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CSP busca competitividade; infraestrutura do Estado atrasa

Em entrevista concedida ontem ao Diário do Nordeste, o CEO da CSP, Sérgio Leite, destacou que o atraso na infraestrutura do Estado pode adiar o início das atividades da siderúrgica

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Redação producaodiario@svm.com.br
Legenda: Conforme Sérgio leite, "agora, o grande trabalho da siderúrgica: o de conectar-se. Ela não é evento isolado. É um empreendimento conectado e a conexão dela é de chegada e saída"
Foto: FOTO: FABIANE DE PAULA

A dois meses de iniciar a sua fase de comissionamento, que consiste nos testes de equipamentos da usina, a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) ainda não tem data definida para começar sua operação comercial, apesar de estar prevista para o primeiro trimestre de 2016. Já com execução avançada das obras de implantação no Complexo Industrial e Portuário do Pecém (Cipp), o empreendimento está com a data de seu 'start up' nas mãos do Governo do Estado. Só poderá operar quando as infraestruturas sob responsabilidade do Poder Público estiverem prontas. E estas se encontram em atraso.

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Maior empreendimento de capital privado hoje em instalação no País, a CSP deverá incrementar, durante sua fase de operação, em 48% o Produto Interno Bruto (PIB) industrial do Ceará e em 12% todas as riquezas produzidas no Estado. Daí sua importância para a economia cearense. Com 74,87% de suas obras já executadas, a planta já se aproxima da conclusão de sua instalação, que foi iniciada no mês de julho de 2012. E já de início, vê à frente o desafio de garantir sua competitividade em um setor que já se encontra em contração.

"Agora, este é o grande trabalho da siderúrgica: o de conectar-se. Ela não é evento isolado. É um empreendimento conectado e a conexão dela é de chegada e saída", afirma o CEO da CSP, Sérgio Leite, em entrevista concedida ontem ao Diário do Nordeste. Ele se refere às infraestruturas de recebimento de insumos e escoamento da produção e informa que há atraso principalmente no descarregador de navios e na correia transportadora, ambos equipamentos de recebimento do minério de ferro, principal matéria-prima para a produção do aço. "Estamos buscando recuperar esse atraso com o Governo do Estado", diz.

Somente após terem sido definidos, por parte do Estado, os prazos de entrega dos equipamentos, o comandante da joint-venture - que conta como acionárias a Vale e as sul-coreanas Dongkuk e Posco - terá uma noção da efetividade e intensidade de possíveis "planos B" para a operação da usina.

Já com contratos fechados para fornecimento do produto que será fabricado na planta siderúrgica cearense - as placas de aço -, Leite considera a possibilidade de ter que negociar com os clientes a redefinição dos prazos de entrega.

Na entrevista, o executivo comenta os desafios de entrar no mercado exatamente em um período de retração econômica e restrição do consumo de aço, no Brasil e no mundo. Readaptações são possíveis e estas já vêm sendo estudadas. "A gente está olhando cuidadosamente todo esse novo contexto e vai buscar fazer readequações. Até porque o mercado pode nos pedir produtos diferentes do que a gente estaria pensando inicialmente", adianta, apontando que o produto final a ser fornecido pela CSP poderá sofrer mudanças em sua qualidade e nas suas especificações. Tudo isso será definido de acordo com as demandas do mercado que a nova unidade de siderurgia irá encontrar.

Apesar do cenário nebuloso, o CEO da CSP afirma que as obras avançam em ritmo acelerado. Além dos investimentos nas tecnologias de processos da usina, ele destaca a preocupação com o recrutamento de um bom quadro de funcionários, com experiência na área, além da formação de novos colaboradores, que deverão entrar no quadro funcional da empresa posteriormente, em um segundo contingente. Ontem, inclusive, a empresa comemorou a contratação de seu milésimo funcionário, que compõe o corpo gerencial da companhia siderúrgica.

Estes cuidados, aponta o executivo, são essenciais para garantir a longevidade da nova siderúrgica, diante da atual conjuntura. "Há uma redução de demanda. Fato. Numa redução de demanda, certamente, entra como fator de sobrevivência a competitividade. E competitividade significa qualidade mais custo", defende. Segundo ele, a CSP terá, sim, como garantir isso.

