Marçal Aquino contorna hiato de 16 anos com romance policial ambientado durante a ditadura

“Baixo esplendor” narra os dilemas de um agente da polícia civil infiltrado em uma quadrilha sob investigação

Legenda: Com o novo livro, Marçal Aquino comprova o porquê de ele ser um dos nomes mais celebrados da literatura nacional
Foto: Renato Parada/Divulgação

O conhecimento dos seres é fragmentário, certa vez afirmou o professor, sociólogo e crítico literário Antonio Candido (1918-2017). A máxima também se aplica à estrutura dos romances. Ao abordar as personagens de modo segmentado, esse gênero retoma, no plano da técnica de caracterização, a maneira insatisfatória e incompleta com que elaboramos o conhecimento de nossos semelhantes.

Dito isso, “Baixo esplendor” segue o princípio à risca ao narrar os dilemas vivenciados por um homem apresentado como Miguel na São Paulo de 1973, um dos períodos mais truculentos da ditadura militar brasileira. Agente do setor de Inteligência da polícia civil, ele tem como especialidade se infiltrar em quadrilhas sob investigação. 

Desta vez, contudo, ao se aproximar de um grupo de ladrões de carga e se ver, pouco a pouco, totalmente entremeado no cotidiano deles, o profissional se envolve em um abismo incendiário. Nele, mentiras, questões éticas, sexo e violência embaralham noções pré-estabelecidas e convocam a um profundo mergulho na complexidade dos indivíduos.

Lançado pela Companhia das Letras, o livro é a nova empreitada literária de Marçal Aquino, escritor que retorna ao romance após um hiato de 16 anos. O último publicado por ele foi o cortante “Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios”, em 2005. De lá para cá, o autor, também jornalista, publicou apenas a novela "O Invasor" (2011) e se dedicou, sobretudo, ao desenvolvimento de roteiros de cinema e televisão.

Apesar da distância entre uma obra e outra, o mais recente projeto de Aquino comprova o porquê de ele ser um dos nomes mais celebrados da literatura nacional – principalmente no gênero que o consagrou, o romance policial. Munido de uma prosa ágil, inteligente e que se vale da perspicácia do público para avançar, sem amarras, no submundo do crime, seu novo trabalho expõe as incertezas e sensualidades de um panorama frequentemente prestes a ruir.

Identidades em conflito

Todo o terreno no qual a trama de “Baixo esplendor” se sedimenta atua no campo das representações. Vários componentes apontam para essa questão, a começar pelo protagonista. A cada serviço para o qual é destinado, Miguel assume uma nova identidade – passando por mudanças no cabelo, nas vestimentas e, claro, no nome.

Nesse sentido, é curioso o fato de não sabermos, em nenhum momento da trama, a verdadeira designação presente na certidão de nascimento do investigador. A escolha reverbera diretamente na forma de apreensão dos acontecimentos, levando a audiência a ocupar um território hostil e movediço, em que quase nada é realmente o que parece. 

Legenda: Escritor borra as fronteiras entre passado, presente e futuro ao lançar inúmeras pistas ao longo do texto
Foto: Companhia das Letras/Divulgação

Esse fio é delineado em toda a extensão do romance por meio da qualidade da escrita de Aquino, que atua como um engenhoso narrador onisciente dessa teia de desassossegos. Com linguagem acessível, colada à realidade e finamente costurada, ele circula a imaginação por bares, becos, postos de gasolina, escritórios, casas vigiadas e estacionamentos, expondo uma metrópole suja, frequentemente cinza e sangrenta.

Dividido em três partes – Suor, Sêmen e Sangue – o livro começa exatamente em um salão de bilhar, onde Miguel tenta colocar o plano em ação: conquistar a confiança do líder da quadrilha, Ingo, e do principal comparsa dele, Moraes. Ciente do solo em que está pisando, o investigador procura agir com cautela, mantendo diálogos constantes com o delegado à frente da operação de modo a calcular os passos dos alvos.

Tudo começa a ser posto em xeque quando Miguel conhece Nádia, irmã de Ingo. Logo os dois iniciam uma tórrida relação, regada a erotismo, saídas noturnas e descontroles emocionais. O intenso vínculo, além de ferir a integridade ética do agente policial, também expõe a fragilidade dos próximos rumos da arriscada empreitada. 

Ao mesmo tempo, valendo-se de um panorama mais aprofundado de análise, a liberdade com a qual o casal conduz os atos na cama consegue apontar para uma contestação ao silenciamento da ditadura. Tudo é possível entre lençóis, uma vez que a realidade exterior massacra e corrói. A bem da verdade, porém, o período político é utilizado apenas como plano de fundo da obra. 

Nas linhas, se espraiam referências por meio de citações a periódicos, breves comentários sobre a estrutura de poder vigente e um generoso desfile dos modelos de carro da época. Em uma das cenas do livro, numa digressão pela própria carreira, Marçal também recupera o tempo em que atuou como repórter no Jornal da Tarde ,trazendo um dos personagens lendo a publicação.

O peso do sentir

Borrando as fronteiras entre passado, presente e futuro ao lançar inúmeras pistas ao longo do texto, o escritor demarca com o trabalho, de maneira enfática, o peso do sentir. Seja no descontrole de Moraes, na aparente segurança de Ingo, nas volúpias e incertezas de Nádia ou no desfiladeiro de sentimentos atravessado por Miguel, cada reação confere uma interessante perspectiva acerca do nosso próprio eu: como agiríamos em situações feito aquelas?

A resposta à incógnita fica para o término da leitura. Até lá, as páginas são consumidas com ânsia de informação, numa bem-vinda espiral de casos e acasos, interesses e brutalidades. Em posição de entrega e vulnerabilidade, aos moldes do que demarca a intrigante capa do livro – assinada por Alceu Chiesorin Nunes sob a arte de Marcelo Tolentino.

Em um instante de perda de dois dos maiores representantes da literatura policial brasileira – Rubem Fonseca (1925-2020) e Luiz Alfredo Garcia-Roza (1936-2020), falecidos no ano passado – Marçal Aquino entra em cena novamente para provar que o gênero segue vivo, voraz e com sede de novas histórias.

Baixo esplendor
Marçal Aquino

Companhia das Letras
2021, 264 páginas
R$ 49,90/ R$ 29,90 (e-book)


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