Bastidores do Castelão: Fortaleza com claros problemas no campo e Enderson cada vez mais tenso

Assistindo ao jogo presencialmente, pude perceber alguns conceitos do técnico Enderson Moreira. Porém, equipe apresenta, também, problemas evidentes e que precisam ser corrigidos rapidamente

Legenda: Yago Pikachu fez sua estreia com a camisa do Fortaleza nesta terça-feira (23)
Foto: Kid Jr.

Dentre diversas consequências nefastas, a pandemia da Covid-19 tirou, do futebol, seu elemento essencial. O torcedor não pode mais acompanhar jogos do seu time do coração no estádio e, consequentemente, a televisão torna-se o único meio possível de assistir as partidas. Para nós, jornalistas, a realidade também vale. Por impossibilidade de ir em todos os jogos presencialmente, as análises também devem ser feitas com o que vemos pela telinha.

Porém, a derrota do Tricolor por 1 a 0 para o Santa Cruz, na noite da última quarta-feira (23), foi a primeira oportunidade que tive de assistir, presencialmente, ao time comandado por Enderson Moreira. Pude, então, enxergar o Fortaleza além da televisão.

De cara, já adianto: é possível ver algumas ideias do treinador. Mas é preocupante a forma como a equipe se porta em campo e executa estas ideias, sendo incapaz de vencer o único time que, até então, havia perdido os quatro jogos anteriores na Copa do Nordeste.

Percepções do time

luiz henrique
Legenda: Luiz Henrique, muito marcado, não conseguiu dar sequência às jogadas
Foto: Kid Jr./SVM

A visão geral do estádio permite observar detalhes, como o comportamento coletivo da equipe e algumas ações individuais. O Fortaleza de Enderson Moreira tem algumas ideias e conceitos perceptíveis.

Isso não quer dizer que eles sejam necessariamente os melhores e, muito menos, que sejam bem executados. Este tem sido, aliás, um dos principais problemas da equipe. 

Mas é fato que há algumas ideias existentes, como a busca por valorização da posse de bola e de um jogo que aposta mais nos ataques posicionais que em transições;

Taticamente, a saída de bola com três defensores (Bruno Melo fazendo o zagueiro pela esquerda); a liberdade para o lateral-direito ficar espetado na ponta (o estreante Pikachu fez bastante isso); o extremo do lado oposto também espatado (David), a circulação da bola de um lado pro outro, com busca por inversões rápidas para encontrar o homem-livre; a presença de um '9' de referência para dar profundidade.

Repito: o problema é que boas ideias (teoria), sem boa execução (prática), não adianta.

Velhos problemas

Enderson Moreira cabisbaixo na beira do campo
Legenda: Técnico Enderson Moreira não fez o Fortaleza desencantar e deixa o clube
Foto: Kid Junior

E aí estão algumas falhas. O Fortaleza apresenta alguns problemas que não são novos. Os dois volantes possuem papel fundamental de qualificar o início das jogadas, e fazem isso em alguns momentos, mas falham em outros. O meia-central fica muito sobrecarregado (Luiz Henrique foi este jogador) e a bola não chega no ataque.

Mesmo com posse de bola e contra um adversário de linhas muito baixas, há imensa dificuldade de infiltrar no último terço do campo. O time roda muito a bola entre os jogadores de defesa, de um lado pro outro, mas não consegue verticalizar o jogo. Há pouquíssima criatividade e capacidade de furar as linhas do adversário, com muitos passes errados. Os próprios defensores erram passes bobos.

A verdade é que o Fortaleza foi um time que se prendeu facilmente às teias da marcação pernambucana. Previsível, não apresentou algo de diferente para surpreender.

Em alguns momentos, a equipe se desorganiza do padrão. Sem a bola, a marcação não está bem ajustada e dá espaços aos adversários. Isso é algo que precisa ser corrigido urgentemente com treinamentos.

O frágil Santa Cruz atacou pouquíssimo. Mas também não foi incomodado como deveria, num confrontro entre um time da Série A e outro da Série C, com investimento e elenco bem inferiores.

A dúvida é se Enderson Moreira será capaz de corrigir tudo isso em pouco tempo e tendo que conciliar também bons resultados o mais rápido possível.

Extra-campo

marcelo paz
Legenda: Marcelo Paz mantém postura serena assistindo aos jogos. Mesmo assim, perde a paciência com a arbitragem às vezes
Foto: Thiago Gadelha/SVM

Nas quatro linhas, o Fortaleza parecia ser um pouco do reflexo extra-campo. Enderson Moreira se mostrava visivelmente tenso na área técnica. Inclusive chegou a discutir rispidamente com João Brigatti, treinador do Santa.

Outros membros do clube, como dirigentes e funcionários, que acompanharam a partida no Setor Premium da Arena Castelão, jogaram junto o tempo inteiro. Gritaram, xingaram, reclamaram (MUITO) da arbitragem, sobretudo com a não-marcação do pênalti quando a bola bateu no braço de Júnior Sergipano.

"Não reclamo nunca mais da arbitragem da Série A", disse Júlio Manso, supervisor de futebol do clube. O próprio presidente Marcelo Paz, sempre mais comedido, perdeu a paciência em alguns momentos.

E demonstraram, também, certa apreensão com o desenrolar de mais uma atuação ruim do Leão do Pici. Ao apito final, o clima era de desolação total. A insatisfação ficou evidente entre os presentes, e somente boas atuações daqui pra frente irão mudar isso.

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