Talentos cearenses se destacam no eSports nacional e conseguem mudança de vida
Estado vem ganhando destaque no Brasil por revelar grandes nomes do esporte; Atletas reclamam que ainda falta apoio
Um passatempo que se transformou em atividade e hoje é uma das tendências do mercado mundial. Assim começa a ascensão dos eSports, a prática profissional de jogos eletrônicos em competições. Em 2021, por exemplo, a indústria de games faturou US$ 1,08 bilhão (cerca de R$ 5,45 bilhões), segundo um estudo da empresa Newzoo. E o Estado do Ceará é um dos grandes celeiros desses talentos, nos últimos anos o estado vem ganhando destaque no Brasil por revelar grandes nomes do esporte.
O modelo de negócio se consolidou, principalmente através dos streamings, responsáveis por transmitir partidas virtuais e gerar conteúdo online em vídeo. Assim, se popularizaram Free Fire, CS:GO, Dota 2, League of Legends, Rainbow Six Siege, Fortnite e tantos outros games virtuais.
Da terra alencarina, inúmeros gamers ascenderam nacionalmente, construíram carreira e se tornaram referência. O caminho do sucesso é o sonho de uma imensidão, da massa de fãs que buscam a luz. Em 2019, o Brasil estava em 3º no ranking de países com mais views para os eventos de eSports.
Aos poucos, o modelo transforma vidas. Da tela virtual, um impacto na realidade. Até 2024, a Newzoo projeta US$ 1,6 bilhão (em torno de R$ 8,07 bilhões). E ainda faltam iniciativas para fortalecer o cenário cearense, com a necessidade dos gamers migrarem do Estado para ascender.
Caminho dos gigantes
Um dos maiores nomes do eSports nacional, o cearense João Victor Façanha, o “Jota”, tem um recado direto aos que sonham em chegar longe da modalidade: “nunca desistir, acreditar, nem que precise esperar meses, e, hoje, sair do Ceará, porque precisamos buscar mais nossa valorização”.
Com 24 anos, o streamer mora no Rio de Janeiro-RJ e faz parte da equipe Los Grandes, um time de Free Fire, que tem sede em Campinas-SP. A carreira foi iniciada após uma viagem aos EUA, quando recebeu uma bolsa de estudos pela habilidade no futebol. Depois de três anos, retornou ao Brasil e focou na saúde mental - o tempo no exterior foi árduo. Assim, iniciou nos games e logo se firmou.
Ainda jovem, se transformou em um dos maiores treinadores de Free Fire do Brasil, conquistando diversos títulos. Hoje, caminha para expandir a bolha dos eSports e focar em transmissões virtuais. Só que mantém o sonho de ajudar a revelar mais cearenses para o ambiente competitivo mundial.
“Tudo acontece a partir do momento em que há uma oportunidade de se profissionalizar. É a partir do momento de ter uma chance, para criar um plano de carreira, um projeto, um objetivo. Hoje, é um cenário difícil porque tem muita gente tentando, são muitos competidores. Eu sempre converso com representantes do Ceará, quero montar um projeto social para dar oportunidade aos jovens, em Fortaleza, no Eusébio, tenho esse sonho, mas falta apoio, construir conexão e networking”, disse.
Entre todas as plataformas digitais Jota soma um milhão de seguidores. A evolução ocorreu no ápice da pandemia de Covid-19, entre 2020 e 2021, momento crescente nos eSports.
Um outro bom exemplo de grande destaque nacional é Fábio Santos, mais conhecido no mundo gamer por Baiano TV. Filho de cearenses de Missão Velha, o streamer mudou de vida de forma repentina graças ao jogo Free Fire.
Através dos vídeos, recentemente, Baiano comprou um terreno com dinheiro do trabalho de produtor de conteúdo.
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Como ganhar dinheiro nas lives?
Assim como a maioria dos gamers que produzem conteúdo nas plataformas Facebook, YouTube, Twitch e Instagram, Fábio recebe moedas digitais dos espectadores, além de valores por visualizações nos vídeos.
Além disso, Baiano possui contratos com a plataforma Twitch e com um time de e-sport Furia. A maioria dos streamers precisa realizar um determinado número de horas em transmissão para receber um valor mensal pela produção de conteúdo.
Força do mercado
O apelo ao incentivo, reconhecimento e maior visibilidade no Ceará existe também das entidades que organizam o eSports estadual. Presidente da União Cearense de Gamers, Izequiel Norões reforçou o desejo pela regulamentação dos cybers atletas, função não reconhecida como profissão.
Em maio de 2019, por exemplo, a associação participou de uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Ceará para debater o crescimento dos esportes eletrônicos e o potencial dessa área.