Hoje, vocês estão chegando ao patamar de mil empregados. A CSP deve entrar em operação no começo do ano que vem. Como fica a contratação dos que vão trabalhar na operação da siderúrgica?

Esses mil empregados cuja admissão estamos comemorando hoje é o corpo gerencial, as principais lideranças e os operadores mais qualificados, que terão a liderança de gestão e operacional da usina. Agora, eles estão sendo admitidos algum tempo antes do start up, para conhecerem aquilo que eles vão lidar, ver as instalações que eles irão trabalhar e ter conhecimento.

Quanto dessa mão de obra seria oriunda do Estado?

Esse contingente de mil, prevalentemente, é gente com experiência em siderúrgica ou industrial. Então, estão dentro de um primeiro contingente que o Estado ainda não tem os profissionais para oferecer. O segundo contingente, vamos chamar assim, que vai ser qualificado, ele é todo do Estado. Desses 2.800 funcionários que a CSP vai ter pra operar, pelo menos 1.500 serão do Estado.

Atualmente, existem cerca de 12 mil trabalhadores na construção do equipamento. Esses vão ser dispensados?

A cada frente de trabalho que vai sendo concluída, sim.

A mão de obra que não virá do Ceará será proveniente do resto do Brasil e da Coreia?

Nós temos duas vertentes de liderança, sendo uma técnica e uma técnica operacional. Uma liderança eminentemente técnica é uma que temos por meio de um contrato celebrado com a Posco. Isso nos capacita a receber um know-how de processos, de operações e até de um certo estilo de gestão. A outra são pessoas que têm profundo conhecimento de operações siderúrgicas, mas que vão ser adaptadas a essa tecnologia que vem da Posco, mas eles vão exercer efetivamente o cargo de liderança dos empregados brasileiros.

Existem investimentos já previstos no entorno da usina siderúrgica?

Sim. A Vale Pecém é um deles. Uma empresa americana, chamada Phoenix, que vai tratar todos os nossos resíduos industriais. Ela assinou contrato e já está se instalando. Temos uma empresa de grande nome no mercado, que é a White Martins. Nós já temos as próprias cimenteiras que aumentam a sua capacidade produtiva devido à siderúrgica. Um grande grupo cimenteiro, que ainda não tinha instalações aqui, está vindo, que é o grupo Polimix. Lá na região do Apodi, que é um grande manancial de calcário no Estado, tem plantas se instalando para serem nossos fornecedores.

Quando vocês iniciaram as obras da siderúrgica, não se sabia que o equipamento seria inaugurado em um período de crise econômica. Vocês tiveram que fazer alguma adaptação nos planos?

A gente está olhando cuidadosamente todo esse contexto e vamos buscar adequar nossas operações às novas demandas do mercado. Há adequações que são mais favoráveis, quando se está do lado da oferta, e outras que a gente precisa se estruturar, que estão do lado da demanda. As especificações dos produtos podem mudar. No panorama mundial, a CSP vai encontrar o que toda siderurgia está encontrando, espaço para ter que ser muito competitiva. Ter qualidade de produtos, rapidez em colocar o empreendimento em funcionamento e controlar custo.

Conforme o CEO da CSP, inicialmente, toda a produção da siderúrgica será exportada. Até mesmo a Vale, que responderá por 30% da fabricação, venderá os itens

'Reduzimos 30% da demanda de água'

O carvão siderúrgico que abastecerá a usina virá de onde?

A CSP vai buscar misturas de carvão em um universo de 70 tipos de carvão que já identificados que servirão para nossas misturas. O produto vem, principalmente, da Austrália, África, Estados Unidos, Canadá e Colômbia. A partir do fim do ano, esse carvão começará a chegar.

Sobre a infraestrutura de recepção e escoamento na usina, como a correia transportadora, já está tudo pronto?

