'Vamos competir com o turismo do resto do mundo'
Responsável pelo projeto arquitetônico do Acquario Ceará, o proprietário da Imagic!, Leonardo Fontenele, fala sobre o impacto do equipamento
O polêmico Acquario Ceará vem à tona novamente. O equipamento voltou a ser citado pelo governador Camilo Santana, que aposta nele como atrativo para a instalação do centro de conexões (hub) da TAM no Estado. Com as obras paralisadas diversas vezes, o Acquario divide opiniões. Há quem considere a construção cara e não prioritária, enquanto outros visualizam benefícios no turismo.
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O homem por trás do ambicioso projeto arquitetônico, Leonardo Fontenele, proprietário da Imagic!, defende o empreendimento como um, literalmente, divisor de águas no Ceará. Segundo o projetista, quando inaugurado, o Acquario levará o Estado a outro patamar em termos de turismo. Para ele, a construção traria ainda muitos outros benefícios à população.
Em entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste, Fontenele destacou a experiência que adquiriu ao longo dos anos no ramo da arquitetura de entretenimento, com direito a atuação nos parques temáticos da Walt Disney, em Orlando, nos Estados Unidos.
Avesso ao que chama de "discussões políticas", o arquiteto defende não só a construção, como o contrato com a americana ICM-Reynolds para a produção dos acrílicos usados nos tanques do equipamento. Conforme avalia, a obra será paga em dois anos de atividades.
Como justificar um equipamento de US$ 150 milhões em meio à crise financeira do País em um Estado como o Ceará, com problemas de seca no Interior, crise nos hospitais e violência urbana preocupante?
A gente não pode achar que turismo é feito pra turista. Isso é um erro. Dizer que 'isso é coisa para turista ver'. Não é. Seria como se você tivesse uma mercearia e botasse um monte de prateleira e dissesse que era apenas para o povo ver. Não, isso é para vender. O Ceará é um Estado pobre, dos mais pobres do País. A grande pergunta é como a gente vai deixar de ser pobre. No meu entendimento, a única maneira de um Estado evoluir é atrair recursos. Pois qualquer Estado, região ou empresa só evolui à medida que você vai gerando negócios externos. Não existe negócio interno. Imposto não é negócio. Como diz a Margareth Thatcher (ex-primeira-ministra do Reino Unido), imposto é dinheiro do contribuinte. Nós temos que trazer para o Ceará investimento. Você pode trazer com indústria, siderúrgica, comércio, agropecuária. Cada estado tem uma vocação. O saudoso governador (do Ceará) Virgílio Távora tinha uma frase bacana: 'O turismo não é a vocação, mas a redenção do Ceará'. Sobre investimento, existem fatias, e o turismo é uma delas. Há verba pública destinada para educação, para segurança, saúde, e essa, para turismo. Tem um estudo que diz que 11,9% dos empregos do mundo são diretamente ligados à atividade turística. Isso levanta economias, é algo extremamente capilar, pois, dentro da capilaridade da rede, você irriga a economia como um todo. Esse mesmo estudo diz que o maior gasto dos turistas não é com os hotéis. Hospedagem inclui 19%, alimentação 22%, transporte 10%, e compras correspondem a 28% dos gastos.
Como o turismo pode, em sua visão, mudar a realidade do Ceará? E onde o Acquario entra nesse pensamento?
Temos quase três milhões de turistas. O País inteiro tem em torno de cinco milhões. Isso não é nada. Curaçau (ilha no Mar do Caribe) tem 28 milhões de turistas. E é do tamanho de Fortaleza. Nem falo de Orlando (EUA), que tem 55 milhões. O Brasil é um nanico, turisticamente falando, e temos um País com muitas possibilidades. No Ceará temos uma cultura legal, somos um povo receptivo, temos praias bonitas. Mas às vezes o povo confunde: 'Ah, mas isso é suficiente'. Não é. Pernambuco também tem isso. A Bahia também. É o que a gente chama de 'matéria prima turística', não produto turístico, é diferente. O Ceará tem uma boa matéria-prima. Como fazer? A gestão anterior (de Cid Gomes) fez o Centro de Eventos, que é legal, e causou uma ciumeira danada em outros Estados. Eles começaram a perder convenções pra cá. Esses equipamentos de infraestrutura turística são necessários. Quando você quer desenvolver uma região turisticamente, precisa formar um tripé de turismo de negócios, familiar e social. O Acquario é o turismo familiar. E será localizado em uma região que suplicava ser frequentada por famílias de novo. Há famílias que vivem lá, honradas, do bem, mas tem muita gente que não é. Isso é inegável, basta ir lá e olhar. O bom turismo é o de família, é o que deixa recursos no local, é onde se gasta mais. Não sou eu quem digo, há estudos disso.

