Cacilda Vilela: conheça a estilista cearense que defendia a liberdade feminina na década de 1970

Inquieta, a estilista Cacilda Vilela expandiu sua arte para fora das passarelas e alcançou a Cidade nas décadas de 1970 e 1980. A liberdade feminina foi bandeira defendida pela expressão da cearense

Escrito por Rômulo Costa romulo.costa@verdesmares.com.br
24 de Março de 2019 - 22:00 (Atualizado às 08:14, em 25 de Março de 2019)
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Legenda: As criações da estilista não ficavam apenas nas passarelas e ganhavam as ruas da Cidade em performances inventadas pela cearense

Eram meados da década de 1970, em plena ditadura militar, quando um carro de boi, enfeitado com fitas coloridas e galhos de bougainville, irrompeu o silêncio de um fim de tarde de domingo na Aldeota. Atrás dele, um cortejo de quatro homens (um índio, um asiático, um negro e um branco) e 30 hare krishnas acompanhavam a passagem enquanto duas mulheres, vestidas com retalhos de tecido amarrados ao corpo, acenavam para os curiosos em cima do veículo – uma espécie de carroça futurista e sertaneja para protestar contra a “caretice” daqueles anos.

A concepção da performance, que virou motivo de cochichos entre os visitantes da antiga feirinha da Praça Portugal, foi da estilista Cacilda Vilela (1955 – 2013). Inquieta com seu tempo e inconformada com o conservadorismo, ela não se limitava a se expressar apenas pelos tecidos e nas passarelas. Por isso, a moda nunca foi suficiente para a artista. Pela própria natureza, ela avançou em uma investigação sobre a expressão do feminino. Fez figurinos para espetáculos de teatro e dividiu o tablado com os atores, costurou roupas para músicos e dançou com eles em performances que encantavam nos palcos.

Questionadora de todas as lógicas, Cacilda não se resignava com a possibilidade de viver presa aos padrões. Quebrava todos os que conseguia em qualquer uma das posições que ocupava no mundo. Como estilista, trazia para muito perto discussões que, naquele período, beiravam o absurdo, como a construção de uma moda que alcançasse todos os corpos e respeitasse a natureza e a sustentabilidade. Já na década de 1970, trazia uma discussão que hoje começa a ganhar atenção no universo da moda.

Cacilda Vilela também desafiava os limites do machismo quando se permitia viver livre em uma época em que ser modelo e dançarina era sinônimo de “mulher da vida”; ou que se apresentar na sociedade com a barriga de gestante era motivo de muxoxos e desagravos públicos.

“Para mim, ela era a resistência de ser uma mulher chiquérrima e que tinha a necessidade de se expressar de uma forma gloriosa, de colocar o peito pra fora e dar de mamar em público, de oferecer rosas para os filhos comerem”, localiza a agitadora cultural Luana Maria, que foi modelo de Cacilda e dividiu com ela os acenos na intervenção da carroça, na Aldeota.

A bordo do carro de boi, protegidas por carcaças de animais, seguiram do ateliê, na Santos Dumont, desceram pela Desembargador Moreira até a Praia de Iracema e voltaram. “Só vim entender o que era a Cacilda muitos anos depois daquilo que vivemos”, afirma Luana que foi atraída, ainda adolescente, para trabalhar com a estilista.

A mistura dos cortes com artesanato e performance foi o que levou Luana para perto de Cacilda. “Uma coisa que perturbava meu juízo era o fato de ela usar os panos. Eu achava aquela arte de criar um fascínio”, relembra. Muitas vezes, as roupas eram criadas no corpo da modelo, com a mistura de muitos tecidos em amarrações – ora revelando o corpo, ora se escondendo entre as texturas.

Extravagante

Filha mais velha em uma família de oito irmãos, Cacilda se mudou para o Rio de Janeiro durante a juventude com o objetivo de estudar e tocar o sonho de ser arquiteta. Por lá, o espírito de liberdade se expandiu ainda mais e acabou por influenciar a trajetória dela. Mudou os planos. Voltou para Fortaleza e aqui se fez na moda, profissão que, de alguma maneira, sempre esteve presente na vida da estilista até 2013, quando faleceu. Mesmo após ter fechado o ateliê, não recusava ajudar amigas com novas criações e dicas de roupas para festas.

“Ela tinha uma aura dançarina. É como se ela fosse uma borboleta, sempre quis estar além do tempo” - Zizi Vilel, irmã

“Ela tinha uma aura dançarina. É como se ela fosse uma borboleta, sempre quis estar além do tempo”, conta a irmã Zizi Vilela, mais nova sete anos, que também trabalhou como modelo de Cacilda. Não foi fácil convencer os pais de que a irmã, então com 12 anos, trabalharia com ela nas passarelas. À época, ainda era mais difícil dissociar da prostituição qualquer outra profissão em que o corpo estivesse em evidência. Claro que Cacilda bancou a briga com a família. “Ela me protegia muito, como se eu fosse uma filha dela. Essa postura contestadora e forte me ajudou muito, principalmente, para enxergar as coisas muito cedo”, reparte Zizi.

Surpreendente

Certa vez, em uma apresentação em Brasília com a dupla André & Cristina, Cacilda surpreendeu no palco os próprios músicos que haviam ensaiado uma intervenção. Cacilda surge vestida com uma malha transparente e começa a desenvolver a dança de impressionar o público e os artistas. “Era como se ela estivesse nua. Foi algo bem forte, que pegou a plateia de surpresa e se transformou no ponto alto do show”, narra a cantora e hoje gestora cultural Cristina Franciscutti.

Quando perguntada sobre o que leva da relação com a amiga, Cristina evoca a força. Era essa palavra e a vontade de viver que resumem, para a artista, a Cacilda que atravessou a moda, a performance e a vida com a coragem de superar adversidades, as surpresas e alguns “nãos”. “Eu chamo isso de expansão. Cacilda era uma pessoa que chegava nas outras pela arte, pelo cuidado, pela amizade e de diversas formas”, traduz a amiga.

O afastamento de Cacilda da moda e dos palcos borra a memória em torno da artista que povoou as passarelas e a Cidade. Ela, porém, continua a expansão na lembrança dos amigos e da família que, agora, tentam resgatar o legado de uma artista de ontem que viveu sonhos e ideias de hoje.

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