“No Brasil, temos uma preocupação com a regulamentação. Existem federações, mas não há ainda uma organização, nem todos consideram os cyber atletas como uma função, e nós trabalhamos para viabilizar isso porque há muitas pessoas, jovens inseridos nesse universo, e que podem ser explorados em uma rotina muito desgastante, sem auxílio psicológico, de saúde, então temos de quebrar esses paradigmas. Os produtores de conteúdo também devem ser analisados como profissionais. No Brasil, existem diversas equipes para gamers, times reconhecidos mundialmente, com investimento, milhões de seguidores, de muita visibilidade, e temos de adequar essas situações aos que competem no cenário", explicou o também professor de Jogos Digitais.
Estruturação
Para além do âmbito da legislação, os espaços de treinamento também são necessários como suporte dos novos talentos. Isso porque a vida útil de um profissional é curta no competitivo. A União Cearense de Gamers aponta que, a partir de 25 anos, o cyber atleta já é considerado fora da faixa em algumas modalidades, conseguindo estender até os 30, a depender do estágio de exigência.
“Temos pouquíssimas iniciativas de apoio no Ceará, com foco nos cyber atletas, até com espaços de treinamento. Hoje, não há quase nenhum espaço de treinamento, de dedicação e formação em prol dos eSportes. Na Bahia, na Arena Fonte Nova, por exemplo, lançaram um espaço dedicado aos games. Aqui, não conseguimos ter isso, falta incentivo e políticas públicas e privadas. São poucos caminhos, comparados com Sul e Sudeste, o que favorece essa migração", destacou Izequiel.
A entidade faz um trabalho de conscientização e apoio, com organização de eventos competitivos, contato com cyber atletas, definição de calendário, além de lives informativos e de discussão.
Os primeiros passos
A entrada no mercado digital de eSports não há fronteiras. O caminho para o sucesso é trilhado por muitos, na resiliência em prol do reconhecimento. E do Ceará surgem esses sonhadores. Da Granja Portugal, um ex-marceneiro utiliza hoje a produção de conteúdo como renda da família e já atingiu 6 milhões de visualizações com um vídeo no TikTok, recriando um dos itens do game Free Fire.
Essa é a história de José Feitosa, de 27 anos. Trabalhando com a produção de móveis na Messejana, sempre manteve a veia criativa no trabalho, montando corações e cofres como hobbie, além do verdadeiro dever: guarda-roupa, mesas e etc. No intervalo do almoço, conheceu os eSports.
"Era um passatempo. Nunca tive o costume de jogar nada, nenhum jogo, e um amigo da marcenaria me apresentou o Free Fire. Não tinha um bom celular, aí baixei no celular da minha esposa. Com o tempo, conheci esse universo e comecei a me dedicar. Depois da pandemia, fiquei com medo de ir para a marcenaria, tinha pessoas de risco na minha família, tem a distância, então não fui mais para a marcenaria, precisava de renda e comecei a me interessar pelo espaço das lives”, relatou.
@jose_feitosaa #fy #viral #viraliza #freefire #freefire_lover #oscriasnotiktok #freefirethofficial ♬ Surrender - Natalie Taylor
Acompanhando cyber atletas e streamings, surgiu a percepção de que era possível mudar de vida. Com o canal Triturando_FF, Zé pensou em unir as habilidades manuais com o jogo e buscou reproduzir itens na vida real. Sem investimento, criou acessórios de gravação através de canos, vassouras, e ainda utiliza produtos recicláveis para as criações, apresentadas com os vídeos.
"Eu vi um influencer tratar dos dentes, ficar famoso, e eu tinha um problema dentário, então pensei em buscar um tratamento pra mim, investindo nos eSports. Assim, comecei a gravar em 2021. Na verdade, eu não sabia nem mexer no celular, foi tudo por engano, acabei acionando a live sozinho, então fiz uma brincadeira no TikTok. Assim, comecei. Já consegui ganhar 5.000 presentes em uma live. Depois, fiz vídeos, não só jogando, mas fabricando mesmo, itens do Free Fire", detalhou.
@jose_feitosaa Tou fazendo meu próprio estúdio com material reciclável 🤩#freefire #diy #dicas #tutorial #ideiasincriveis ♬ Shy Guy - Rosie Delmah & Conkarah
O primeiro contrato profissional de produção de conteúdo foi assinado no último mês. O sonho é auxiliar a família com os conteúdos e também migrar para outras modalidades, tentando contato com os nomes do cenário através das redes sociais. “Hoje, meu sustento é o conteúdo”, concluiu.
Abaixo, o gráfico da empresa Newzoo mostra as projeções financeiras do esporte ao longo dos anos. Confira: