Após ser premiado na Mostra Generation Kplus do Festival de Berlim, o longa-metragem cearense “Feito Pipa” teve a sua primeira exibição nacional na competição do 54º Festival de Cinema de Gramado. No último sábado (15), o diretor Allan Deberton e a equipe do filme subiram ao palco do Palácio dos Festivais, na serra gaúcha, para apresentar a sessão, que comoveu o público e a imprensa especializada com a história de afeto do jovem Gugu por sua avó, Dilma.
A exibição marcou o retorno de Deberton ao festival que, em 2019, consagrou seu primeiro longa-metragem, “Pacarrete”, vencedor de oito prêmios, incluindo os de melhor filme pelo júri oficial e pelo voto popular. Foi a partir da repercussão calorosa em Gramado que o cineasta deu início à trajetória de sucesso da comédia estrelada por Marcélia Cartaxo e rodada em Russas, no interior do Ceará.
Desta vez, Deberton viaja até Quixadá para contar a história de “Feito Pipa”, que estreia no dia 5 de novembro nos cinemas.
Em entrevista ao Diário do Nordeste, Deberton estabelece aproximações entre as tramas de “Feito Pipa” e “Pacarrete”, filmes que lançam um olhar sensível sobre os desafios emocionais enfrentados por mulheres na maturidade.
Segundo o diretor, o novo longa resulta do amadurecimento de propostas narrativas já presentes em suas obras anteriores, incluindo os curtas-metragens, e consolida um cinema autoral que está em construção, mas que vem se afirmando ao longo de sua trajetória.
“‘Pacarrete’ é resultado da experiência dos meus três curtas. Depois veio o longa ‘O Melhor Amigo’, dentro de uma tentativa de aproximação com o gênero musical. Em ‘Feito Pipa’, percebo que trouxe de volta muitos elementos da linguagem de ‘Pacarrete’, seja pelo olhar da personagem Dilma, com a sua irreverência, seja pela idade da personagem e pelos desafios que enfrenta. Como o roteiro também foi trazido pelo André (Araújo), acho que existe ali um sentimento de beber um pouco da fórmula do ‘Pacarrete’”, afirma Deberton.
Infância queer
Em “Feito Pipa”, a conexão entre Dilma, interpretada com brilhantismo por Teca Pereira, e seu neto Gugu, vivido pelo ator mirim Yuri Gomes, traz outros desafios para o diretor. Aos 12 anos, Gugu é um menino criativo que adora jogar futebol e passar tempo com os amigos Enzo e Kelly. Após perder a mãe, encontra na avó seu principal eixo familiar, enquanto enfrenta uma relação difícil com o pai, Batista, interpretado por Lázaro Ramos.
O longa-metragem equilibra, sempre que pode, a ingenuidade do universo infantil com a densidade da dramaturgia sobre famílias fraturadas. Lázaro Ramos traz sua experiência para a composição de um personagem complexo, herdeiro de uma visão masculina tóxica que se acentua quando está diante do comportamento do filho.
Embora marcado pela dureza da discriminação estrutural, seu personagem traz à tona sutilezas que comprovam que não falta amor pelo filho Gugu. Talvez falte, ali, uma possibilidade de recomposição.
Outro destaque de “Feito Pipa” é o trabalho da cineasta Luciana Vieira junto ao elenco infantil, responsável por trazer espontaneidade e, principalmente, o humor necessário para oxigenar a densidade da obra.
“Para mim, a novidade foi o trabalho com as crianças. Por ter filho, eu também já estava ali interessado em fazer mais filmes para que as crianças assistissem. E, por conta disso também, eu propus pequenas modulações para poder fazer com que esse filme fosse um pouco mais aberto para esse público”, afirma Deberton.
Na escola, a rotina do garoto nem sempre é fácil. Diferentemente de seus colegas, Gugu gosta de dançar, se maquiar e se expressar. Sensível, ele atravessa o processo de descoberta de si mesmo, sem pressa, enquanto precisa lidar com o diagnóstico de Alzheimer da avó e com as cobranças de masculinidade do pai.
Os diferentes mundos colidem, e o roteiro, escrito por André Araújo, trata esse personagem com amor suficiente para que ele não seja reduzido a uma mera vítima das circunstâncias.
Razão e sensibilidade
“Feito Pipa” acerta ao propor um pensamento sobre a infância queer como uma experiência legítima, e não como um problema que precisa de correção. Em uma das cenas mais marcantes, o garoto questiona com firmeza a diretora de sua escola se é correto sofrer bullying de seus colegas de classe, mesmo sabendo da resposta. Gugu está sempre vivo em sua própria liberdade, mais do que simplesmente tentando sobreviver.
Originalmente, o roteiro era um filme mais adulto, um filme mais, vamos dizer, transgressor. E já era desafiador demais financiá-lo. Talvez, se a gente conseguisse esse encontro com o público e fizesse com que esse filme fosse mais bem consumido por todas as idades, a gente conquistasse mais sucesso na sua feitura. E eu fiquei muito confortável nesse lugar porque gosto muito de me comunicar com as pessoas.
Deberton define como “desafiador” o gesto de criar um filme que tenha apelo popular, já que, na busca pela ampliação das plateias, muitas concessões acabam sendo feitas. “O ‘Feito Pipa’, e mais recentemente, o ‘A Adoção’ (ainda inédito) foram dois projetos que reafirmaram para mim um lugar de limites, de entender até que ponto eu posso ser acolhido pelo mainstream, pelo lugar mais popular”, explica.
Interessado em oferecer experiências audiovisuais que não apenas entretenham, mas também façam o público refletir, o diretor afirma que seu cinema procura justamente esse lugar de conversa com os espectadores.
“‘Pacarrete’ e ‘Feito Pipa’ são filmes com os quais o público muito facilmente consegue se identificar com um ou outro personagem, seja a Dilma, seja o Gugu, seja o pai. E eu acho isso muito bom porque reafirma o poder do cinema, que é essa sala de terapia. Eu acredito muito no cinema como uma sala de terapia, pelo menos para mim é”, finaliza o cineasta.
Veja trailer internacional de "Feito Pipa"
*Colaboração especial para o Diário do Nordeste do 54º Festival de Cinema de Gramado.