Santos, coronéis e outros adjetivos: os primeiros recados da campanha no Ceará
Fé, críticas e exaltações no primeiro dia em que os candidatos foram ao encontro dos eleitores na disputa ao governo
O primeiro dia de campanha eleitoral no Ceará terminou sem novidades programáticas, mas com recados sobre o que virá nos próximos 47 dias. Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT), os dois candidatos que realmente disputam o Executivo, cumpriram roteiros quase espelhados, mas o que ficou do domingo (16) não foram as propostas, e sim endereços, santos e adversários que sinalizam as narrativas de campanha.
A largada de 2026 serviu para que cada campanha dissesse onde pretende travar a disputa.
Roteiros da fé
Ciro e Elmano transformaram o primeiro dia quase em uma romaria. O tucano esteve no Horto do Padre Cícero, em Juazeiro do Norte, e em missa na Igreja do Patrocínio, em Sobral. O petista também passou pelo Horto, além da Basílica de Canindé, da estátua de Santo Antônio, em Barbalha, e da imagem de Nossa Senhora de Fátima, no Crato. Na véspera, os dois já haviam estado na mesma missa, no Santuário de Nossa Senhora da Assunção, em Fortaleza.
Por mais respeitável que seja a fé de cada um, a coincidência não é por devoção. Em um Estado onde o eleitorado religioso tem crescido, e diante de pesquisas que apontam a fé como motivo de decisão de voto, nenhum candidato majoritário pode dar margem ao adversário.
Ciro mira em Camilo
O tucano definiu o alvo logo no primeiro pronunciamento. Ao comentar a ação da federação petista que tentou derrubar o apoio da Federação União Progressista à sua candidatura, Ciro acusou a base governista de tentar "melar o jogo de forma golpista" e de interferir no Judiciário para supostamente servir ao que chamou de "novo coronel do Ceará".
Camilo Santana (PT) não deixou a provocação sem resposta. Para ele, a fala teria ocorrido por "desespero". O senador lembrou que foram os dirigentes partidários que acionaram a Justiça e devolveu a acusação: coronel seria quem acha que manda no Ceará.
Palavras à parte, o dado político relevante não é a troca de adjetivos. É a confirmação de que Ciro escolheu disputar contra o senador, e não contra o governador candidato à reeleição.
Cid responde ao irmão
A briga familiar também voltou aos palanques e será narrativa nesta campanha. Cid Gomes (PSB) foi questionado no Cariri sobre a incoerência de não apoiar o próprio irmão. E disse: "Será que o Ciro vai votar em mim para senador? Acho que não, vai votar nos candidatos dele". Completou dizendo que está há décadas do lado que entende como certo, que não foi ele quem mudou de lado e que não é ele quem deve explicações.
Ciro não respondeu, mas divulgou vídeo pedindo votos para um dos candidatos da chapa, Alcides Fernandes.
Elmano cola em Lula, Ciro evita o palanque nacional
Elmano abriu a campanha na periferia da Capital cercado por Camilo Santana, Cid Gomes, Luizianne Lins (Rede), Gabriella Aguiar (PSD) e Evandro Leitão (PT), e mandou o eleitor olhar para "o que o país tem melhorado com o presidente Lula". Luizianne foi além e evocou o bolsonarismo como ameaça. A nacionalização do debate ficou clara.
Ciro fez o caminho oposto. Questionado sobre a frase do presidente, respondeu "nada". Questionado sobre a disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), não comentou. Com PL na chapa e liderança nas pesquisas estaduais, o tucano tem interesse evidente em manter a eleição cearense fora do eixo nacional.