Qualidade técnica de comédias é 'renegada' pela indústria, diz Halder Gomes

Diretor cearense lança “O Shaolin do Sertão 2” nos cinemas na quinta-feira (20).

Escrito por
João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
Legenda: Em "O Shaolin do Sertão 2", Halder Gomes traz Aluízio Li tendo que entrar numa maratona de lutas pelo Interior do Ceará para se reerguer financeiramente.
Foto: Fabiane de Paula.

O cearense Halder Gomes tem sido, há mais de 20 anos, um nome central na tarefa de “dissipar” ares sudestinos e hollywoodianos no cinema brasileiro — para citar a fala do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, que criticou a concentração geográfica na região sudeste da Academia Brasileira de Cinema, no início de agosto.

Para Halder, responsável por comédias de sucesso como “Cine Holliúdy”, “O Shaolin do Sertão” e “Os Parças”, por exemplo, a fala do colega nordestino pode ser alargada para o que chama de “miopia” ou “forma de desprezo” da indústria audiovisual em relação às qualidades técnicas e artísticas de obras do gênero. 

Prestes a lançar “O Shaolin do Sertão 2”, que chega aos cinemas na quinta-feira (20), o diretor destaca o “rigor” de aspectos como montagem, direção de arte, fotografia, som, trilha e atuações da produção. 

“Ele tem os requisitos para competir com condições de igualdade em todas as categorias técnicas e artísticas e, do ponto de vista do olhar da nossa indústria, isso sempre é renegado”, aponta.

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Comédias “à frente do algoritmo”

Halder venceu seis vezes o Prêmio Grande Otelo, sendo quatro na categoria de Melhor Comédia e duas como Melhor Longa por voto popular. Há apenas uma vitória em uma categoria fora da competição do gênero, para Chico Díaz, como ator coadjuvante por “Cine Holliúdy 2: A Chibata Sideral”.

“O que procuro fazer na comédia são filmes que estejam sempre à frente do algoritmo. Estou sempre no frescor da originalidade, da ousadia, do lugar onde o algoritmo não chegou ainda”, elabora o cearense. 

“Isso, obviamente, passa pela essência do que nós temos de melhor, contar do nosso universo, nossa alma, nosso DNA. Quando você tem autonomia para contar histórias sem regras, formatos ou manuais, isso torna os filmes de largo alcance”
Halder Gomes
cineasta

Uma das pré-estreias de “O Shaolin do Sertão 2” ocorreu em Recife e contou com a presença, justamente, do pernambucano Kleber Mendonça Filho, cujo “O Agente Secreto” foi indicado a quatro Oscars em 2026.

“Ele adorou o filme, ficou encantado. Nós falamos dos mundos que conhecemos profundamente, da nossa raiz, das nossas culturas, do que nós fazemos parte, e olha o alcance que isso pode ter”, celebra.

“Só se rompem barreiras se você vier com essa potência. Fico muito feliz em fazer parte disso. ‘O Shaolin do Sertão’ passa na Sessão da Tarde tal qual passava ‘Lagoa Azul’, viramos série na Globo (‘Cine Holliúdy’) em horário nobre sem perder nossa essência. Isso é uma quebra de paradigma muito severa e se deve muito à qualidade técnica”
Halder Gomes
cineasta

Ceará em diálogo com o Brasil e o mundo

O novo filme acompanha Aluízio Li (Edmilson Filho) em uma situação financeira complicada, falido e sem academia. Mesmo parado, ele entra em uma maratona de lutas itinerantes pelo Interior do Ceará para tenta se reerguer.  A produção foi filmada em cidades como Quixadá, Aquiraz e Fortaleza.

Ao mesmo tempo em que mantém aspectos da cearensidade — como o humor, o sotaque e as expressões típicas do estado — nas obras, Halder dialoga diretamente com referências e obras do Brasil e do mundo.

O cineasta Halder Gomes segura uma claquete de cinema com o título 'O Shaolin do Sertão 2' cobrindo parte do seu rosto. Ao fundo, sob o céu ensolarado, destaca-se uma formação rochosa da paisagem sertaneja com o número '2' desenhado em vermelho.
Legenda: Filmagens de "O Shaolin do Sertão 2" incluíram as cidades de Quixadá, Aquiraz e Fortaleza.
Foto: Reprodução / Instagram.

“Shaolin 2” traz inspiração direta na Caravana Rolidei de “Bye Bye Brasil” (1980)de Cacá Diegues (1940-2025), a quem o filme é dedicado — para compor o grupo formado pelas personagens de Priscila Fantim, Marcelo Serrado e Bolachinha.

