Irmãos Raffael e Ronny brilham no Velho Continente

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Raffael brilha no Hertha Berlim, da Alemanha. Já Ronny é o lateral-esquerdo do Sporting, de Portugal


Para quem acha que começar no mundo do futebol é difícil, Raffael Caetano de Araújo e Ronny Heberson Furtado de Araújo são capazes de mostrar que essa regra tem, sim, exceções.

Para eles, que conseguiram a proeza de seguir suas carreiras na Europa sem sequer passar por clubes cearenses, as coisas foram acontecendo quase que naturalmente.

Raffael, pelo Hertha Berlim, da Alemanha, e Ronny, pelo Sporting Lisboa, de Portugal, não escondem a satisfação pelo rumo que suas carreiras acabaram tomando.

O meia-atacante Raffael, por exemplo, que hoje se diz muito bem onde está, recorda que, após uma passagem pouco feliz pelo Vitória da Bahia, ainda pelas categorias de base, na década de 1990, retornou ao Estado do Ceará para jogar futsal pelo clube AABB.

Foi quando surgiu a oportunidade de ir para o Juventus, de São Paulo, onde, afirma, as dificuldades não foram pequenas. Em apenas um momento Raffael afirma ter pensado em desistir de se profissionalizar. ´Uma vez, atrasaram três meses de salário. Antes, no clube, tinham todas as categorias de base e eles resolveram acabar com elas, ficando só a de juniores e o profissional. Mandaram todo mundo embora. Ali, foi ali que pensei em desistir. Na época, chegou até a faltar dinheiro para o lanche´, relembra, com emoção. O atleta diz que, se não fosse a boa vontade da alguns diretores do clube, poderia ter sido pior.

Proposta irrecusável

´Por incrível que pareça, quando eu estava nessa fase difícil que surgiu a oportunidade de ir para a Suíça. Quando eu recebi a proposta, nem pensei´, conta Raffael. Ele se refere à proposta que recebeu, em meados de 2004, de jogar na segunda divisão do futebol suíço. O clube era o Chiasso, e, por lá, seus 15 gols logo na primeira temporada chamaram a atenção dos clubes da elite do País. Na temporada 2005/2006, já estava no Zurich, onde viria a ser bicampeão nacional.

O jogador diz que na Suíça as coisas enfim se estabilizaram. Mas isso não sem antes se assustar um pouco com a falta da família e do clima brasileiro. ´Quando cheguei ao terceiro dia lá, pensei em voltar´, relembra. Após esse início complicado, Raffael afirma que só precisou se adaptar em relação ao frio e à língua.

Após um banho de cultura suíça, quando aprendeu um pouco de alemão e a falar um italiano fluente, Raffael se transferiu para o Hertha, no início de 2008. Mas só ganharia mesmo seu espaço a partir do meio do ano, ocasião em que disputou toda a temporada 2008/2009, marcando dez gols e ajudando o clube a brigar pelo título da Bundesliga até o final, quando terminou em 4º lugar na classificação.

O meia-atacante disse que não teve dificuldades em se adaptar ao estilo de jogo alemão, atuando onde seu técnico, Lucien Favre, determina e de acordo com o esquema adotado. Raffael se diz capaz de atuar em três posições; meia-esquerda, pelo meio e ainda como centroavante, mas prefere, sem dúvida, a última delas.

Sobre sonhos, os de Raffael não difere daqueles de outros jogadores: ´quero chegar à Seleção´. Mas emenda: ´por enquanto, quero ganhar alguma coisa pelo Hertha´. O atleta tem contrato com os alemães até 2012 e espera cumprí-lo.

Entretanto, Raffael revela um outro objetivo: atuar por um clube brasileiro. ´Meu time de coração é o São Paulo, mas qualquer outro grande do Rio, ou do Sul, está bom´, diz, acrescentando não ter preferência entre os clubes cearenses.

Pouco rodado

O irmão de Raffael, o lateral-esquerdo Ronny, de 23 anos de idade, atuou em apenas dois clubes na carreira: o Corinthians paulista e o Sporting, de Portugal.

Ele demonstra uma certa mágoa com os clubes cearenses. Quando perguntado se tinha alguma preferência por um time local, Ronny é categórico: ´não queria falar de nenhum clube, porque nenhum deles deu muita oportunidade para a gente (ele e o irmão)´, responde. No entanto, deixa escapar, em seguida, que tem uma certa preferência pelo Leão. ´Se for para jogar aqui, prefiro o Fortaleza´, revela.