Essa estrutura ainda não está pronta. O grande trabalho da siderúrgica é de conectar-se, porque ela não é um empreendimento isolado. Na conexão de chegada, há um píer para matérias-primas, com dois berços, um de carvão e um de minério. O berço de carvão nós vamos dividir com a térmica, e o de minério será exclusivo da CSP. Essas são obras de responsabilidade do Governo do Estado, que nos cabe apoiar e acompanhar. Hoje, estamos com um atraso principal na parte do descarregador e da correia transportadora do minério de ferro. Alguns itens desse escoamento, o terminal de placa está mais adiantado, e a rodovia está mais atrasada. Mas o governo está fazendo todo um esforço de gestão para recuperação e adequação dos prazos.

Vocês já pensam em um plano B caso a infraestrutura de responsabilidade do governo estadual não esteja pronta?

Alguma coisa você pode fazer plano B, outras coisas não. Na hora que tivermos uma visão bem clara dos prazos de antecipação que estamos discutindo com o governo estadual, veremos a efetividade e intensidade dos planos B. As operações podem sofrer impacto caso a infraestrutura não esteja toda pronta.

Com relação à possível dessalinização da água do mar e ao reúso de água do esgoto de Fortaleza e região metropolitana para abastecer a CSP, o que o senhor tem a declarar?

Tivemos um estudo recentemente para maximizar todas as nossas reutilizações de água, inclusive do nosso esgoto. Já reduzimos quase 30% da nossa demanda de água nova. O que nós, como parte do contexto, temos que ver é fazer nosso dever de casa. É óbvio que o reúso do esgoto de Fortaleza e região metropolitana será importantíssimo. Sei que o governo estadual está analisando isso com muita seriedade. A dessalinização não é nenhum bicho papão, é uma alternativa de prateleira. Há países que lideram essa tecnologia, mas tem uma sequência de abordagem. A siderúrgica vai começar a funcionar sem nenhum problema com água, mas precisamos buscar alternativas.

No que se refere à produção da siderúrgica, algum percentual será destinado ao mercado interno?

Em princípio, toda a nossa produção será exportada. Até mesmo a Vale, que responderá por 30% da produção, venderá os produtos provavelmente para o mercado americano. A Dongkuk (50%) e a Posco (20%) exportarão para a Coreia.

A Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), última siderúrgica inaugurada no Brasil, no Rio de Janeiro, teve problemas ligados a questões ambientais. O que a CSP fará para que isso não ocorra no Ceará?

Já investimos R$ 1 bilhão em equipamentos de prevenção e contenção de agentes poluidores. Estamos com tecnologia de processo e buscando, com a qualificação dos profissionais, agentes que possam operacionalizar os recursos.

Tem como a gente estimar o quanto dá para mitigar, com todas essas ações, os impactos ambientais?

A indústria siderúrgica é estruturante, pesada e que gera enormes benefícios para quem a abriga. Temos como exemplo o Japão e Coreia. A gente tem que desmistificar que uma siderúrgica é um "bicho papão". Sociedade e siderúrgica podem conviver harmonicamente, desde que existam bons equipamentos, boa tecnologia, processos bem controlados e investimentos para conter e controlar a poluição.

O Centro de Treinamento Técnico do Ceará (CTTC), equipamento do governo que será utilizado para formar mão de obra para a siderúrgica, não foi inaugurado. O que isso representa para a CSP?

Não vamos esperar o CTTC para preparar a nossa mão de obra. Já estamos fazendo isso por meio do Senai e das usinas parceiras. Abrimos um processo seletivo para a contratação de um efetivo entre mil e 1.500 jovens. Estamos com turmas sendo formadas e, depois, eles serão encaminhados para siderúrgicas brasileiras para o treinamento industrial.

Como o senhor se sente ocupando esse cargo na CSP?

É uma responsabilidade grande. São grandes fatores que nos tocam e que a gente toca. O desafio é buscar harmonizar isso tudo e passar por esse processo com tranquilidade e fazer as coisas com seriedade. Hoje, nosso entorno é um entorno em que a gente é questionado, visto e falado o tempo todo.

Sérgio de Sousa
Repórter

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