Com todos os recursos que o Ceará tem, como essa 'matéria prima-turística', dentre elas uma das praias mais bonitas do mundo, além do maior parque aquático do País, não seria melhor apostar no que já temos de bom?
As pessoas precisam ter razão para vir ao Ceará, e a competição é global. Há bem pouco tempo atrás era mais barato ir ao exterior que vir ao Nordeste. Para o Ceará, não interessa que a pessoa vá ao exterior. Interessa que pare aqui. Então, tem que ter atrativos, razões para vir aqui. A pessoa pode vir para o Nordeste e não vir para o Ceará. Eu trabalhei na Disney, desenhando hotéis, parques, resorts. As pessoas pensam que Disney é só Pateta, Mickey. Não é. São negócios de turismo. É diferente. Como você faz uma atividade turística ser lucrativa? Você tem que ser autossustentável. Gerar dinheiro. E quando atrai uma pessoa a um local é importante que ela fique, que gaste dinheiro. É importante que consiga, ficando aqui, ter oportunidades, com uma matriz de visitação. Essa matriz de entretenimento tem que ser preenchida. E o Acquario é uma delas. Você acha que as pessoas gastariam um dia a mais em Fortaleza para ver o terceiro maior aquário do mundo, maior da América Latina, maior do Hemisfério Sul, o mais moderno do mundo? Eu acho que sim. Fico feliz em participar do Acquario, pois não é o único passo, mas um deles. Muita gente vai querer vir. Vai ser algo que não existe no País inteiro, não existe na América Latina. É preciso um equipamento turístico símbolo. O Acquario é um símbolo pelo que ele representa, pelo que é diferente dos demais aquários do planeta, pela forma física, que uns gostam e outros desgostam. O fato de ele ser polêmico é ótimo. Turismo adora polêmica, turismo adora o diferente. O turismo se move pela curiosidade. É essa curiosidade que leva as pessoas de um lado a outro do mundo. Turismo são pessoas que se deslocam de um lugar para o outro levando recursos. E Fortaleza é interessante em termos de Brasil: ela está extremamente melhor em relação aos outros estados em horas de voo para EUA e Europa. A distância de voo interessa.
E o que faz do Acquario Ceará tão especial a ponto de causar esta mudança no cenário turístico local?
Um aquário pode ser simplesmente um zoológico de peixe. Pode, se fizer ele assim. O daqui não. Aqui será um grande museu oceânico, ilustrando a relação da humanidade com o mar. Para que um aquário no Ceará? Pela história. Pela relação grande com o mar, a jangada, e tal. Poeticamente falando, o Ceará tem isso. E a gente extrai do mar o medo, a energia, o pré-sal. Temos grandes histórias e lendas para contar, de navegações, viagens. Os grandes museus, exceto os tradicionalíssimos, estão buscando formas mais modernas de engajar o visitante, formas de interagir com a mostra, de maneira que as pessoas se importem e valorizem ela. Como fazer a pessoa preservar? Ela só preserva aquilo com que ela se importa. O primeiro passo é fazer com que ela se importe. O Ceará tem essa bandeira de preservação. E essas formas mais modernas estão aqui. São simuladores, painéis interativos, uma série de mecanismos. Haverá uma complexidade que só existirá aqui, como os três simuladores submarinos, um kids club, cinema 3D interativo, dois cinemas 4D, filmes próprios, feitos para ele, que mostram o Acquario como protagonista, para a criançada. Os simuladores da Disney são de terceira geração. Os daqui são de oitava geração. Lá são para 50, 40 pessoas. Aqui serão para grupos de nove. Três submarinos, numa viagem para o fundo do oceano, onde você embarca só aqui. Não tem nada igual no mundo. Vamos ter filmes com atores daqui, dubladores daqui. É um produto cultural único, de poder de atratividade único. Vai mostrar como eram os oceanos milhões de anos atrás. As pessoas vão poder ver, e toda aquela forma externa entra também. A tematização entra. Ao entrar (no equipamento) você tem um domo de 10 metros de diâmetro, com um filme próprio, como uma janela que se abre para o fundo do oceano. Tudo dentro do orçamento, sem acrescentar um real a mais.
