MIS Ceará resguarda memórias do Estado e ganha destaque nacional em preservação audiovisual

Laboratório de Preservação, Conservação e Digitalização da instituição trava parcerias com instituições nacionais e faz restauro e digitalização de filmes cearenses.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: Investimento público garantiu que MIS Ceará tenha equipamento de digitalização mais moderno da América do Sul.
Foto: Deivyson Teixeira / Divulgação.

O Ceará é referência, não tem mais como sair dessa frente”. A fala de Kennya Mendes, diretora-adjunta do Museu da Imagem e do Som do Estado, diz respeito ao lugar da instituição no campo da preservação audiovisual. 

No fim de junho, a entidade apresentou na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto o restauro do curta cearense “Jangada de Ir e Vir” (1977), realizado pelo Laboratório de Preservação, Conservação e Digitalização do MIS Ceará, além de ter participado de encontros de arquivos e museus da imagem e do som do País.

O olhar à memória do Estado e o destaque em circuitos nacionais ligados à preservação foram fortalecidos desde a reabertura do museu. Isso ocorreu há quatro anos, tendo como marco a estruturação do laboratório com equipamentos entre os mais modernos do mundo.

Com uma futura mostra de filmes restaurados e digitalizados no horizonte, além de novos restauros de obras cearenses e parcerias com instituições como o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), ligado ao Ministério da Cultura (MinC), o MIS Ceará se impõe como referência de memória no Estado e no País.

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Circulação nacional

O ano de 2026 marcou a segunda vez que o museu apresentou um filme restaurado na Mostra de Ouro Preto. A primeira oportunidade se deu em 2024, quando o restauro digital do documentário “Chico da Silva”, de Pedro Jorge de Castro, foi exibido no evento. 

No mesmo ano, David Felício e Gabriela Dantas, técnicos especialistas em restauro digital de imagem no MIS, participaram da mesa “Digitalização do patrimônio audiovisual em suporte fotoquímico”, com representantes de instituições como o Arquivo Nacional e a Cinemateca Brasileira.

Também em 2024, os profissionais participaram de projeto do Itaú Cultural, em São Paulo, no qual apresentaram os estudos de caso de restauro e digitalização de “Jangada de ir e vir” e de “Reis do Cariri”, de Oswald Barroso e Carlos Lázaro.

Imagem reproduzida do curta cearense 'Jangada de Ir e Vir', de Marcus Valle, que mostra vários pescadores unindo forças para empurrar uma jangada tradicional contra as ondas na beira da praia. A cena, capturada em uma película antiga com tons desbotados, mostra o grupo trabalhando coordenadamente em meio à espuma do mar e sob ondas agitadas ao fundo.
Legenda: Curta cearense "Jangada de Ir e Vir", de Marcus Vale, foi exibido na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Foto: Reprodução.

As políticas públicas nos fazem vivenciar, institucionalizar e fortalecer mais a continuidade de projeção que o Ceará está tendo”, destaca Kennya. “A gente traz o pensar e o olhar para o Estado e as memórias que a gente tem, e consegue fazer a difusão a partir de parcerias que temos feito”, avança a diretora-adjunta.

Ainda no escopo nacional, ela cita parceiros como a Cinemateca Brasileira e o Centro Técnico Audiovisual (CTAv). Este último é ligado à Secretaria do Audiovisual do MinC e, inclusive, atuou junto ao MIS na restauração de som dos curtas “Jangada de Ir e Vir” e “Reis do Cariri”.

“A gente faz a restauração dos filmes com esse apoio e suporte do CTAv na parte de tratamento som e vai crescer para formações, porque o MIS tem a particularidade de trabalhar a formação voltada à inovação e preservação audiovisual”, afirma a gestora.

Um profissional de jaleco branco, máscara preta e luvas manuseia cuidadosamente uma película de filme cinematográfico sobre uma bancada branca de laboratório. Ao fundo, o ambiente clean destaca a ação focada do técnico, enquanto em primeiro plano há um frasco com a etiqueta 'ÁLCOOL' desfocado.
Legenda: Laboratório dispõe de equipe, equipamentos e insumos para trabalhos de conservação e restauro do acervo do MIS e de filmes externos.
Foto: Deivyson Teixeira / Divulgação.

