Terremotos na América do Sul e Filipinas coincidem com período de forte atividade solar
A ciência do clima espacial merece mais atenção do que os avistamentos virais que nunca se confirmam.
Na quarta-feira (24), a América do Sul enfrentou um dos cenários sísmicos mais severos das últimas décadas. Dois fortes terremotos consecutivos — um fenômeno conhecido como duplete sísmico —, de magnitudes 7,2 e 7,5, atingiram o noroeste da Venezuela, com epicentros próximos a San Felipe e Morón, na costa caribenha conectada ao Atlântico.
O desastre provocou o desabamento de estruturas na capital Caracas, causou apagões generalizados e levou o governo a declarar estado de emergência nacional, deixando um rastro inicial de pelo menos 160 mortos e centenas de feridos.
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O reflexo dos abalos foi sentido com força na vizinha Colômbia, assustando moradores em áreas urbanas como Bogotá, Bucaramanga e em diversos departamentos da costa norte do país. A violência do tremor cruzou fronteiras a ponto de fazer janelas e móveis balançarem em Manaus, no Brasil.
Esse susto na região ocorre poucas semanas após outro evento catastrófico no planeta: no início deste mês, em 7 de junho, um terremoto de magnitude 7,8 sacudiu Mindanao, no sul das Filipinas, gerando alertas de tsunami e deixando dezenas de vítimas na província de Sarangani.
A CONEXÃO COM O SOL: COINCIDÊNCIA OU CIÊNCIA?
O que poucos noticiários têm mencionado é que essa onda recente de grandes sismos coincide com um período de intensa atividade solar. Em linguagem simples: o Sol vem lançando nuvens gigantes de partículas carregadas de energia em direção ao nosso planeta.
No caso do evento nas Filipinas, uma dessas explosões solares, registrada no dia 6 de junho, estava prevista para atingir o escudo magnético da Terra por volta do dia 8 de junho, gerando uma tempestade geomagnética de intensidade moderada a forte.
Enquanto a crosta terrestre responde às pressões acumuladas em suas falhas geológicas, o campo magnético do planeta enfrenta bombardeios solares frequentes. Isso tem base científica sólida.
Pesquisadores da Universidade de Kyoto desenvolveram um modelo teórico mostrando que perturbações provocadas pelo Sol na camada superior da atmosfera — a ionosfera — podem gerar forças elétricas que penetram até as fraturas profundas da crosta terrestre. Se uma falha geológica já estiver sob tensão, esse impulso extra pode ser suficiente para desencadear um terremoto.
Um estudo publicado na revista científica Geophysical Research Letters, em março de 2025, foi ainda mais direto. Analisando quase um século de dados, os pesquisadores encontraram maior probabilidade de ocorrência de terremotos após tempestades geomagnéticas.
A ideia de que o Sol pode influenciar os terremotos da Terra tem mais de 170 anos de investigação científica, remontando ao astrônomo Wolf, em 1853. Estamos diante de uma hipótese antiga, testada e cada vez mais embasada — bem diferente de especulação.
O momento atual exige atenção redobrada: este mês de junho já abriu com uma forte janela de tempestade geomagnética entre os dias 4 e 6, atingindo o nível G3 (forte). O fenômeno foi impulsionado por uma "tempestade solar canibal" — formada pela fusão de nuvens de plasma solar lançadas pela instável região de manchas AR4455.
Monitoramentos mais recentes realizados nesta semana indicam que novos e gigantescos grupos de manchas solares continuam rotacionando em direção à face visível da Terra, mantendo os cientistas em alerta para novos episódios de ejeção de massa coronal. O Sol age sobre a Terra de formas que a ciência ainda está mapeando, e acompanhar esse campo de pesquisa tem consequências práticas reais para a humanidade.
Muito diferente dos avistamentos de "objetos voadores" que dominam as redes sociais semana após semana e quase sempre se revelam balões, drones, lanternas de festa junina ou o brilho do planeta Vênus num céu limpo. A esmagadora maioria desses casos são enganos ou busca de atenção nas plataformas digitais. O que tem impacto real sobre a vida das pessoas está no Sol — e precisa ser levado a sério por governos e pela imprensa.
O IMPACTO E A REALIDADE NO BRASIL
Uma boa notícia para o leitor local: o Ceará fica longe de qualquer risco sísmico significativo. Os terremotos ocorrem principalmente nas bordas das placas tectônicas — grandes blocos rochosos que formam a crosta da Terra e se movem lentamente, colidindo ou se separando ao longo de milhões de anos.
Enquanto a Colômbia e a Venezuela sofrem o impacto direto por estarem situadas na complexa zona de atrito entre a Placa do Caribe e a Placa Sul-Americana, e as Filipinas estão sobre o volátil Anel de Fogo do Pacífico, o Nordeste brasileiro, por sua vez, está firmemente assentado sobre o interior da Placa Sul-Americana, longe dessas zonas de atrito de alta intensidade.
Os pequenos tremores que, vez ou outra, são registrados no interior do Ceará e do Rio Grande do Norte têm origem em falhas geológicas antigas e de baixa energia, muito distantes da violência do terremoto que atingiu nossos vizinhos ontem ou do abalo nas Filipinas no início deste mês.
Aqui no Nordeste, a ameaça que chega pelo ar tem outro nome: El Niño, um fenômeno climático causado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico, que altera o regime de chuvas em todo o planeta. Quando esse aquecimento ultrapassa dois graus acima da média histórica, os cientistas chamam de El Niño Extremo ou, como tem se popularizado nas redes sociais, Super El Niño — e é exatamente isso que está sendo previsto para este segundo semestre de 2026.
Modelos climáticos indicam que o El Niño deste ano pode ser o mais intenso em décadas, comparável ao de 1877, quando o Nordeste foi devastado por uma das piores estiagens de sua história, com lavouras destruídas e êxodo em massa.
A previsão do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, divulgada no início deste mês, reforça o cenário de El Niño na segunda metade do ano, com a seca tomando conta do Norte e do Nordeste já a partir dos próximos meses. As chances de formação do fenômeno já ultrapassam 90%, com cerca de 50% de probabilidade de que alcance intensidade forte ou muito forte.
Diante disso, é hora de cobrar medidas concretas dos governos federal, estaduais e municipais. Reservatórios precisam ser monitorados e geridos com planejamento de longo prazo. Programas de cisternas e de convivência com o semiárido precisam ser reativados e ampliados antes da estiagem se instalar.
Agricultores familiares carecem de acesso a crédito emergencial e a variedades de cultivo adaptadas à seca. As populações mais vulneráveis do interior precisam de sistemas de alerta precoce e de planos de abastecimento de água já em funcionamento — e os gestores públicos precisam começar agora, com as previsões em mãos.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.