E quem vai pagar esta conta? Como sustentar algo desta magnitude?
Ele tem que ser sustentável, e ele é. Ao abrir as contas de aquários públicos no mundo, eles são superavitários. As pessoas dizem que o Estado vai perder dinheiro. Não vai. Sou apoiador que seja licitado para a administração privada e que ganhe o melhor. O Estado não é feito para administrar aquário. O ideal é ser privatizado, que seja alguém do ramo. Quando desenhamos, foi sabendo que não poderíamos aumentar mais para poder caprichar nas atrações. Por isso ele é planejado para dar lucro, não prejuízo. A conta dele é social. O Estado ganha quando o estabelecimento comercial vende, pois tem ICMS. Ganha quando a economia gira. A Prefeitura ganha no ISS. Dentro dessa conta, ele se paga em dois anos. Fora o fato que o Estado continuará ganhando sem precisar investir um centavo. É um equipamento único, com capacidade de ganhar dinheiro, atrair turistas, e que se mantém com lucro e tem capacidade de reinvestimento.
Com tantos benefícios e projeção de lucro, por qual motivo o Estado, e não um investidor do mercado, bancará a construção do Acquario?
Você, com esse dinheiro, faria esse aquário aqui ou em São Paulo, com 20 milhões de pessoas, 3º maior PIB da América do Sul? Mas o governo é daqui e não de São Paulo, e tem obrigação de trazer o investimento para cá, tem que bater o centro. O papel do líder é indicar o caminho. Depois a iniciativa privada faz hotel, restaurante. Tanto que esse aquário tem só um restaurante. Pois tem que surgir do lado de fora. Outras pessoas têm que se beneficiar. O governo dá a chance da população ganhar dinheiro com isso. Se fosse da iniciativa privada, iria ganhar sozinho.
'Não é só água. É uma fusão de atividades'

Quais lições estas experiências podem trazer ao Ceará na instalação deste equipamento em Fortaleza?
Há vários exemplos que deram certo, pois o problema não é ser pobre, é não se estruturar para deixar de ser. Um lugar bem pobre, bem ruim, era Bilbao, na Espanha. É um caso emblemático. No fim da década de 80, ela apresentava 25% de desemprego, falência na indústria, deterioração urbana, violência. Essa era a paisagem do norte da Espanha. Pobreza. Eles então decidiram arriscar num grande plano de reforma urbana. Nesse grande plano, resolveram investir em um equipamento símbolo. Tinham um dinheiro e arriscaram tudo. Decidiram fazer um museu. Custou 650 milhões de dólares. O retorno dos investimentos veio em seis anos. Aumentou em 4.000% o número de visitantes. Uma cidade do tamanho de Sobral. O museu gerou a revitalização da cidade. Sucesso. Isso pode fazer o mesmo efeito com a gente. Já o aquário de Portugal é hoje responsável sozinho por 10% do movimento turístico no País. A região em que ele foi instalado era separada de Lisboa. Era um local que servia de depósito de material de guerra, aterro sanitário, ferro velho, apelidado de 'a grande lixeira'. O estado português investiu US$ 1,5 bilhão, a União Europeia entrou com US$ 600 milhões e a iniciativa privada com o resto, chegando a US$ 3 bilhões. E se tornou uma área destino de Lisboa. Mais de 17 milhões de pessoas passaram lá de 1998 até 2013. Foram US$ 13 bilhões arrecadados em receitas fiscais, em apenas 15 anos. O que o Acquario fará aqui será projetar o nome do Ceará no mundo. O Oceanário projetou no estado português uma visão de País diferente. Não é uma obra por obra. É bacana ter. É positivo ter. E custou US$ 3 bilhões. Nosso aquário custa US$ 150 milhões. O prédio inteiro do Oceanário de Lisboa cabe dentro do nosso taque oceânico, que é apenas uma das atrações do Acquario Ceará. Perguntam então por quê não fazemos um do mesmo tamanho aqui. Por já ter um igual! 'Ah, mas quem já viu um viu todos'. Se você fizer igual aos outros, sim. Você tem que fazer algo melhor. Tem que gerar a curiosidade. Nós criamos algo que só a gente tem. E isso nos faz partir na frente. Tem uma quantidade de coisas muito grande no Acquario Ceará. Não é só água. É essa fusão de atividades que o torna singular. Ele é uma obra complexa, tem arquitetura complexa.