Os dois atletas concordam que provavelmente deram sorte em não terem passado por clubes cearenses. ´Se eu tivesse ficado aqui, nem sei o que seria hoje´, critica Raffael. O irmão não deixa por menos: ´Os clubes daqui não valorizam suas categorias de base. Tem muitos jogadores que começaram por aqui e, desculpa a palavra, ´morreram´ no futebol cearense´, dispara o lateral.

Perto das estrelas

Os dois jovens jogadores já estiveram frente a frente com estrelas do futebol mundial, mas é Ronny quem tem as lembranças mais marcantes, especialmente sobre a Liga dos Campeões da Europa, que disputou na temporada 2007/2008.

´Me emocionei quando soube qual seriam os times que a gente enfrentaria: Manchester (United), Roma, Bayern de Munique. ´Caramba´, pensei, ´vi esses caras na televisão e agora vou jogar contra eles´, diz.

O jogador tem uma recordação especial do jogo contra o Manchester United, quando marcou nada mais, nada menos que Cristiano Ronaldo.

´Saiu lá uma matéria dizendo que o ele ia passar por cima de mim, mas, graças a Deus, acho que joguei muito bem. O pessoal no jornal depois me elogiou bastante´, comenta.

FAMÍLIA SÓLIDA

Pai das revelações é o grande incentivador


Para Raffael e Ronny, o relacionamento com o pai, o ex-lateral do Fortaleza, Caetano, não poderia ser melhor. Antes de jogar contra - e ter de marcar - o astro Cristiano Ronaldo, Ronny lembra com carinho a importância da intervenção do pai para que ficasse bem concentrado diante da responsabilidade. ´Ele conversou comigo, me deixou tranqüilo e ficou tudo bem´, relata.

Já Raffael conta que é Caetano quem os ajuda na árdua tarefa de se manterem em forma durante as férias deles. ´Uns dez dias antes de voltar, a gente costuma fazer treino físico e com bola na praia´, diz o atleta, que está de férias, junto com o irmão, até o final do mês, na Capital cearense.

Aos 45 anos (declarados), Caetano, que parou de jogar em 1996, atuando pelo Calouros do Ar, diz que a sensação de ver os dois filhos vencendo no futebol só reserva bons sentimentos. ´Para mim é uma emoção muito grande, como pai, como incentivador da carreira deles. Eu e a mãe deles sempre batalhamos para que os dois tivessem um futuro melhor´, comenta Caetano.

O velho lateral tricolor hoje mora numa confortável casa, no bairro Alagadiço Novo, em Fortaleza, com a esposa e mais dois sobrinhos. Quando os filhos vêm à Capital, a casa fica sempre lotada de familiares e amigos. Com relação às amizades no mundo do futebol, Caetano ressalta que faz questão de avisar sempre aos filhos que é preciso cuidado.

´A gente (ele e a esposa) sempre teve o cuidado de orientar como era o passo a passo, pois a gente já tem uma grande vivência no mundo do futebol. E nós sabemos que aparece todo tipo de pessoa. E a gente não pode saber com quem está lidando. Mas eles são, modéstia à parte, bem orientados. Eu converso muito com eles, para que lá na frente eles não digam: ´papai não avisou´´, argumenta.

No mesmo sentido, Caetano informa que sempre acompanhou a relação de seus rebentos com os empresários do esporte, pessoas que nem sempre são confiáveis. ´Uns pagam pelos outros. Mas, felizmente, os dois tem bons empresários. A gente os conhece pessoalmente e sempre tenta acompanhá-los de perto. Se tem contrato para fazer, eles vêm e dizem como é que vai ser´, explica.

Sonhos

Questionado sobre a realização de anseios refletidos nos filhos, Caetano revela: ´o meu sonho seria que eles chegasse à Seleção. Seria um milagre de Deus, porque hoje no Brasil existem muitos jogadores bons´.

Incentivador incondicional dos dois jovens talentos, o pai afirma que nunca seria capaz de pensar em tirá-los do caminho que escolheram. Mesmo diante das inevitáveis dificuldades que podem surgir.

´Eles já nasceram com a genética da bola. Jamais eu iria pedir para eles pararem´, diz.

Ensaboado

Caetano não esconde sua satisfação com o sucesso de Raffael e Ronny. Porém, quando questionado sobre sua condição financeira, o veterano é ensaboado na resposta. ´A minha vida foi de muita batalha e hoje a gente está batalhando ainda para comer o feijão do dia-a-dia, vivendo como Deus quer. Eles conseguiram um destaque no futebol e nos ajudam bastante. São uns meninos de ouro e têm batalhado para dar uma condição melhor à família´.

Também foi perguntado a Caetano se os filhos seriam melhores do que ele com a bola no pé. O ex-atleta foi curto e grosso: ´sem comparação. Não chego nem aos pés deles!´.

Pery Negreiros
Especial para o Jogada