

De acordo com a Polícia Civil do Piauí, há casos nos quais vítimas pagaram R$ 2,5 mil e até R$ 120 mil para a quadrilha pensando que estariam utilizando o dinheiro para destravar o valor financeiro que lhe era de direito.

"Para dar credibilidade ao golpe, eles buscavam em notícias o nome de autoridades daquele estado, como o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador, auditor dos precatórios, e ligava se passando por essas autoridades. Então, um cidadão piauiense via o nome, lembrava e pensava que seria a pessoa certa", explica o titular da Delegacia de Repressão a Crimes de Informática (DRCI) da Polícia Civil do Estado do Piauí, delegado Anchieta Nery.

Atuação no País

Os investigadores descobriram que a fraude foi aplicada em, pelo menos, três estados (Piauí, Santa Catarina e Espírito Santo), mas há indícios de atividades ilícitas nos estados da Paraíba, Alagoas, Sergipe, Mato Grosso do Sul e Rio Grande do Sul. Segundo Anchieta Nery, a quadrilha baseada no Ceará aplicava os golpes a partir daqui. Foram presos na Operação o núcleo financeiro e algumas lideranças.

De acordo com o gerente de Polícia Especializada da Polícia Civil do Piauí, Matheus Zanatta, foram contabilizadas, pelo menos, 300 vítimas, com um prejuízo total de, aproximadamente, R$ 2 milhões. "Posso falar que é um golpe sofisticado e com alto poder de persuasão. Normalmente as vítimas que caíram no golpe eram pessoas com uma certa fragilidade e idosas", ressalta.

Conforme Zanatta, a operação foi adiantada em razão do alto número de golpes aplicados no País. "Eu tenho certeza absoluta que essa organização criminosa ia esgotar a lista de precatórios de todos os estados da Federação, sem dúvida nenhuma", acredita o delegado piauiense.

Segundo ele, há sete mil pessoas na lista para recebimento de precatórios em Santa Catarina e seis mil no Piauí. A apuração averiguou que a organização criminosa ligou para todas essas pessoas, conseguindo atingir, pelo menos, 300.

Integração

O delegado-geral da Polícia Civil do Ceará, Marcus Rattacaso, ressaltou que a Instituição foi procurada pela Polícia Civil do Piauí "a participar de uma grande operação pra cumprir algumas determinações judiciais expedidas por aquele Estado". Rattacaso ressaltou ainda a integração entre as polícias judiciárias do Brasil, em especial as que formam os estados do Nordeste.

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