Há espaço, ainda, para uma feliz coincidência entre “O Agente Secreto” e “O Shaolin do Sertão 2” nas sequências em que os filmes se abrem para elementos de terror envolvendo embates entre personagens e… pernas. 

Na gênese do longa, há também uma conexão direta à tradição do cinema mundial de filmes de kung fu e ação. Cada referência, diálogo e inspiração desafia as ideias de “regional” e “universal”.

Halder Gomes e Edmilson Filho posam juntos ao ar livre em uma área arborizada, ambos fazendo pose com os punhos fechados em riste. Halder sorri usando camiseta preta estampa 'MESTRES', enquanto Edmilson veste uma túnica preta de artes marciais estilo Kung Fu.
Legenda: Halder Gomes e Edmilson Filho travam nova parceria na carreira com o filme.
Foto: Demito e Chico Gadelha / Divulgação.

“O ‘Shaolin’ é essencialmente uma paleta de cor totalmente globalizada. Esse filme é capaz de ser compreendido em qualquer lugar do mundo porque fala de uma cinefilia muito popular que é a dos filmes de ação e artes marciais”, compreende Halder.

O resultado visto na tela, segue o diretor, “é a soma de tudo que a gente absorve ao longo de uma vida em relação à musicalidade, à cinefilia, ao entendimento de paleta de cores”. “Quando a gente olha por esse lugar, vê o quão universal é essa história que acontece ali no interior do Ceará”, sustenta.

O próprio elenco, destaca Halder, é símbolo da pluralidade da obra, indo da participação especial de Lyoto Machida às presenças de Fafy Siqueira, Marcos Veras, Dedé Santana e do elenco cearense, incluindo Falcão, Edmilson Filho e Igor Jansen, para citar poucos.

“É de uma pluralidade tão grande. O que pode ser mais plural do que isso? Esse filme é muito brasileiro, posso dizer. Por mais que as pessoas olhem (e digam) ‘tem muita cearensidade’. Tem, mas talvez seja um filme mais misturado, composto e com mais cores diluídas do que a gente tem visto”
Halder Gomes
cineasta

Bandeira do cinema cearense "fincada"

Segundo dados da Agência Nacional do Cinema, o primeiro “Shaolin” acumulou em 2016 um público de 610.741 espectadores, levando em conta somente a bilheteria de sessões comerciais em salas.

“Hoje, a gente vive uma conjuntura muito diferente, tanto que eu nem sei nem o que esperar”, aponta Halder. Na avaliação do diretor, a experiência da sala de cinema segue “inigualável”, mas há desafios na forma de divulgar uma estreia

Uma produção como ‘Homem-Aranha’, por exemplo. Se gastou US$ 200 milhões (na produção), vão gastar mais US$ 200 milhões (em divulgação). Mas se você faz um filme que custou R$ 10 milhões e tem R$ 1 milhão para lançar, a discrepância é muito grande”, compara.

610.741 espectadores
assistiram a "O Shaolin do Sertão" (2016) segundo a Ancine

O diretor ressalta, também, a importância das políticas públicas para o audiovisual. O primeiro “Cine Holliúdy”, por exemplo, foi possível graças a um edital da Ancine voltado a produções de baixo orçamento — que foi, como todos, “rigorosamente” auditado e fiscalizado, ainda que parte da população propague o contrário.

“Um mero investimento de R$ 1 milhão de uma política pública de edital tornou possível todo esse universo que abriga tanta gente, que alcança e traz tanta coisa linda. É uma política pública de inclusão”, ressalta.

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Apesar das situações desafiadoras que se acumulam no processo de produzir e lançar um filme, Halder reconhece que tem se esforçado para lançar pelo menos um filme por ano como forma de “fincar a bandeira” do cinema cearense no calendário de estreias.

“(Os) filmes tem alcançado boas audiências e se retroalimentam para criar franquias, o que fomenta a indústria, a produção cultural, geração de empregos, revelação de talentos, exposição das nossas locações, atração de novos investimentos”, elenca. 

“Ocupo (espaço no calendário) um momento, daqui a pouco o Allan (Deberton) chega e finca a bandeira, depois chega o Déo Cardoso, Guto Parente, Roberta Marques, e assim a gente vai preenchendo cada vez mais com a nossa produção, identidade e cearensidade”
Halder Gomes
cineasta

“É muito importante consolidar nosso calendário não só para o que o público veja, mas para propagar a produção para que a gente possa trazer mais coisas para o público ver. Essa cadeira produtiva é importantíssima e fico muito feliz de fazer parte dela. Estamos aí na luta, e no próximo ano tem mais”, avisa.

Trailer de "O Shaolin do Sertão 2"

O Shaolin do Sertão 2

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