Em mensagens para colegas, procuradores chamam iPhone fornecido pelo MPF de "esmola"

Os procuradores defendem a necessidade de aparelhos mais modernos e caros

iphone SE
Legenda: Os celulares são disponibilizados a 1.200 procuradores e 650 servidores comissionados.
Foto: Mr.Mikla / Shutterstock.com

Procuradores da república chamaram os aparelhos celulares institucionais fornecidos pelo Ministério Público Federal (MPF) de "esmola", conforme mensagens obtidas pela Folha de S. Paulo. O dispositivo é o iPhone SE, da Apple, que custa no mercado entre R$ 2.600 e R$ 3.600. Os procuradores defendem a necessidade de aparelhos mais modernos e caros.

Eles recebem por mês, além do salário de R$ 33,6 mil, auxílio-alimentação (R$ 910), abono pecuário, de até R$ 29,9 mil, ou gratificação por acúmulo de ofício, que pode chegar até R$ 7,5 mil. Contracheques brutos dos procuradores, encontrados no sistema de transparência, mostram recebimento de R$ 102 mil. 

Mensagem do procurador Marco Tulio Lustosa Caminha, datada de 9 de fevereiro, "alerta" os colegas sobre a nova opção de aparelho. A reclamação é endereçada ao secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação da PGR, Darlan Airton Dias, a quem cabe a gestão dos contratos.

"É isso mesmo, Darlan??!!! Você acha mesmo que depois de mais de três anos com um iphone 7, já ultrapassado, processador lento, bateria ruim, tela pequena, vamos aceitar por mais outros 30 meses um iphone SE?? Acho que ninguém aqui é moleque, Darlan!!"", questiona Marco Tulio, que finaliza, "NÃO ACEITEM ESSA ESMOLA".

Contratos 

A opção pelo iPhone SE, segundo apurou a Folha, é um contrato da Procuradoria Geral da República (PGR) com a operadora Claro, que foi assinado em uma licitação do fim de 2020. 

Os celulares são disponibilizados a 1.200 procuradores e 650 servidores comissionados. Por meio de nota, a PGR afirma que analisou as ponderações apresentadas e decidiu manter a contratação do plano, "por entender que foi feita a melhor escolha considerando as restrições orçamentárias e legais".

Revolta

Na rede interna, a mensagem do procurador Caminha foi corroborada pela procuradora Ana Paula Ribeiro Rodrigues, que atua no Rio. "É incrível essa notícia trazida pelo Marco Tulio. Torcendo para que haja algum equívoco nisso", afirmou.

"Eu ia perguntar O QUE ACONTECEU COM ESSA INSTITUIÇÃO. Mas, pensando bem, o que aconteceu eu sei: morreu, acabou, resta-nos agir como burocratas e ir levando e, quem pode, vai se virando ou cai fora. A pergunta é: COMO ISSO ACONTECEU?", prosseguiu.

A procuradora ainda disse que "em alguns casos, a opção não aceitar a esmola não se coloca". "Essas notícias chegam nessa situação de penúria, em que a gente fica desesperado atrás de acumulações para poder complementar o salário. Isso para os 'privilegiados' que conseguem chances de acumular."

José Leão Junior, outro procurador, continuou afirmando que os procuradores estavam sendo "maltratados". "Existem estudos a mostrar que, quanto mais alguém é maltratado, vilipendiado ou seviciado em relação a um trabalho ou afazer, mais tal pessoa agarrar-se-á a seus escrúpulos para desempenhar com mais desvelo ou elevação tal afazer, de modo a não deixar entrar em colapso (ou processo de dissolução) certa faceta –que lhe é cara– do self".

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