Luiz Carlos Barreto, o cearense que há mais de 60 anos moldou o cinema brasileiro que conhecemos

O produtor cearense morreu nesta quarta (22).

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
(Atualizado às 18:56)
Legenda: Luiz Carlos Barreto nasceu em Sobral em 1928 e viveu no Ceará até 1947, quando se mudou para o Rio de Janeiro.
Foto: Deivyson Teixeira / MIS Ceará / Divulgação.

O cinema brasileiro que conhecemos hoje — fortalecido tanto pelas produções autorais com apelo internacional em festivais e no Oscar, quanto por aquelas massivamente populares que arrastam milhões de espectadores — teve as bases fundadas por um cearense de Sobral.

Foi Luiz Carlos Barreto, que se consolidou ainda nos anos 1960 como produtor de algumas das principais obras do cinema brasileiro: dos clássicos premiados em Cannes "Vidas Secas" (1963) e "Terra em Transe" (1967) a "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1976) e "A Dama do Lotação" (1978) — que juntos levaram mais de 17 milhões de brasileiros aos cinemas naquela década —, passando ainda por "O Quatrilho" (1995), vencedor do Oscar, e "O Que É Isso, Companheiro?" (1997), indicado ao prêmio.

O cineasta Luiz Carlos Barreto sorri em pé no centro da imagem, vestindo uma camisa xadrez de mangas compridas em tons de marrom e bege. Ao fundo, destacam-se pôsteres emoldurados dos filmes 'Bye Bye Brasil' e 'Dona Flor e Seus Dois Maridos', além de prateleiras com livros e documentos.
Legenda: Em 1994, ele foi laureado com o troféu Sereia de Ouro, entregue pelo Grupo Edson Queiroz.
Foto: ABI / Divulgação.

A diversidade temporal das obras citadas evidencia a permanência da relevância do sobralense, que morreu nesta quarta-feira (22) aos 98 anos. Do início da Ditadura Militar aos tempos da Embrafilme, passando ainda pela derrocada e posterior retomada do cinema brasileiro, Barretão tem o nome sedimentado entre os gigantes do audiovisual do País. 

Trajetória entre o autoral e o comercial

Nascido em 20 de maio de 1928, Luiz Carlos Barreto viveu no Ceará até 1947. Foi quando se mudou para o Rio de Janeiro e enveredou, a partir da década de 1960, pelo universo cinematográfico, primeiro em trabalhos como diretor de fotografia e roteirista.

A lida como produtor foi iniciada exatamente em 1963, ano em que fundou, ao lado da esposa, Lucy Barreto, a L. C. Barreto. A produtora é responsável por mais de 150 obras audiovisuais e está até hoje em atividade.

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O equilíbrio entre a autoralidade reconhecida fora e dentro do País e o "arrasa-quarteirão" comercial foi uma das principais marcas da trajetória do cearense como produtor e pavimentou, pode-se afirmar, a lógica — inclusive industrial — do audiovisual brasileiro. 

Figura central nas políticas públicas

Não por acaso, Barretão foi, também, pensador e fazedor de políticas públicas voltadas ao setor ao longo das décadas, como destacam o cineasta Rosemberg Cariry e a professora Bete Jaguaribe.

À coluna, o diretor ressalta que "o cinema brasileiro deve algumas de suas principais políticas públicas e algumas de suas mais destacadas conquistas" ao sobralense.

"Com Barreto, vai-se uma época e uma ousadia sem medo. Ele foi capaz de reinventar o nosso cinema e colocá-lo no mundo. O Brasil da cultura e da arte está mais pobre com a partida desse gigante, mas seu legado é imenso: não teríamos todo esse cinema que temos hoje sem sua ação e sua visão ampla da cultura e da vida"
Rosemberg Cariry
diretor

Bete, coordenadora do curso de Cinema e Audiovisual da Unifor e diretora da Escola Porto Iracema das Artes, lembra que Barretão "fez tudo no cinema", mas destaca "especialmente seu lugar de pensador de políticas para o desenvolvimento do setor audiovisual".

Legenda: "O Quatrilho", longa brasileiro que venceu o Oscar nos anos 1990, foi produzido por Barretão e dirigido por um dos filhos dele, Fábio Barreto.
Foto: Divulgação.