"Intercâmbio" firmado com CTAv

Como explica Valquíria Quilici, coordenadora-geral do CTAv, o contato entre as instituições "surgiu a partir da convergência de propósitos" ligados à conservação, digitalização e restauro.

"Essa convergência resultou na construção de um Acordo de Cooperação Técnica voltado ao desenvolvimento conjunto de ações nas áreas de preservação, pesquisa, formação, difusão cultural e valorização da memória audiovisual brasileira", explica.

Além do trabalho conjunto de restauração dos curtas citados, o ACT "estabelece uma agenda de longo prazo, com duração prevista de cinco anos, contemplando intercâmbio de metodologias, projetos de preservação e digitalização, pesquisa aplicada, ações educativas, cursos, oficinas, seminários e iniciativas de difusão cultural", acrescenta a coordenadora.

Na avaliação de Valquíria, o MIS Ceará tem "características que o colocam entre os equipamentos culturais mais relevantes do país no campo da preservação audiovisual", citando a renovação de infraestrutura, que contempla ainda reservas técnicas climatizadas, ilhas de edição e espaços de ações educativas.

O museu não se limita à guarda dos acervos, mas promove pesquisa, experimentação, formação e programação cultural, aproximando a sociedade da memória audiovisual. Essa visão dialoga diretamente com a missão do CTAv, que também compreende a preservação como uma política pública que articula conservação, qualificação profissional e democratização do acesso ao patrimônio audiovisual"
Valquíria Quilici
coordenadora-geral do CTAv

As trocas entre as instituições, bem como eventos como a própria Mostra de Ouro Preto, defende Valquíria, ressaltam a importância da natureza colaborativa e da cooperação institucional no trabalho de preservação audiovisual

"A exibição de 'Jangada de Ir e Vir' na CineOP, após o trabalho conjunto de restauração sonora realizado pelo MIS Ceará e pelo CTAv, é um exemplo muito representativo desse ciclo virtuoso: preservar, restaurar, difundir e devolver à sociedade um patrimônio que faz parte da memória cultural brasileira", sustenta a coordenadora.

Parcerias formativas e mostra de filmes restaurados

No âmbito estadual, o MIS trava parcerias com diferentes instituições também, por exemplo, em experiências formativas.

“O Cineteatro São Luiz é uma parceria mais no lugar mesmo da formação, os nossos técnicos estão sempre ali trabalhando em conjunto, tem a sala Seu Vavá, que a gente já fez um trabalho lá”, elenca Kennya.

A diretora-adjunta acrescenta: “A Vila das Artes tem um curso de preservação audiovisual que as aulas práticas costumam acontecer no Museu da Imagem do Som e a gente dá todo o suporte técnico também”.

Uma mão aponta diretamente para a tela de um monitor que exibe a comparação de restauração de um filme antigo, mostrando um braço tocando a água do mar. O lado esquerdo do vídeo apresenta tons mais escuros e desgastados, enquanto o lado direito revela cores mais vivas e recuperadas em um ambiente de edição técnica.
Legenda: MIS tem trabalhos de restauro e digitalização de filmes em 8mm, 16mm e 35mm.
Foto: Ismael Soares.

Outra parceria destaca pela gestora é a com o Cinema do Dragão. “É um lugar em que a gente tem difundido bastante os filmes restaurados. A gente costuma fazer (sessões de) testes lá e depois a contrapartida é fazer uma exibição para o público geral”, explica.

O espaço é um dos que deve receber a futura mostra de cinema de produções restauradas pelo laboratório do MIS Ceará, um dos planos da instituição adiantados à coluna por Kennya.

A gente tem vislumbrado essa mostra de filmes restaurados. Temos um programa que se chama Circuito MIS, que tem circulado em municípios do estado, então essa mostra entraria nele. A pretensão é que a gente consiga de fato fazer uma mostra grande com os filmes restaurados pelo MIS”.
Kennya Mendes
diretora-adjunta do MIS Ceará

Um Ceará que existe nas imagens que preserva

A 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto foi guiada pela temática “Um País existe nas imagens que preserva". Trazendo a ideia para o contexto estadual, a equipe da instituição foi provocada: que Ceará existe nas imagens já preservadas e quais novas ainda podem ser descobertas?

