Indígenas romeiros: por que o Cariri é um caldeirão de cultura e fé

As manifestações tradicionais na Região vão além de religiões, unem diferentes povos e crenças

Escrito por
Paulo Henrique Rodrigues producaodiario@svm.com.br
(Atualizado às 08:42, em 22 de Dezembro de 2021)
Legenda: Indígenas da comunidade Xukuru de Ororubá visitou Juazeiro do Norte e, tocando chocalhos e mambi (a flauta indígena), entraram no largo dos romeiros, o espaço em frente à Basílica de Nossa Senhora das Dores
Foto: Divulgação

O Cariri, no Ceará, sempre nos surpreende. Em poucas regiões do Brasil você vai ter a oportunidade de mergulhar num caldeirão cultural como neste território que tem a Chapada do Araripe no horizonte. São muitas as manifestações. Algumas mantêm aspectos originais. Do ponto de vista da religião, engana-se quem pensa que o Cariri está restrito ao catolicismo.

O Seminário da Igreja Batista tem mais de 60 anos. Há dezenas de terreiros de Umbanda e Candomblé na terra do Padim. O Vale do Amanhecer no Crato é um dos mais visitados do Brasil. Há a União do Vegetal, a Morada da Jurema, são muitas as fés com raízes nesta terra.

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Claro que a devoção ao Padre Cícero é a manifestação mais conhecida, de maior visibilidade. A imprensa mostra as romarias de Juazeiro do Norte desde o final do século XIX. Mas mesmo esse aspecto do Cariri é capaz de surpreender.

Na última semana, 140 indígenas da comunidade Xukuru de Ororubá visitaram Juazeiro do Norte. Tocando chocalhos e membi (a flauta indígena), eles entraram no largo dos romeiros, o espaço em frente à Basílica de Nossa Senhora das Dores cercado por arcos que imitam a praça São Pedro, no Vaticano. O eurocentrismo do lugar foi ocupado pela mais brasileira das culturas, a dos povos originários.

A comunidade Xukuru ocupa uma terra indígena (TI) no município de Pesqueira, no agreste de Pernambuco. E foi justamente a demarcação dessa terra que os trouxe a Juazeiro do Norte. Os indígenas pagaram uma promessa pela graça alcançada: a demarcação da terra indígena.

A luta pela TI Xukuru foi sangrenta. Houve assassinatos de indígenas. O caso demorou e foi parar na Corte Interamericana de Direitos Humanos. O Estado brasileiro foi condenado a indenizar os povos pela violação de direitos. Os guerreiros da comunidade Xukuru venceram a guerra contra o homem branco e atribuem essa vitória ao Padre Cícero.

 

Povo Pankararu também é romeiro

Para os integrantes da etnia Xukuru, o Padim é uma entidade cultuada nos rituais na serra de Ororubá. E não são os únicos. Os integrandes da comunidade Pankararu também são devotos do Padre Cícero.

Na romaria de Finados, mais uma vez, eles subiram a colina do Horto, visitaram a estátua do Padre Cícero e fizeram um ritual no entorno dela vestidos com a indumentária que cobre cabeça e corpo, toda feita de fibra de caroá (uma planta da Caatinga).

Os indígenas romeiros são mais do que uma prova de que a fé no Padre Cícero vai além da fronteira do catolicismo. São a comprovação da capacidade que o Cariri tem de te surpreender culturalmente.

 
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