"(Ele) liderou inúmeros movimentos de defesa da soberania de nosso cinema, durante toda sua vida. Tive o privilégio de conversar com ele, em muitas ocasiões. Na última vez que esteve no Ceará, em 2024, conversou com a mesma paixão pelo cinema nacional", lembra.

A fala de Bete é comprovada por uma entrevista que Luiz Carlos Barreto concedeu a este colunista em 2018. Na época, ao avaliar as políticas do setor, o produtor revelou um olhar arguto sobre o cenário de então e, inclusive, ressaltou discussões que se fortaleceram somente agora, como a controversa — e necessária — regulação dos streamings.

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Para Barretão, a presença de filmes brasileiros no mercado interno estava em "recessão" — "a taxa de ocupação (...) que chegou a atingir 38% caiu para menos de 10%", atentou — e, mesmo com o vídeo sob demanda sendo um fato no País, "ainda está se discutindo como regular esse segmento do mercado".

Político, o produtor cearense também criticou o então governo Bolsonaro quanto à atuação referente ao cinema. O trabalho de "fomento e estímulos ao desenvolvimento e implementação de uma forte e vigorosa indústria cinematográfica e audiovisual" que vinha desde os anos 1960, para Barretão, estava "sendo desconstruído, ou melhor, destruído".

Havia, no entanto, esperança no discurso do cearense. "O cinema brasileiro já resistiu e ultrapassou outras crises até mais graves que esta", disse, ecoando confiança no que viria.

Os cineastas Luiz Carlos Barreto e Rosemberg Cariry estão sentados lado a lado em poltronas pretas durante um evento no palco. À esquerda, Luiz Carlos Barreto fala ao microfone vestindo roupa branca, enquanto Rosemberg Cariry, à direita, usa camisa azul, óculos escuros e mantém os braços cruzados segurando outro microfone.
Legenda: Rosemberg Cariry (à direita) participou de evento no MIS Ceará, em 2024, ao lado de Barretão (à esquerda).
Foto: Deivyson Teixeira / MIS Ceará / Divulgação.

O que veio, afinal, foram prêmios em Veneza, Cannes e Oscar para "Ainda Estou Aqui" (2024) e "O Agente Secreto" (2025), além de grande repercussão de bilheteria das obras, bem como novos recordes de público com comédias como "Minha Mãe É Uma Peça 3" (2019) e "Minha Irmã e Eu" (2023).

O que Barretão pensou, moldou e executou ao longo do século XX no cinema brasileiro, então, foi pavimento para o caminho que seguiu e se fortaleceu décadas depois. A importância de um legado como este é basilar.

"(O produtor) dedicou toda a sua vida ao cinema. Foi um brasileiro cearense apaixonado pelo Brasil", resume Bete. "Ao lado de nomes como Oscar Niemeyer, Darcy Ribeiro, Glauber Rocha e Nelson Pereira dos Santos, entre outros grandes brasileiros, Barreto pensou e fez o Brasil de forma generosa e original, concebendo-o como uma civilização nova", sustenta Rosemberg.

Reconhecimento

Ao longo dos anos, o produtor recebeu as mais importantes homenagens em reconhecimento ao trabalho. Em 1994, ele foi laureado com o troféu Sereia de Ouro, entregue pelo Grupo Edson Queiroz.

Já em 2024, Barretão foi condecorado com a Medalha da Abolição, do Governo do Ceará.

Fac-símile de matéria sobre a entrega do Sereia de Ouro que contemplou o cineasta Luiz Carlos Barreto.
Legenda: Fac-símile de matéria sobre a entrega do Sereia de Ouro que contemplou o cineasta Luiz Carlos Barreto.
Foto: Acervo Diário do Nordeste.

Em março de 2024, Luiz Carlos Barreto recebeu uma série de homenagens no Ceará. Além da Medalha da Abolição, ele também participou de agenda especial alusiva aos 60 anos de contribuções ao audiovisual brasileiro. 

O produtor esteve em uma fala pública no Museu da Imagem e do Som do Ceará, ao lado do cineasta Rosemberg Cariry. 

A programação incluiu um evento celebrativo com a presença de Barretão e Lucy Barreto no Cineteatro São Luiz. A L. C. Barreto e o casal foram agraciados com o Troféu Eusélio Oliveira, concedido pelo Cine Ceará.

O São Luiz também realizou mostra especial com filmes da produtora no período.

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