Filme dos anos 1970 sobre jangadeiros de Aquiraz é restaurado pelo MIS Ceará

“Jangada de Ir e Vir”, do diretor Marcus Vale, teve exibição na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, voltada à preservação audiovisual.

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: Curta cearense foi exibido na sessão "O Gesto e o Trabalho", da Mostra Preservação da 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Foto: Jackson Romanelli / Universo Produção.

A pescaria em jangada é uma das tradições basilares da cultura do Ceará. Neste sentido, o restauro de um documentário dos anos 1970 que mostra o processo de pesca artesanal de jangadeiros da Prainha de Aquiraz lança luz na memória e na história do Estado.

“Jangada de Ir e Vir”, realizado em 1977 pelo cineasta e professor Marcus Vale, acompanha “um dia de pescaria em jangada” no município cearense, destacando de modo observacional e poético a prática artesanal milenar que resiste ainda hoje.

O curta-metragem foi gravado no formato Super-8 e a digitalização e restauro foram realizados pelo Laboratório de Preservação, Conservação e Digitalização do Museu da Imagem e do Som do Ceará, com apoio do Centro Técnico Audiovisual (CTAv) na restauração de áudio.

A obra foi exibida na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto, que tem como foco a preservação audiovisual e segue até esta terça-feira (30) no município mineiro. A coluna esteve no evento, onde conversou com parte da equipe ligada ao processo de digitalização e restauro do curta.

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Como explica Gabriela Dantas, técnica especialista no restauro digital de imagem do MIS, o título do filme faz referência ao tipo de pesca realizado na região cearense

Ele capta o processo da jangada de ir e vir, acompanha (desde) o momento que eles entram para fazer a pesca. Eles vão, fazem a captura do peixe, preparam o peixe na própria jangada para consumir e voltam com a pesca”, afirma.

Imagem reproduzida do curta cearense 'Jangada de Ir e Vir' (1977), de Marcus Vale, mostra três pescadores a bordo de uma embarcação em alto-mar, com um homem em primeiro plano à direita manuseando o que parece ser uma linha ou equipamento de pesca. Ao fundo, os outros dois companheiros usam chapéus de palha e observam o oceano azul de águas agitadas, capturados em um registro cinematográfico de aspecto antigo.
Legenda: Curta dirigido por Marcus Vale em 1977, "Jangada de Ir e Vir" acompanha um dia de pesca em jangada no município de Aquiraz, no Ceará.
Foto: Reprodução.

David Felício, também técnico especialista no restauro digital de imagem no MIS, destaca o registro como um exemplo da “herança cultural da nossa relação com o mar” no Ceará.

“A jangada que o Jacaré (Manuel Olímpio Meira, um dos jangadeiros cearenses que foi do Ceará para o Rio de Janeiro em uma embarcação do tipo para demandar direitos trabalhistas diretamente a Getúlio Vargas) e os outros jangadeiros vão é de piúba, mas o Marcus Vale filma outra cultura do mar, outro tipo de tecnologia de jangada”
David Felício
técnico especialista de Preservação, Conservação e Digitalização no MIS Ceará

O técnico destaca que a prática é até hoje executada e, também, documentada em vídeos compartilhados nas redes sociais.

“Tem muito vídeo no YouTube de pescadores vivendo um cotidiano de pescaria super semelhante. É muito massa ver semelhança entre um filme da década de 1970 e o que os pescadores de jangada estão fazendo hoje”, aponta.

A diretora-adjunta do MIS Ceará Kennya Mendes reforça a importância do registro histórico em relação à cultura do mar. 

“É a nossa tradição. É muito simbólico a gente estar aqui com esse filme sendo apresentado nesse momento que vai lá no Ceará comemorar a festa de São Pedro (dos Pescadores do Mucuripe, realizada na última segunda, 29, em alusão ao padroeiro)”, relaciona.

“O MIS tem essa prerrogativa, para além da preservação, (de) trazer o Ceará, para o Estado ver o que foi feito, conhecer, a memória viva. Ele tem essa preocupação de trazer a nossa cultura nesse lugar da preservação”, destaca a gestora.

Percursos até um restauro

“Jangada de Ir e Vir” não estava no acervo do MIS Ceará até 2024, quando os originais do curta foram depositados por iniciativa do próprio realizador. Apesar disso, o filme se impôs dentre as obras resguardadas pela instituição por uma série de fatores.

O principal deles diz respeito ao documento que orienta as ações do laboratório: o artigo “O Registro da Cultura Popular no Cinema Cearense”, do pesquisador Firmino Holanda, que lista o curta de Marcus Vale entre 25 trabalhos.

