Proteína: nem vilã, nem excesso. O que realmente importa é qualidade, equilíbrio e orientação
Escrito por
Maria Alice Oliveira
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Legenda:
Maria Alice Oliveira é engenheira de alimentos
Nos últimos anos, a proteína ganhou protagonismo nas conversas sobre alimentação. Seja nas academias, nas redes sociais ou nas prateleiras dos supermercados, o nutriente passou a ocupar um espaço de destaque nas escolhas do consumidor. Esse movimento tem um lado positivo: ele demonstra maior interesse das pessoas por saúde, composição corporal e envelhecimento mais saudável.
No entanto, como todo tema que ganha popularidade, surgem também simplificações e excessos. E é aqui que precisamos trazer equilíbrio ao debate.
A proteína é, sem dúvida, essencial para o funcionamento do organismo. Ela participa da formação e manutenção dos músculos, tecidos, enzimas, hormônios e do próprio sistema imunológico. Mas isso não é sinônimo que “quanto mais, melhor”.
De acordo com o que aponta a literatura científica e diversos estudos na área de nutrição, incluindo as Dietary Reference Intakes (DRI), adultos saudáveis necessitam, em média, cerca de 0,8 g de proteína por quilo de peso corporal ao dia. Esse valor pode variar entre 1,0 g e 1,6 g/kg, dependendo do nível de atividade física, da idade e dos objetivos individuais, como ganho de massa muscular ou preservação de massa magra no envelhecimento.
Ou seja: a necessidade existe, pode aumentar em alguns contextos, mas não é ilimitada.
O problema começa quando o consumo passa a ser guiado por modismos ou metas genéricas, sem considerar individualidade, rotina alimentar e acompanhamento profissional. O excesso crônico pode gerar desequilíbrios nutricionais, especialmente quando há redução da ingestão de outros grupos alimentares importantes, como fibras, vitaminas e minerais.
Outro ponto fundamental, e muitas vezes negligenciado, é a qualidade da fonte proteica.
Proteínas como a caseína (proteína do leite) e o whey protein (proteína do soro do leite) são consideradas de alto valor biológico porque possuem todos os aminoácidos essenciais em proporções adequadas e apresentam alta digestibilidade.
O whey protein, por exemplo, é reconhecido por sua rápida absorção e pelo teor significativo de aminoácidos de cadeia ramificada (BCAAs), importantes para a recuperação muscular. Já a caseína tem digestão mais lenta, contribuindo para oferta gradual de aminoácidos ao longo do tempo.
Essas características tornam essas proteínas aliadas estratégicas quando inseridas em um plano alimentar estruturado. Mas é importante reforçar: suplementos e produtos proteicos não substituem uma alimentação equilibrada, eles complementam quando há necessidade identificada.
Vivemos um momento em que a informação circula com rapidez, mas nem sempre com profundidade. Tratar a proteína como vilã é tão equivocado quanto promovê-la como solução universal.
O caminho mais seguro é o da orientação individualizada. Contar com o acompanhamento de um profissional de saúde — como o nutricionista — é fundamental para avaliar necessidades específicas, objetivos, histórico clínico e rotina alimentar antes de recomendar ajustes na ingestão proteica. Em determinados casos, o suporte de médicos especialistas, como nutrólogos e endocrinologistas, também pode ser necessário para uma abordagem completa e segura.
Mais do que discutir excesso, precisamos discutir consciência. A proteína não é vilã, mas também não deve ser consumida sem critério.
Como indústria de alimentos, entendemos que nosso papel vai além de oferecer produtos. É contribuir para um debate baseado em ciência, qualidade e responsabilidade nutricional.
No fim das contas, a equação é simples: proteína certa, na medida certa e com orientação adequada.
Maria Alice Oliveira é engenheira de alimentos