Zezé Motta celebra 50 anos de ‘Xica da Silva’ e desafia estereótipos de personagens negras
No ar na novela "A Nobreza do Amor" e em cartaz com relançamento do clássico, atriz reafirma a importância do protagonismo negro na arte.
São quase 60 anos desde que Zezé Motta iniciou a carreira profissional como atriz, primeiramente no teatro e na televisão. Foi em 1976, no entanto, que a artista encontrou o papel que a projetaria nacionalmente: a personagem-título em “Xica da Silva”, que valeu a ela prêmio no Festival de Brasília.
“Eu era uma atriz em início de trajetória e não tinha dimensão do impacto que aquele filme teria. O que eu sabia era que estava diante de uma personagem poderosa, complexa, livre e absolutamente fora dos padrões reservados às mulheres negras no audiovisual daquela época”, avalia, em entrevista à coluna.
Completando 50 anos em 2026, a obra dirigida por Cacá Diegues foi restaurada e relançada nos cinemas. Xica, figura histórica e mítica do Brasil do século XVIII, foi escravizada e, depois, adquiriu status singular ao ser alforriada e constituir relação com um rico contratador de diamantes ligado à coroa portuguesa.
No ar em “A Nobreza do Amor”, novela das seis da Globo, Zezé reflete em entrevista sobre os legados do longa de 1976 e o que ainda precisa ser conquistado no que se refere ao protagonismo negro no audiovisual. “Precisamos de narrativas em que personagens negros existam em toda a sua complexidade”, demanda.
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“Divisor de águas” na carreira e no cinema
“‘Xica da Silva’ foi um divisor de águas na minha vida e, de certa forma, também na história do cinema brasileiro”, define Zezé. A obra foi a estreia da atriz como protagonista e veio, historicamente, associada a uma fase pós-Cinema Novo na produção brasileira.
O período em meio à ditadura militar, relembra ela, era “de muitas limitações, mas também de enorme efervescência artística”. “Fazer cinema era um ato de resistência. Existia uma vontade muito grande de contar histórias brasileiras, de falar sobre a nossa identidade e de provocar reflexões, mesmo diante da censura”, afirma.
Com público de mais de 3 milhões de brasileiros na época do lançamento, o filme teve repercussão nacional que, compreende Zezé, rompeu barreiras artísticas e — em especial — simbólicas.
“Para mim, significou também romper uma barreira histórica. Até então, mulheres negras quase nunca ocupavam o centro da narrativa. A protagonista negra, com desejos, inteligência, sensualidade e protagonismo, era algo muito raro”, aponta.
Legados e diálogos com o presente
À luz do aniversário de 50 anos e do relançamento da obra, Zezé sustenta: “Xica da Silva ultrapassou o seu tempo. Ela permanece viva porque continua provocando debates sobre raça, poder, liberdade, representatividade e o lugar da mulher negra na sociedade brasileira. Esse talvez seja o maior legado daquele trabalho”, avalia.
Se, na época do lançamento, o longa “dialogava com um Brasil que vivia sob a censura e a repressão da ditadura”, assistir ao filme hoje, sustenta Zezé, ainda provoca debates e reflexões contemporâneos.
“O filme continua atual porque nos convida a refletir sobre questões que ainda atravessam a nossa sociedade, como racismo, desigualdade, poder e representatividade”, elenca.
“Novas gerações estão descobrindo a Xica e encontrando nela uma personagem forte, livre e provocadora. Esse diálogo entre passado e presente é o que mantém a obra tão importante cinquenta anos depois”
“Por que não uma empresária, doutora, uma mulher bem sucedida?”
Além de ter vivenciado o marco do protagonismo negro no cinema, Zezé também teve papeis na TV que desafiaram estatísticas e o público. Em 1984, por exemplo, ela foi parte do primeiro casal internacional de uma novela, “Corpo a Corpo”, com Marcos Paulo.
Já em 1996, a novela “Xica da Silva”, na qual Zezé também atuou, se destacou pelo protagonismo negro na TV. Exibida na Manchete e com Taís Araújo no papel principal, a produção, no entanto, guarda uma série de problemáticas quanto às representações de violência e nudez.
Atualmente, a veterana compõe o elenco de “A Nobreza do Amor”, que tem elenco majoritariamente negro e é protagonizada por Duda Santos e Ronald Sotto. Apesar das conquistas, Zezé é direta ao afirmar que “ainda temos muita luta pela frente” nas novelas.
“Eu por exemplo, ultimamente só me chamam para fazer personagens como mãe de santo, líder espiritual, matriarca... Por que não uma empresária, doutora, uma mulher bem sucedida em alguma profissão? Uma mulher que vive um romance, que é feliz, que tem posses, bens, poderosa... Não chamam!”
A atriz lembra que, apesar de vermos mais pessoas negras em papeis centrais dos folhetins, “a coisa precisa mudar também nos bastidores, como roteiristas, diretores e produtores”.
“Isso faz toda a diferença. Mas ainda falta que essa presença deixe de ser exceção e se torne algo natural. Precisamos de narrativas em que personagens negros existam em toda a sua complexidade, sem estarem sempre associados à dor, à violência ou aos estereótipos. Representatividade também é poder sonhar, amar, liderar e simplesmente viver em cena”, sustenta.
Zezé reconhece, no entanto, um ganho importante nas tramas recentes: a descentralização geográfica nas novelas. “A Nobreza do Amor”, por exemplo, é ambientada no Rio Grande do Norte e traz nomes da região Nordeste no elenco, como o pernambucano Ítalo Martins (Januário), a baiana Cyria Coentro (Caetana) e o cearense João Fontenele (Bastião).
“O Brasil é um país de muitas vozes, culturas e sotaques, e a nossa dramaturgia fica muito mais rica quando consegue refletir essa diversidade”, defende Zezé — que, em “Xica da Silva”, inclusive, contracena com o cearense José Wilker.
“Valorizar atores de diferentes regiões e respeitar suas origens torna as histórias mais verdadeiras e aproxima o público da realidade do país. É um movimento importante, porque amplia a representação e mostra que o talento brasileiro está em todos os lugares”, destaca.
"Xica da Silva" em Fortaleza
- Quando: sessões sábado (8), às 19h50, e domingo (9), às 16h
- Onde: Cinema do Dragão (rua Dragão do Mar, 81, Praia de Iracema)
- Quanto: R$ 12 (inteira) e R$ 6 (meia)
- Mais informações: no site do Dragão do Mar, no Instagram do Instituto Dragão do Mar ou no Ingresso.com