“O artigo deu a condição da gente mapear e identificar filmes que estavam e não estavam no acervo, entender o que a gente precisava prospectar e incorporar ao acervo e, no que a gente já tinha, no que precisava trabalhar”
David Felício
técnico especialista de Preservação, Conservação e Digitalização no MIS Ceará

“A gente já tem algumas películas previamente localizadas com esse interesse tanto da parte técnica, mas também da parte da preservação da memória de tradições gerais no Ceará”, avança Gabriela.

Segundo a especialista, a pesquisa empreendida por Firmino é o “ponto de partida” que orienta as ações de restauro do MIS. “A gente sabe o que quer encontrar, sempre envolvendo a pesquisa, a parte técnica e as políticas públicas, (para) entregar à sociedade, porque ela precisa se conhecer sob o ponto de vista da memória”.

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“O MIS e o laboratório pensam muito o processo de restaurar um filme para preservar e ampliar a possibilidade da sociedade, do Ceará, conhecer a própria história. ‘Jangada de Ir e Vir’, que fala sobre o jangadeiro no cotidiano, (é) outra forma de preservação — da memória visual, oral, diversas formas — numa película”, segue a técnica.

Desafios do Super-8

Segundo os técnicos, o fato do filme ter sido gravado em Super-8 — formato no qual a película tem 8 milímetros de largura — acrescentou “camadas” desafiadoras ao processo de restauro.

Esse formato, explica Gabriela, é “tido no País como uma película amadora, de cotidiano, para gravações do dia-a-dia, familiares”, sendo portanto mais barato. 

“A gente tem uma visão sobre o que foi gravar um filme no Ceará antes de incentivos públicos. As produções que a gente vê fora do Nordeste e do Norte são feitas em 35mm, que é muito mais cara, precisa de um set de filmagem bem robusto. (Super-8) era o recurso que a gente tinha para fazer a filmagem”
Gabriela Dantas
técnica especialista de Preservação, Conservação e Digitalização no MIS Ceará

Além desse aspecto, por ter dimensões menores em comparação às películas de 16mm e 35mm, o Super-8 tem imagem menos detalhada, fazendo com que quaisquer deteriorações ou sujidades maculem uma parte maior da imagem.

Três profissionais da equipe do MIS Ceará estão alinhados no palco do festival CineOP, sendo um homem e duas mulheres. À direita, outra mulher está falando ao microfone enquanto os outros três escutam atentamente. Ao fundo, um grande telão exibe a identidade visual da 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto em tons claros, completando a atmosfera solene e cultural do evento.
Legenda: Equipe do MIS (os três primeiros da foto) apresentou o restauro de "Jangada de Ir e Vir" na 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto.
Foto: Jackson Romanelli / Universo Produção.

“Nossa memória está guardada em Super-8”, define a especialista, citando outro curta basilar da cultura cearense: “Reis do Cariri” (1978), de Oswald Barroso e Carlos Lázaro, que também está em processo de restauro pelo MIS Ceará e é listado por Firmino Holanda.

Outros aspectos ligados ao formato destacados por David dizem respeito ao fato de que o filme precisou ser revelado fora do Estado e que, ao retornar ao Ceará, ficou guardado por décadas com o próprio diretor. 

“Pelo formato ser tido como uma bitola familiar, ele estava com o Marcus Vale na casa dele. Diferente de boa parte do que está no eixo (Rio-SP) — filmes em 16mm ou 35mm que já foram institucionalizados —, a gente, no Ceará, está recebendo um filme Super-8 que ficou 30 anos guardado, preservado (pelo diretor), que agora ganha institucionalização e que a gente consegue devolver ao Estado por conta da política pública”
David Felício
técnico especialista de Preservação, Conservação e Digitalização no MIS Ceará

Finalmente, o técnico destaca o trabalho de som do filme, gravado pelo cearense Rodger Rogério. Para o restauro do áudio, o MIS Ceará teve parceria com o Centro Técnico Audiovisual (CTAv), órgão do Ministério da Cultura vinculado à Secretaria do Audiovisual. O trabalho foi comandado pelo mixador e restaurador de som Alexandre Jardim.

“Nosso scanner digitaliza 8mm, 16mm e 35mm,  mas a gente não faz som de Super-8”, explica David. “Contar com especificidade do tratamento de som foi uma oportunidade ímpar e qualifica a forma de apreciá-lo, assisti-lo”, segue.

Ficha técnica de restauro e digitalização de “Jangada de ir e vir” no MIS-CE:

  • Alan Emmanuel - Recuperação de cor;
  • David Felício - Restauro digital de imagem;
  • Eliene Magalhães - Pesquisa;
  • Gabriela Dantas - Restauro digital de imagem;
  • Camile Abreu - Assistente de Restauro digital de imagem;
  • Gabriel Mendes - Assistente de Restauro digital de imagem;
  • Ítalo Sousa - Assistente de Restauro digital de imagem;
  • Mariano Batista - Assistente de Restauro digital de imagem.

*O colunista viajou a convite da 21ª Mostra de Cinema de Ouro Preto

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