Ceará pode chegar ao Oscar pela 1ª vez com 'Feito Pipa' e já há o que comemorar

Gravado em Quixadá, filme vai representar o Brasil na disputa por uma indicação ao prêmio.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
(Atualizado às 16:18)
Legenda: Dilma (Teca Pereira) e Gugu (Yuri Gomes) são avó e neto em "Feito Pipa", filme cearense que pode chegar ao Oscar.
Foto: Jamille Queiroz / Divulgação.

Pela primeira vez, um filme cearense é o escolhido pelo Brasil para disputar uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Gravado em Quixadá, “Feito Pipa” foi anunciado nesta quarta (16) como representante do País na corrida de 2027 à premiação norte-americana.

Na prática, há um caminho longo e custoso até uma sonhada indicação cearense ao prêmio de cinema dos Estados Unidos. No entanto, a escolha histórica dá, acima de tudo, visibilidade para a obra de Allan Deberton no próprio território brasileiro. Em um país em que filmes nacionais correspondem, em dados de 2026 até aqui, a 4% do público, isso é uma vitória importante.

Com roteiro de André Araújo e nomes como Lázaro Ramos e Teca Pereira no elenco, o longa segue Gugu (Yuri Gomes), um menino livre, afetuoso e apaixonado por futebol que mora com a avó. Quando ele precisa encarar a possibilidade de morar com o pai, a relação já difícil é colocada à prova. 

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Quais os próximos passos de "Feito Pipa" até o Oscar?

Após a seleção de “Feito Pipa” como representante do País no Oscar, o filme precisará fazer campanha para ser visto por votantes da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Para a categoria de Melhor Filme Internacional, cada país pode submeter uma produção à instituição. 

As dezenas de produções são apresentadas aos membros da Academia, que primeiro votam conjuntamente em 15 obras pré-finalistas. A divulgação desse recorte será em 15 de dezembro.

Caso o longa cearense chegue na chamada pré-lista da categoria, ele segue em campanha para tentar emplacar uma das cinco indicações. A seleção dos indicados será divulgada no próximo dia 21 de janeiro de 2027 e a cerimônia do Oscar será em 14 de março.

Antes, um filme dirigido por um cearense, Karim Aïnouz, já havia sido escolhido: "A Vida Invisível", em 2019. No ano passado, com o pernambucano "O Agente Secreto", os atores cearenses Geane Albuquerque e Robério Diógenes representaram o Estado na premiação.

Veja o trailer de "Feito Pipa"

Capacidade de diálogo universal de história cearense

Desde a estreia premiada, ocorrida no Festival de Berlim em fevereiro deste ano, o filme cearense tem circulado por eventos no México, na Colômbia, na China e no próprio Brasil, sempre angariando mais troféus.

É a prova da capacidade de diálogo universal da história familiar e marcadamente cearense com o público. Decerto, existem chances de a produção se conectar, também, com quem decidirá os indicados ao Oscar. 

Mas é na relação e na identificação das plateias cearenses e brasileiras com Gugu, a avó Dilma e o pai Batista que reside a principal força deste espaço inédito ocupado pelo cinema cearense — que, ressalte-se, já vem circulando e ganhando notoriedade ímpar nos últimos 25 anos.

O ator Lázaro Ramos está em pé de braços cruzados vestindo camisa polo listrada e olha seriamente para o garoto Yuri Gomes, que o encara de baixo para cima com uma camiseta clara, em cena do filme cearense 'Feito Pipa'. Ao fundo, uma parede simples de interior abriga penduradores com sacolas, compondo um ambiente caseiro sob luz quente e acolhedora.
Legenda: Lázaro Ramos e Yuri Gomes são pai e filho no longa-metragem cearense "Feito Pipa", de Allan Deberton.
Foto: Jamille Queiroz / SVM.

O cenário de ocupação de filmes nacionais nas salas de cinema, no entanto, é costumeiramente desafiador. Políticas públicas como a cota de tela, que garante sessões de obras brasileiras em horários comerciais, surgem no sentido de conseguir fortalecer o acesso do Brasil ao próprio Brasil pelas telas.

A discussão pode e deve, ainda, ser expandida para a importância do espaço dedicado à própria cultura na sociedade e nos debates políticos, para citar alguns espaços. O projeto, inclusive, nasce como fruto do Lab Cena 15, do Porto Iracema das Artes, outra política pública que comprova a importância delas para o País.

Fato é: tendo lugar, acesso e recursos garantidos a ela, há retornos financeiros e simbólicos inegáveis.

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Ao apresentar ao mundo as paisagens de Quixadá, atores cearenses e brasileiros e os trabalhos de Allan, André e outras dezenas de profissionais ligados à concretização da obra, “Feito Pipa” se torna um ativo importante para atrair olhares e recursos ao Ceará e ao Brasil.

Já ao trazer, a partir da estreia oficial nos cinemas brasileiros em 5 de novembro, os mesmos aspectos para o próprio Ceará e Brasil, ele se torna mais que simplesmente um filme. Vira, ao mesmo tempo, auto-estima, espelho de reconhecimento e janela para outros mundos. Essas são mais vitórias importantes, e já valem a jornada.

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