Disputas entre monarquias do Golfo agravam violência no Iêmen

Nesta quinta (29), um ataque aéreo atribuído aos Emirados Árabes matou pelo menos 30 soldados do regime iemenita, de acordo com as forças de Hadi; as autoridades de Abu Dhabi não se pronunciaram sobre o incidente

Novas disputas de poder entre a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, até então aliados estratégicos no Oriente Médio, arriscam abrir novas frentes de batalha na guerra civil no Iêmen, país que vive uma das piores crises humanitárias da atualidade.

As duas monarquias do Golfo Pérsico vinham atuando em conjunto na intervenção militar no Iêmen desde março de 2015. Nas últimas semanas, porém, forças iemenitas apoiadas por Riad e Abu Dabhi passaram a lutar pelo controle da cidade de Áden, deixando dezenas de mortos e feridos.

Os confrontos em Áden opõem as tropas do presidente Abdo Rabbo Mansur Hadi, apoiado pela Arábia Saudita, e as forças Conselho Transitório do Sul (CTS), grupo separatista financiado pelos Emirados Árabes.

As facções vinham lutando lado a lado contra os rebeldes xiitas huthis, que controlam porções do norte do país, mas passaram a guerrear entre si após a morte de Munir "Abu al-Yamama" al-Yafei, comandante do CTS, em um bombardeio em 1º de agosto.

Após semanas de violência, as forças de Hadi anunciaram ter assumido o controle de Áden na quarta-feira (28). O CTS prometeu "vingança".

Nesta quinta (29), um ataque aéreo atribuído aos Emirados Árabes matou pelo menos 30 soldados do regime iemenita, de acordo com as forças de Hadi; as autoridades de Abu Dhabi não se pronunciaram sobre o incidente.

"Nós consideramos os Emirados Árabes inteiramente responsáveis por estes assassinatos extrajudiciais explícitos", disse em uma rede social o vice-chanceler do governo de Hadi, Mohammad al-Hadrami.

Áden é uma importante cidade portuária no sul do Iêmen, que se tornou capital provisória após o presidente Hadi ser expulso da capital, Sanaa, em meio a uma ofensiva militar dos rebeldes huthis em setembro de 2014.

O avanço dos huthis levou a Arábia Saudita a iniciar uma intervenção militar no Iêmen em março de 2016 junto a outros países da região, inclusive os Emirados Árabes. A Arábia Saudita acusa os huthis de representar os interesses do Irã, seu arqui-inimigo na disputa por hegemonia no Oriente Médio.

Separatismo
Áden é um bastião do movimento separatista encabeçado pelo CTS. A cidade era capital do Iêmen do Sul, país independente governado por um regime socialista que deixou de existir após a reunificação com o Iêmen do Norte em 1990.

As tensões separatistas não foram resolvidas com a reunificação, mas vinham sido abafadas em meio à guerra civil. A escalada da violência em Áden mostra que o problema segue latente, arriscando criar "uma guerra civil dentro da guerra civil no Iêmen", nas palavras do think-thank americano International Crisis Group.

Ao apoiar forças separatistas no sul do Iêmen, os Emirados Árabes demonstram buscar uma política externa com um maior grau de independência em relação à Arábia Saudita. A escalada dos enfrentamentos em Áden deu origem a especulações sobre uma eventual expulsão dos Emirados Árabes da coalizão internacional que atua no Iêmen.
Enquanto as potências da região se engalfinham pelo controle do Iêmen, a população segue sofrendo. Dezenas de milhares de pessoas morreram desde o início da guerra civil e, de acordo com a ONU (Organização das Nações Unidas), mais de 24 milhões de pessoas — cerca de 80% da população do Iêmen — dependem de ajuda humanitária para sobreviver; dentre estas, quase 10 milhões estão à beira da fome.

"À comunidade humanitária internacional: é hora de fazer mais e dizer mais", disse em nota a ONG Médicos Sem Fronteiras, que oferece atendimento humanitário no Iêmen. "A história vai julgar todos nós, e os iemenitas já o estão fazendo".

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