O ciclo invisível da violência contra meninas e mulheres: Do bullying ao feminicídio
Os dados da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, recentemente, divulgados pelo IBGE revelam um cenário preocupante: aproximadamente, 40% dos adolescentes (13 a 17 anos), no Brasil, sofreram bullying na escola. No entanto, há uma informação, nas entrelinhas, que escancara uma realidade deprimente: como sempre, o maior alvo da(s) violência(s) sofridas são as meninas. Isso marca um ciclo invisível e vicioso de perpetuação da violência contra as mulheres.
De acordo com essa pesquisa, o bullying é o fenômeno mais denso. Revelando que quase 4 em cada 10 estudantes (39,8%) sofreram esse tipo de violência, com 27,2% relatando episódios repetidos. As principais causas citadas foram aparência do rosto/cabelo (30,2%), aparência do corpo (24,7%) e cor ou raça (10,6%). Como é de se esperar, as meninas são as mais afetadas (43,3%) se comparado aos meninos (37,3%). Na mesma linha, o Cyberbullying, por sua vez, atinge 1 em casa 8 adolescentes (12,7%,) afetando, mais uma vez, as meninas, num percentual de 15,2%.
Os achados apontam para três características recorrentes: tristeza, baixa autoestima e autoagressão. De modo que 29% dos jovens sentem-se tristes “sempre" ou "na maioria das vezes", chegando a 41% entre meninas. A satisfação com o próprio corpo caiu de 70% (2015) para 58% em 2024. As alunas apresentaram autoavaliação negativa da saúde mental em 22,9% contra 6,8% dos meninos. Além disso, cerca de 100 mil estudantes relataram lesões autoprovocadas no último ano.
O quadro revela uma problemática muito perspicaz: a saúde mental dos jovens, de modo geral, merece, de fato, atenção especial de toda a rede protetiva; no entanto, é urgente traçar uma nova rota para proteger as meninas do Brasil. Hoje elas sofrem desde a infância com o abuso e violência sexual; na fase escolar, vivenciam a intimidação sistemática através do bullying e cyberbullying, na vida adulta, são marcadas pelo assédio moral e feminicídio. Esse ciclo não pode se perpetuar. Precisamos, urgentemente, repensar os mecanismos de proteção das meninas e mulheres, sob pena de levarmos todos a marca de um país misógino e irresponsável.
Antonio Neto é professor