Gabriela lembra do “ideal” que guia o trabalho de restauração efetivado no Laboratório do MIIS: “Cada filme preservado vai ampliar essa possibilidade da sociedade, especificamente cearense, conhecer a própria história. A base é esse pensamento”, atesta.

Três pessoas sorriem abraçadas em uma praça de paralelepípedos durante uma exibição de cinema ao ar livre no período noturno. Ao fundo, um grande telão exibe um filme clássico em preto e branco diante de uma plateia sentada, sob a estrutura do evento identificada como 'CINE-PRAÇA'.
Legenda: Gabriela Dantas, Kennya Mendes e David Felício (respectivamente, técnica especialista de preservação, diretora-adjunta e técnico especialista de preservação do MIS Ceará) participaram da 21ª CineOP.
Foto: João Gabriel Tréz.

Segundo a técnica, o Ceará já “digitalizado é o da poesia, do cordel, do jangadeiro, da tradição popular, material e imaterial, e que a gente já pode difundir”. A referência é ao trabalho de digitalização também feito no escopo do Laboratório.

A pedido da coluna, o MIS listou 14 filmes já digitalizados pela instituição, além de parte da coleção da TVE (atual TV Ceará) que está no acervo do MIS. Desses, dois já foram restaurados — “Chico da Silva” e “Jangada de Ir e Vir” — e um terceiro está em finalização de restauro — “Reis do Cariri”.

Filmes restaurados e digitalizados pelo MIS Ceará

  • “Chico da Silva” (1976), de Pedro Jorge de Castro
  • “Jangada de Ir e Vir” (1977), de Marcus Vale
  • “Reis do Cariri” (1978), de Oswald Barroso e Carlos Lázaro (em finalização de restauro)

Filmes digitalizados pelo MIS Ceará

  • “O Último dia de Sol” (1999), de Nirton Venâncio;
  • “Um Cotidiano Perdido no Tempo” (1988), de Nirton Venâncio;
  • “Fortaleza, Poesia Anônima”, de Nirton Venâncio e Edvar Costa;
  • “Memória das Águas” (1980), de Nirton Venâncio;
  • “Lira Nordestina - Uma gráfica de cordel”, de Nirton Venâncio;
  • “Homens Trabalhando (Chico da Silva)” (1977), de Hélio Rôla;
  • “Brinquedo Popular do Nordeste” (1977), de Pedro Jorge de Castro;
  • “Tigipió – Uma Questão de Amor e Honra”, de Pedro Jorge de Castro;
  • “A Saga do Guerreiro Alumioso” (1993), de Rosemberg Cariry;
  • “O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto” (1986), de Rosemberg Cariry;
  • “Lua Cambará” (2002), de Rosemberg Cariry;
  • Coleção da TVE, do acervo do MIS CE.

Imagem reproduzida do curta cearense 'Reis do Cariri', de Oswald Barroso, que mostra integrantes de reisado vestindo trajes vermelhos ornamentados e chapéus decorados com espelhos. Eles se inclinam em círculo durante uma apresentação tradicional. Eles utilizam espadas e interagem com uma figura no chão, capturados em um registro com textura cinematográfica antiga.
Legenda: Documentário "Reis do Cariri", de Oswald Barroso, está em processo de restauro a partir de parceria do MIS Ceará com o CTAv.
Foto: Reprodução.

“Quando a gente começa a pensar a preservação audiovisual, a gente entra num campo do conhecimento da cultura visual que possibilita uma série de novos reconhecimentos”, elabora David.

É do acervo da antiga TV que, como aponta o técnico, podem emergir novas imagens e entendimentos do Estado sobre ele próprio. 

A gente vai ver um Ceará que a gente nunca viu: a festa do centenário da primeira abolição do País, em Redenção, uma entrevista da Chica da Silva (filha do pintor Chico da Silva e também artista)…”, lista.

Poder ver como tanto o cinema feito no século passado conta a história do Estado, quanto como “institucionalmente uma televisão narrou o seu presente”, diz o especialista, é uma oportunidade de “estar de frente às nossas contradições, às formas com que a gente se construiu e se filmou”.

*O colunista viajou a convite da 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto

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