Desinformação ronda a escalada de tensões entre EUA e Irã

Em uma semana marcada pela retaliação do Irã contra o assassinato de um comandante militar por forças norte-americanas, redes sociais são inundadas por notícias falsas sobre o conflito, que usam imagens antigas e dados errados

Legenda: Iraniano consulta celular, fonte de desinformação sobre conflito com EUA, enquanto passa por mural antiamericano, em rua da capital Teerã
Foto: Foto: AFP

A escalada de tensão entre o Irã e os Estados Unidos desde que o ano começou levou milhares de pessoas a compartilhar informações falsas nas redes sociais, com fotos e vídeos publicados fora de contexto. No último 3 de janeiro, o general iraniano Qassim Soleimani morreu em um ataque com drone americano no Iraque. Segundo Washington, Soleimani planejava algo que iria contra os interesses americanos.

A autoridade máxima do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, se comprometeu em vingar a morte de Soleimani. Com isso, os EUA anunciaram reforços nas tropas do Oriente Médio, enviando 3.500 soldados.

Nesse contexto, milhares de internautas compartilharam um vídeo no qual um USS Triton, o submarino mais letal do mundo, passava pelo Canal do Panamá rumo ao Irã. Na verdade, as imagens eram de 2017, quando outro submarino, o USS Dallas, atravessou o oceano para ser desmontado no estado de Washington.

Depois de o Irã comunicar que se vingaria, meios de comunicação e internautas compartilharam um vídeo no qual uma bandeira vermelha é hasteada na mesquita de Khamkaran, na cidade iraniana de Qom. Nele, diziam que era a primeira vez que o templo colocava uma bandeira dessa cor, que representaria o sangue dos mártires e seria um símbolo de vingança.

As imagens eram reais, mas o hasteamento de uma bandeira vermelha na mesquita não era inédito. Essa bandeira é levantada durante o mês muçulmano do Moarrão, o primeiro do calendário islâmico. A mesma autoridade confirmou que o hasteamento da bandeira vermelha fora de época simbolizava sim um desejo de vingança.

No último 4 de janeiro, ocorreram dois ataques quase simultâneos na protegida Zona Verde de Bagdá e em uma base aérea iraquiana que aloja soldados americanos no norte da capital, segundo autoridades responsáveis pela segurança. Um dia após os incidentes, um vídeo começou a circular vinculando o Irã ao ocorrido.

No vídeo, pode-se ver pontos luminosos em um céu noturno. Alguns desses pontos explodiam no ar e outro atingia um edifício.

Na verdade, esse vídeo foi publicado na internet em 12 de novembro de 2018, durante uma das piores escaladas de violência entre os palestinos e israelenses. Nesse dia, foguetes foram lançados da Faixa de Gaza a cidade israelense de Ashkelon.

Facebook

A resposta do Irã à morte de Soleimani chegou na madrugada da última quarta, com o lançamento de mísseis contra bases militares no Iraque usadas por tropas americanas.

Desde então, milhares de pessoas compartilharam no Facebook imagens em que aparecem disparos de projéteis e explosões.

De fato, nenhuma das fotos é atual. Uma delas corresponde ao ataque do Irã contra a Síria, em outubro de 2018. A outra imagem mostra uma explosão durante um ataque de Israel contra as bases da Jihad islâmica em Gaza, em novembro de 2019.

Outras duas foram tiradas em junho de 2017, durante um ataque iraniano contra uma base do grupo extremista Estado Islâmico na Síria. A quinta é também um ataque israelense a Gaza, mas na ocasião ocorrido em 2014. A última, por sua vez, mostra um míssil russo durante treinamento, em 2014.

Mais sanções

Os EUA anunciaram, ontem, novas sanções contra o Irã, que visam a oito altos funcionários do regime que avançaram nos "objetivos de desestabilização" da República Islâmica, além dos maiores fabricantes de aço, alumínio, cobre e ferro do país.

Embaixadas na mira

O presidente dos EUA, Donald Trump, disse, ontem, que o general iraniano Qassim Soleimani planejava ataques contra "quatro embaixadas" americanas antes de sua morte na semana passada."Provavelmente (um dos alvos) seria a embaixada de Bagdá".

Otan: Irã abateu boeing

O secretário-geral da Otan, Jens Stoltenberg, aprovou, ontem, a tese de aliados segundo a qual um míssil abateu o avião ucraniano que caiu na quarta-feira perto de Teerã, algo que o Irã nega. A Holanda anunciou, ontem, ter informações de que um míssil iraniano provavelmente causou o acidente.

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