Trégua entre Lula e Ciro agita cenários da sucessão em Fortaleza

Notícia de que os líderes nacionais do PT e do PDT voltaram a dialogar em setembro, após o rompimento durante o ano eleitoral de 2018, reanima esperanças de um entendimento entre os dois partidos sobre o cenário eleitoral de novembro e de 2022. Ala de Luizianne Lins desmente trégua

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Legenda: Em 2017, Ciro, Lula e Camilo se encontraram no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, onde estava internada a ex-primeira-dama Marisa Letícia
Foto: Ricardo Stuckert

Mantido em segredo por quase dois meses, o encontro entre o ex-presidente Lula (PT) e o ex-ministro Ciro Gomes (PDT) esquentou o cenário político local e nacional e trouxe especulações sobre alianças entre os dois partidos no segundo turno das disputas municipais e em 2022. 

Em meio à campanha eleitoral, o diálogo entre os dois não foi, no entanto, bem recebido em Fortaleza, e a possibilidade de união entre as legendas foi tratada com ceticismo. Pedetistas próximos a Ciro e ao governador Camilo Santana (PT) confirmam o encontro.

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Aliados na gestão de Lula (2002-2010), os dois tiveram momentos de desgastes, chegando ao rompimento nas eleições de 2018, quando a aliança ente o PT e PDT não se consolidou para enfrentar o então candidato Jair Bolsonaro (sem partido). À época, no segundo turno, o irmão de Ciro, Cid Gomes (PDT), se manifestou sobre o ex-presidente com uma frase que virou bordão entre adversários petistas: “O Lula tá preso, babaca”.

A afirmação de Cid ocorreu durante um evento do PT, em um hotel em Fortaleza, de apoio à reeleição do governador Camilo Santana (PT) no Ceará. No segundo turno da disputa presidencial, Ciro não anunciou apoio ao candidato Fernando Haddad (PT) e viajou para a Europa. 

O governador Camilo é apontado como o responsável por articular o encontro entre Ciro e o ex-presidente, que ocorreu no dia 1º de setembro, no Instituto Lula, em São Paulo. Apesar de aliados próximos do governador afirmarem que o diálogo buscou tratar apenas sobre o governo Bolsonaro e a situação do País com a pandemia da Covid-19, desde o encontro os ataques incisivos entre Ciro e Lula deram trégua. 

Mesmo com o diálogo entre as duas lideranças, o governador não conseguiu intermediar uma aliança entre os partidos em Fortaleza. O PT lançou a deputada federal Luizianne Lins para a disputa, enquanto PDT anunciou o deputado estadual Sarto Nogueira à sucessão do prefeito Roberto Cláudio (PDT).

Declarações

Sem citar diretamente o PT ou Lula, Ciro afirmou, ontem, por meio de rede social, que busca dialogar com quem for possível para tentar construir um projeto de desenvolvimento para o País. 

“Sinto-me obrigado a construir, no que estiver ao meu alcance, o diálogo possível com quem for necessário para proteger a nação brasileira. Isso não muda em nada minha compreensão ao redor do atual momento. Para além dos gravíssimos problemas estruturais, estamos na eminência de eleições municipais”, ressaltou.

Ele destacou, ainda, que está trabalhando para que o voto do povo nessa eleição ajude a eleger bons prefeitos e auxilie na construção de um caminho alternativo que leve a um pacto para o desenvolvimento nacional.

“Trabalho para que o voto do nosso povo tenha duplo objetivo: escolher bons prefeitos e vereadores, essenciais para mitigar a extensão da crise; e que ofereça ao Brasil as bases de um novo projeto nacional de desenvolvimento”, destacou. 

Questionado sobre o assunto ontem, durante evento de inauguração de um ginásio no bairro Benfica, em Fortaleza, Ciro Gomes evitou dar pormenores do que foi conversado com Lula sob a justificativa de que estava afônico. Sua assessoria limitou-se apenas a confirmar o encontro, também sem relatar detalhes.

Divergências

Já o prefeito Roberto Cláudio preferiu manter um tom de distanciamento sobre o assunto, afirmando que não iria comentar algo do qual não tem conhecimento. 
Sobre o ataque de Luizianne Lins durante uma “live”, ontem, à gestão do pedetista, de que seria a pior da história de Fortaleza, o gestor municipal disse que “não faz política rebatendo ataques”. 

"Sempre que eu ouço críticas e ataques, mesmo que seja injusto, tento transformar essa energia em mais trabalho pelo povo”, afirmou.

A crítica da petista à gestão Roberto Cláudio veio após uma propaganda eleitoral da coligação de Sarto afirmar que ela foi “a pior prefeita do Brasil”. A campanha foi tirada do ar pela Justiça.

Diferente do cenário moderado entre Ciro e Lula, com uma pausa em confrontos diretos, Sarto e Luizianne protagonizam troca de farpas na campanha na Capital.

A petista disse que a reunião entre Ciro e Lula é “fake news”. “Não teve (encontro). Eles adoram falsear a realidade. O Lula encontrou com o Ciro há muito tempo”, afirmou, descartando qualquer possibilidade de aliança – seja no âmbito local ou nacional.

Presidente do PT em Fortaleza, o vereador Guilherme Sampaio também seguiu a mesma linha de resposta de Luizianne, negando o encontro e entrando em choque com correligionários. “Não houve encontro recente do Lula com o Ciro. Acho extemporânea, sobretudo em um momento em que a candidatura(pedetista) tem feito ataques a Luizianne”, disse.

Já o deputado federal petista José Airton Cirilo contraria a versão de Luizianne e Guilherme sobre o encontro entre as lideranças nacionais do PT e PDT. Ele afirma que alguns correligionários sabiam do encontro, mas mantiveram em segredo.

“Esse encontro foi mediado pelo governador Camilo. Acho que é positivo o diálogo, a construção da unidade político em prol dos interesses do País. Mesmo com as divergências, esse pacto de convivência ajuda na construção de uma agenda política que tenha interesse da população. (O pacto) é nacional, mas pode ter desdobramentos locais”, afirmou Cirilo.

Presidente do PDT no Ceará, o deputado federal André Figueiredo também confirmou que o encontro ocorreu e disse que o diálogo é positivo. No entanto, ele ressaltou que acha “difícil” uma aliança PT-PDT na disputa de 2022, já que os dois partidos querem ter a cabeça de chapa na disputa. Sobre o segundo turno em Fortaleza, ele deixou a possibilidade em aberto. “Foi um encontro coordenado pelo governador Camilo. No âmbito do PDT, não temos nada a nos opor, apenas somos descrentes da possibilidade de uma composição em que o PT aceite não ser cabeça de chapa. Mas dialogar sempre é importante”, finalizou Figueiredo.

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