Um dos questionamentos feitos foi acerca da indicação da empresa americana ICM-Reynolds, sem licitação, e havendo outras concorrentes mais próximo, na Argentina, por exemplo. Qual a justificativa técnica para esta indicação?
A empresa é a única que detém tecnologia de fazer acrílico sem emendas, um material único. Tem essa outra empresa na Argentina, mas ela só faz acrílico de 10 cm de espessura. A pressão embaixo d'água é calculada em uma unidade específica, o bar. É preciso um cálculo para saber o que o acrílico tem que suportar. Já pensou no desastre de um vazamento? Teremos um tanque de 50 metros de profundidade que terá um acrílico de quase um metro de espessura. E não pode ser uma folha de acrílico qualquer, em que a visão fique distorcida e que com o tempo fique amarelada. Então, o governo comprou logo o melhor acrílico que existe, de uma empresa que sabe fazer. Vai ter mergulho no Acquario. Os visitantes vão passar dentro de túneis para entender as espécies ao redor. São coisas raras e únicas. Vai ter uma gaiola de acrílico, mergulhada no meio dos tubarões. E todos olhando pela janela, também de acrílico, como se estivessem dentro da água.
De que maneira a sociedade cearense poderá interagir com este equipamento? Ele é projetado para ser um símbolo do turismo, mas haverá algum mascote, por exemplo?
Já podemos estipular que a entrada vai custar algo relativo a um bom ingresso de cinema. Mas o hall é público, com um filme proprietário, em exibição no domo. E já temos o mascote criado. Será o 'Marinho', uma estrela do mar. Havíamos desenhado uma lagosta. Mas nesse ramo, tem que fazer algo pra ser rentável. Sabe o filme 'Vida de Inseto' (Disney)? Não foi sucesso de souvenirs afetivos. Vendeu poucos bonecos. Por quê? Pois eles não eram 'abraçáveis'. Uma lagosta, um camarão, com aqueles bigodes, são ameaçadores. Um tubarão é ameaçador. Um golfinho não temos aqui. Já a estrela do mar tem em todo lugar. E a estrela é 'abraçável'. Lembra do desenho 'Aladim', em que tinha aquele tapete, todo maleável? A estrela se mexe, e é um personagem mais forte, que você consegue fazer mais coisas, de almofadas a mochilas, chaveiros. Tem que ser bom de venda, pois o Acquario também tem que ser.
Como foi o processo de criação do modelo arquitetônico do Acquario?
O desenho é um prédio turístico, tem que se destacar. Não existe outro igual. Não poderia ser convencional. Aqui, descartamos caixa de sapato de vidro, formato de navio ou de baleia. Ao bater o olho nele (no Acquario), você vê uma metáfora marinha. Isso é uma lagosta? Uma baleia? Não é nada. É uma fusão de formas marinhas. Como se fosse uma arraia, um coral, uma união de formas. Como se fosse um exoesqueleto. Essa é a ideia. Esse vai ser um dos prédios mais intrigantes da América. Não só da América Latina. Essa forma é muito pouco usual. E foi feito de propósito. A ideia é que ele parecesse formas marinhas. Usamos uma maquete para esculpir. Depois refinamos. E depois, em engenharia reversa, escaneamos e revertemos para o computador. Nasceu de um conceito de papel, para um modelo, outro modelo, até chegar a esse. Foram cinco pessoas trabalhando durante dois anos no processo de criação. Ao todo, cerca de 300 pessoas já trabalharam diretamente no projeto.
*Leonardo Fontenele é proprietário da Imagic!
Levi de Freitas
Repórter