Bolsonaro aposta no folclore evangélico para permanecer vivo

Legenda: Liniker Xavier é jornalista e pesquisador
Foto: Arquivo pessoal

Acuado pela CPI da pandemia e vendo seu maior desafeto político, o ex-presidente Lula, ganhando força no cenário que já se desenha para as eleições de 2022, o presidente Jair Bolsonaro voltou a apostar no folclore evangélico para manter sua popularidade em alta. São eles, os evangélicos, o grupo mais fiel da base de apoio do presidente que, no sábado (8), voltou a afirmar que indicaria um ministro “terrivelmente cristão” para o STF. A vaga estará disponível em julho.

Aos fiéis que o ouvia no cercadinho da república, Bolsonaro fez um convite ao delírio: “Imagina o STF começando a sessão com orações por parte desse ministro?", questionou. O presidente sabe que é quase impossível que isso aconteça, mas aposta no folclore destas denominações para angariar os fiéis que vivem anacronicamente.

O crescimento evangélico brasileiro se dá, especialmente, com a explosão no número de fiéis pentecostais e neopentecostais. Na década de 80, com os trabalhos de elaboração da nova Constituição, as duas vertentes apostaram alto na eleição constituinte, propagando a máxima de que “irmão vota em irmão”.

Os evangélicos deveriam votar nos evangélicos. Isso porque pregava-se que, caso os evangélicos não participassem da elaboração do texto constitucional, os cultos seriam proibidos, o comunismo seria instalado no Brasil e a imoralidade seria legalizada junto com o uso de drogas.

Criou-se um folclore: esta é a última Constituição Federal antes da volta de Jesus, diziam. Foi nesse período que criou-se as lendas mais famigeradas do Brasil: os discos infantis da Xuxa tocavam mensagens subliminares se fossem ouvidos de trás para a frente; a Rede Globo queria acabar com as famílias por meio de suas novelas e o carnaval, uma festa diabólica, diziam, tinha como consequência aquilo que os evangélicos chamavam de “praga gay”, a Aids. Um show de horrores registrado nos jornais de denominações como a centenária Assembleia de Deus.

Pouca coisa mudou de lá para cá. A moral e os bons costumes permanecem em alta. O mundo ainda está para se acabar a qualquer momento. O comunismo come criancinhas e as novelas da TV Globo permanecem afrontando a família tradicional.

Para não dizer que tivemos alguma mudança nessa pauta, está permitida uma nova modalidade de programação: a novela bíblica, um gênero moderníssimo. De Moisés a Jesus Cristo, de José do Egito ao Rei Davi, na tela da concorrente da TV Globo.

Passada a metade de seu mandato na presidência, Bolsonaro permanece sem um plano de governo para o país. Pouco ou nada avançou em questões de saúde pública, educação e segurança. Isso quando não regrediu.

Com a popularidade em baixa em grupos caros ao governo, dobra a aposta no mais folclórico, já que, para estes, pouco importa se a economia vai bem ou se o país transformou-se no cemitério do mundo, desde que a moral, os bons costumes e a família tradicional sejam respeitadas.

Liniker Henrique Xavier
Jornalista, mestre em teologia e doutorando em ciências da religião